0

Vamos falar de gratidão

Vamos falar de gratidão. Talvez porque eu simplesmente esteja sufocando. Talvez porque seja realmente necessário falar. O mundo está cada vez mais cheio de pessoas enfeitadas e almas vazias. Eu diria ingratas também, principalmente. Tenho lá minhas dúvidas. Talvez só tenhamos desaprendido a agradecer. Mas, meu medo é que não saibamos o caminho de volta.

Antigamente as pessoas olhavam umas para as outras nos olhos. Hoje em dia, de cima para baixo em busca de algo que a faça se sentir soberana. Ou talvez em busca de algo que não a faça se sentir diminuta. Estamos sempre em busca de superar, não a nós mesmos, mas os outros e não importam os meios. Importa chegar o topo e topo se justifica. O topo justifica a ingratidão. Vivemos em uma ampla rede em que todos estamos conectados, mas a individualidade tem se sobressaído. Achamos que somos deuses de si e de todos. E esquecemos de estender as mãos.

Esquecemos de reconhecer que nada foi possível sozinho. Antes, estendíamos a mão para ajudar. Agora, estendemos para se certificar que o outro está a uma distância considerável…atrás de nós. Falamos mal de quem nos ajuda e (pasmem! ) admiramos aqueles que não se importam conosco. Será que está no DNA ser tão injusto, cruel e…ingrato? Ou é apenas uma modinha? Quando nos perdemos uns dos outros?

Nossas línguas tem sido rápidas para destruir e vagarosas em consertar o mal causado. Talvez porque palavras não voltam para a boca de quem as proferiu. Na verdade elas se alastram destruindo e ferindo por onde passam. E nós nunca teremos noção do que causam, até que um dia, as palavras de outra pessoa venham nos atingir. Então, veremos o quanto de maldade podemos espalhar. Um círculo vicioso em que parece não estarmos dispostos a ceder. Afinal, ninguém quer sair por baixo.

Aos poucos, percebemos que algo precisa ser feito. Mas, talvez o outro é quem deva começar. Sempre olhamos para os lençois sujos do vizinho no varal, quando na verdade, são as nossas janelas que estão sujas.

Anúncios
0

Mas…a que preço?

Sabe aquele fatídico dia em que você decide sair do seu “mundinho” e ligar a televisão? Então foi essa simples, ingênua e arriscada atitude que me trouxe ao post de hoje. Há alguns anos, fiz um pacto de evitar telejornais e televisão, sim, você pode  e consegue sobreviver a isso. Foi uma escolha pessoal já que tudo a que eu assistia se resumia a uma única categoria: destruição. E a culpa que senti naquele momento ainda sinto hoje, a culpa de ser cúmplice, a culpa do silêncio, a culpa da impotência. Ao que me parece, estamos todos perdendo o bom senso e a moral. Enquanto algumas pessoas provam que não se pode perder, aquilo que jamais se teve.

download

Há alguns dias venho passeado pela minha cidade, embora o calor que faz nessa época impeça muitas das atividades as quais me proponho frequentemente. Tenho me sentido profundamente angustiada, outro dia, vi  um dos lugares que amo ver pela manhã incendiando, era meio dia. Eu passei de carro e apenas me senti imbuída de um sentimento chamado culpa. Queimadas são frequentes nesse período e isso tem se tornado normal, quando não deveria. Não é normal compactuar com tanta destruição, não é normal me isolar em um mundinho porque a realidade tem ficado a cada dia mais cruel e menos suportável. Não é normal tratar como “faz parte do processo” tanta falta de humanidade e desinteresse. Estamos ganhando? A que preço?

Abrimos mão de pessoas, valores, memórias, lutas por cansaço. Cansaço de fracassarmos em nossos esforços, cansados de sermos a maioria perdendo para  “o mais forte sobrevive”. É  a seleção natural de Darwin aplicada à famosa “selva de pedra”. Deveríamos dizer natural? Morrendo em um mar de mentiras, assassinatos, corrupção, devastação? Destruindo uns aos outros, destruindo o que, ironicamente, é o que ainda nos faz ficar de pé?

Haveria um tratamento para tamanha insanidade ou estamos de fato perdidos? O que bombeia o sangue para o nosso corpo, ainda é o coração? Tenho me perguntado isso a cada dia que passa, a cada degradação humana cometida, a cada notícia de pai matando filho, filho encomendando a morte de pai, crianças violadas, famílias destruídas, matas dando lugar  a construções de cimento ou a nada. Afinal, o nada que não era para significa tanto tem se mostrado bastante espaçoso. Preenchemos nossa vida de nada, nossos olhares estão vazios, nossas consciências em um sono profundo. Já não temos capacidade de olhar para frente, olhamos para baixo, para o nosso umbigo ou simplesmente fingimos não ver. O que está faltando?

0

Sobre se tornar mais velho (a)

“Today is the greatest day I’ve ever known
Can’t wait for tomorrow
I might not have that long
I’ll tear my heart out
Before I get out…”

Então, aqui estou eu…iniciando mais um ano novo, em pleno meio de semestre, ultimamente, é assim que tenho visto meu aniversário. Nossa, 21 anos se passaram desde que nasci, nesse tempo, comecei uma carreira, consegui um diploma universitário, encontrei o amor, descobri a amizade, criei e desfiz laços, sem dúvidas ou arrependimentos… acordei poucos minutos antes da meia-noite, e bateu aquela angústia de que o tempo está passando, bateu aquela vontade de voltar ao início e fazer as mesmas escolhas. Ás 00:00 hrs o meu dia começou e fiz uma prece silenciosa com o coração cheio de esperança.

Acho que é isso que acontece quando ficamos mais velhos, de repente, aquilo que insistentemente nos irritava não é mais motivo de alarde, você descobre a magia que é engolir a raiva e o estresse e transformá-lo em algo mais útil, como o perdão. Você percebe que perdoar se torna mais fácil, valoriza mais cada minuto com as pessoas que te fazem. E finalmente compreende aquela famosa frase de Shakespeare: o que importa é quem você tem. Descobre que criar amigos é melhor que criar monumentos e deixar um legado material. Descobre que o que te manterá eterno/a para as pessoas é quem você realmente é com elas, não o que tenha feito por elas.

Finalmente eu me sinto adulta. Bom, quase… hoje, minha mãe disse que a criança que mora em mim jamais morrerá, não importa o quão mais velha eu fique. E eu sorrio, porque começo a acreditar que isso é verdade. Eu começo a tirar lições mais rápido das coisas que acontecem comigo e já as compartilho com quem está ao meu redor. Isso faz parte de tornar-se mais velho/a. Bom, ser adulto/a é legal, quando você realmente sabe quem está se tornando. Algumas manias minhas de menina ainda continuam, muitos sonhos, meus olhos ainda brilham quando escuto algumas músicas ou assisto alguns desenhos, ainda continuo planejando da forma mais inacreditável possível, ainda apronto e saio correndo, ainda ando descalça e digo que “eu preciso me conectar com as minhas raízes”. Meu “eu” adulto cheio de responsabilidades precisa dessa garotinha. E isso…faz parte de se tornar mais velho/a: Decidir o que continuará e o que precisa ser mudado. Não é negar quem era que vai te fazer mais sábio/a com o tempo, mas saber aonde, exatamente, você está pisando. E é essa a segurança que te fará caminhar.  Enquanto eu souber por onde caminhar e mesmo que eu não saiba que eu possa lembrar das coisas que realmente me importam e me tornam quem sou, então saberei  o que fazer.

Vai um bolinho, aí?

Vai um bolinho, aí?