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CAPÍTULO 6 – DESCONTROLE

Após o almoço, Amanda saiu para investigar as consequências daquela chuva. Saiu com o seu inseparável amigo. Caminhou por todos os lugares onde os estragos foram bem piores. Desceu pela rede de esgotos da cidade, assim que colocou o pé no chão, pisou em algo gelatinoso e preto, muito pegajoso. O cachorro olhou aquilo, cheirou e provou. A garota parou para verificar, aquilo não era conhecido. Continuou a caminhar, encontrou um tecido rasgado da cor preta mais a frente. O silêncio terrível daquele lugar cedeu espaço a pedidos de socorro. Ela corou instintivamente. O medo congelou o seu cérebro.

Era um homem alto, todo de preto, atirado no chão. Sua pulsação lenta, aparência fúnebre. Estava muito machucado e arranhado. Próximo ao canto de sua boca, havia marcas de sangue.

“ O que houve? “, ela perguntou aproximando-se do corpo. “ Bruno? Como você veio parar aqui? “

“ Havia muitos deles… antes de desmaiar, eles se misturaram às sombras e foram embora, outros tentaram me levar. Eles são agressivos, perigosos. O que estou fazendo aqui? “, Bruno falava ofegante e demoradamente. Custava-lhe muito.

De fato, pelo jeito que estava o lugar, havia ocorrido uma briga feia, pedaços de concreto estavam no chão, buracos na parede, manchas de sangue. O pedaço de pano encaixava-se na manga do casaco dele. Amanda tirou sua garrafa da bolsa e deu-lhe água. Com muita dificuldade, ajudou-o a se erguer. Caminharam lentamente. Ele não parava de repetir o que havia falado. Quando chegaram próximo a uma saída do esgoto, a garota deixou-o encostado na parede.

“ A ajuda já vai chegar. Por favor, não conte que eu o ajudei e que estive aqui.”

Ela subiu a escada com o cachorro. Quando chegaram, ela pediu para Spoke ir até o hospital e fazer com que o seguissem até o garoto. A ajuda não demorou, também um cachorro que arranca o soro  de uma maca e sai correndo não é muito comum em hospitais. Chamaram a ambulância , Amanda voltou para casa, mas antes passou em um supermercado. Precisava mudar seu visual. Comprou tinta vermelha, era uma mudança e tanto.

Na porta da pousada, tinha um gato preto sentado só olhando. A garota entrou  e o animal soltou um miado. “ Senhora Camperon, Senhora Camperon? “

Mal recebera os cuidados médicos, Bruno teve seu sossego adiado devido aos policiais que entraram em seu leito para interrogá-lo. O rapaz contou a verdade, mas ninguém acreditou, o médico sugeriu que ele estaria com estresse pós- traumático. O delegado trabalhava com a linha de investigação que indicava vândalos como autores dos últimos acontecimentos. O que era irrelevante, pois a cidade não era como as grandes.

Frustrado, o chefe da polícia, Gutemberg, saiu com muita raiva, recebia pressões dos superiores para resolver o caso. Ele não admitia errar e nem confirmar que não tinha pistas . Na pousada, a doce senhora Camperon concordou em matricular a jovem inquilina na escola. Afinal ela não podia perder aulas. A garota ficou extasiada.

Enquanto caminhávamos, Maurício me deu o presente que tanto ele falava. Era um “flipbook”, lindo! Quando passei as folhas, me vi com uma flor na mão. Nossa era um presente e tanto, agradeci. Continuamos em silêncio, ele, com as mãos no bolso, eu, segurando o livro. Eu o acompanharia até o fim da rua. Eu queria  falar que gostava dele, mas como eu explicaria que não podíamos ficar juntos porque nasci destinada a consertar um grande erro e, provavelmente, não existiria mais aquela Gabriella. Quis gritar, mas não deu. Enfim, chegamos ao final. Nos despedíamos, sem abraços, apertos de mão. Ele estava triste, além de ver, eu podia sentir sua tristeza. Voltei, ele seguiu. Alguns segundos depois, eu virei e o chamei. Ele parou, eu corri e o abracei, agradeci pelo presente e pedi desculpas, ele ficou meio deslocado. Não precisava entender.

“ Você sabe que não deveria ter feito isso.”

“ Sim, eu sei. É por isso que somos da mesma família, Aleja. “

“ Ele vai ter esperanças.”

“ Ao menos alguém aqui pode ser humano” eu queria chorar. Agora que eu tinha amigos, agora que me senti parte de um grupo…

“ Você deve ser responsável e objetiva. Veja a mente dele, por que se bloqueia? Você é mais guardiã…”

“ … que Gabriella… acho que eu posso me governar, não posso? Não é por ser minha tatara que vou obedecê-la, lembra quem causou tudo isso?” Aleja não respondeu. Olhei para o outro lado da rua, aquele garoto estranho de novo. Dessa vez corri atrás dele, mas em um beco ele sumiu.

Sentei na mesa e comecei a fazer minha lição, depois deveria revisar o conteúdo para o teste do dia seguinte. Ariel ficou sentado também. Meu celular tocou.

“ Oi, sou eu, Erika, não se importa porque eu peguei seu número não é? Como foi? Ele falou com você? O que você disse?”

Fechei a porta com um fechar de dedos. Deixei no viva- voz, eu tinha que escrever. Ariel perguntou se podia sair, eu disse que ele podia ficar.

“ Ah, não! Eu sei que os dois estão a fim um do outro, mas nenhum tem coragem de tomar a frente. Não foi só isso o que aconteceu, eu tenho certeza. Meu foco jornalístico não se engana.”

“ Que bom que você é vidente… ”

“Não fuja do assunto. Eu sei que ele jogou verde, me mostrou até um certo presente… ”

Fiquei sem palavras, ela me chamou. Ariel mordia os lábios, provavelmente ele nunca presenciou um momento desses. Ele estava confuso, eu vi sua mente. Coitado.

“ Bom, conversamos normal. Ele me ajudou a lavar a louça. ”

“… e se declarou! Não é tão romântico, mas vale.”, ela ria.

“… perguntou porque sou quem sou e a gente quase, bom quase… “- interrompi minha fala, seriam informações demais. Mas, ela entendeu o que eu iria dizer e gritou eufórica do outro lado da linha.

“ Fala com ele. Vocês ficam lindos juntos!”

“ Erika, eu não posso…”, ela não ia entender. “… pode ser que eu esteja somente atraída, ele é lindo. E parece que ele não quer somente ficar. Olha preciso estudar. O senhor Gonçalo não tem boa impressão de mim, então preciso arrasar nessa prova. Conversamos depois . Tchau”

“ Tchau, chata”

Nem precisava dizer que aquela situação me deixou deslocada. Estudar matemática foi um saco. Após o jantar, lição de magia. Aprendi a reconstruir coisas, Ariel quebrou o meu violão. Aí não teve jeito. Eu tinha que aprender. Escrevi no meu livro.

“ Pai, não precisa vir me buscar. Hoje vou a biblioteca, preciso fazer umas pesquisas.”

“ Tudo bem. Mas esteja em casa cedo. Não quero que tenha uma recaída novamente. Qualquer coisa, me liga.”

O carro parou. Despedi-me do meu pai e do Gabriel. Desci, ainda faltava um tempinho para o início das aulas. Fui para a sala, guardei meu material e saí para o refeitório.

“ Preparada para o resultado do teste? O senhor Gonçalo disse que já corrigiu as provas de antes de ontem… “, disse Fernanda.

“… e como você parecia que não  estava aqui… “, completou Erika. Fernanda deu uma cotovelada nela.

“ Estou com uns probleminhas… “, disfarcei. Pisquei os olhos fortemente.

Erika ficou calada por um instante. Olhava para além de mim, nem precisei virar. Olhei em seus olhos e vi nitidamente Maurício e Bianca de braços dados. Os dois se aproximaram da nossa mesa. A loira, estava com um ar triunfante, colocou uma bandeja com seu café na mesa.

“ Oi, Gabriella”, ela disse. “ Senta, Maurinho, afinal, são seus amigos “. Ele sorriu incomodado.

“ Olá. ”

“ Já vai? Ah, fica mais um pouco…”, sua voz era melosa.

“ Ô, macarrão escorrido! Ela vai para onde quiser. “

“ Calma, Erika” Eu tinha que sair, precisava impedir que o capitão do time de futebol entrasse no refeitório. Levantei novamente, Bianca me puxou pelo braço. O refeitório ficou em silêncio. Mirei bem nos olhos dela, mentalizei que ela ia me soltar e ela o fez.

Já não dava mais tempo. Caminhei em direção ao Fernando que estava prestes a sentar em uma mesa com sua turma, digamos, “ os excluídos”. Peguei o seu braço.

“ Vem comigo.” Tarde demais.

“ Fernandinho, cadê você? Ah, aí está “, disse o capitão do time de futebol abrindo as portas do local. Três amigos dele logo atrás, um com um presente nas mãos, o outro com um tacho cheio de molho. “ Eu quero pedir desculpas”.

Fernando parou. Chamei-o novamente. Ele pensava que tudo ia acabar ali. Todas as armações. Todos pensavam assim e paravam o que estavam fazendo, menos eu.

“ Eu trouxe isso pra você”, ele entregou a caixa.

“ Obrigado “, ele sorriu, mas depois mudou de expressão.

“ E aí gostou?, ele puxou o protetor “ Quero pedir desculpas por ter feito isso com o antigo. Ele puxou do tacho outro.

“ Deixa ele!”, empurrei-o. Inútil. Ele não se moveu.

“ Sai do meio, gatinha. Suas garras não me arranham”  ele me empurrou, Maurício puxou-o e deu-lhe um soco, no momento que os comparsas de David seguraram o meu defensor para o líder bater, o diretor chegou.

A diretoria era tenebrosa, móveis antigos, feixes de luz com poeira passavam pelas janelas, cortinas amarelo-escuro. Um local totalmente contrastante  com o restante da estrutura da escola. O senhor “ vicking “, ou melhor, Gonçales um homem careca, gordo que mais parecia o Hagar, só que sem a barba. Nos levou para lá, quero dizer, David, Igor, Marcelo, Felipe, Fernando, Maurício, Erika ( por ser a jornalista ) e eu.

Ficamos em pé, um do lado do outro. O diretor sentou-se na mesa, uniu os dedos das mãos e nos olhou inquisidoramente.

“ Bom, o que aconteceu?”

Todos começaram a falar, menos eu. Se eu tivesse ficado na minha…. claro que não, eu fiz bem, “bem para quem” era a pergunta, estávamos na diretoria.

“ Já mandei chamar os pais de vocês. É bem mais fácil se uma só pessoa me contasse o que realmente aconteceu. “

Erika adiantou-se. Ela não tinha nada a ver com o assunto. Olhamos para ela.

“ Diretor, uma só palavra: bullying. É… o senhor pensa que essas coisas só acontecem com os outros. Não… esse brutamontes ficam aterrorizando a vida do Fernando e nada acontece com eles. Cuidado se o conselho tutelar descobre o seu cargo já era.”

“ Que tal começar do interno, senhorita Camargo? ”

“ Ei… senhor diretor posso falar?”- pedi permissão.

“ Ah, senhorita Cavalieri já ouvi falar sobre sua condição aqui na escola. O que quer dizer?”

“ O David estava humilhando o Fernando em frente toda a escola e a gente só tentou acabar com aquilo. Eu … acho que foi…isso,” estremeci.

“ Por acaso não ocorreu-lhe que isso é um assunto da direção?” ele foi severo, “ Senhor Stevan, o que aconteceu?. “

O nerd olhou para todos em volta. Quase não acreditei no que ele ia falar. Mentalizei o que acontecera. O Fernando não poderia dizer que nada aconteceu, o medo não podia dominá-lo.

“ O que já disseram. Eles pegaram meu protetor e colocaram dentro do molho que ia ser servido no almoço e me deram um novo, senhor” ele tampou a boca assustado. Sorri, satisfeita. Só o Maurício viu, quando o percebi parei.

“ Muito bem. Voltem para a sala. Vocês do time, não.”

Quando saímos nossos pais estavam na recepção. Não pudemos falar com eles. Quando entrei na turma, eu a vi. Sentada atrás da minha carteira, uma garota ruiva , corte channel, “ PROBLEMA “, pensei. Sei lá, eu deveria ter cuidado perto dela. Não sei porquê. Só senti isso. Já estávamos no início da segunda aula. Bomba: as notas de matemática. “ 6,9 “, não era justo. Olhei para o professor . “ Estude mais” , ele disse. Conferi meus cálculos a nota era sete.

Quando acabou a aula, fui até a mesa do professor. Ele falou que eu não sabia diferenciar um nove de um quatro e que aquilo contava sim porque outra pessoa não ia me procurar pra saber se o número que escrevi era um quatro ou um nove. Fiquei chateada, peguei minha mochila e saí. Escutei aquela música do colar del. Meus livros caíram, apanhei-os corri para a outra sala, estava atrasada.

No recreio, encontrei o capitão do time de futebol. Ótimo, mais uma pessoa que me odeia. Ele me colocou na parede, literalmente.

“ Olha  aqui, gatinha. Garotas como você não devem se meter em certos assuntos. Se não tivesse se metido, eu poderia até fazer o favor de ficar com você.”- ela cheirou o meu cabelo. Aquilo me irritou profundamente.

“ Dispenso”  baixei os braços que me prendiam na parede, ele me puxou  para perto de si.

“ Solta ela!” falou Maurício com uma bandeja em mãos.

Os dois se encararam, bem próximos, cara a cara. David saiu Maurício colocou sua bandeja com o lanche sobre uma mesa e saiu me puxando pelo braço até sairmos do refeitório por uma porta lateral. Fazia sol lá fora, próximo aos jardins da escola, não era primavera, mas o verde dominava.

“ Você quer parar de se meter em encrenca? “

“ Me solta! E você para de ser o Super- Homem! Que coisa, hein.”

“ Se você parar de dar uma de Mulher Maravilha… O que está acontecendo? Ei, não foge não!”, ele me segurou perto dele.

“ Para de fugir, você parece um animalzinho amedrontado. Você finge que não está nem aí, mas na primeira oportunidade sai defendendo as causas dos outros. Você faria isso por mim?”

“ Você acha que eu quero dar uma de heroína… “

“ E só não salva você mesma. Cansei de brincar”  sua voz era séria, firme. Mas os seus olhos tão serenos, tão profundos. Senti que ele queria me beijar e…eu queria que aquilo acontecesse.

“ Ótimo! GAVE OVER”,soltei-me dele. Ele correu de novo, sua respiração era ofegante. Dessa vez eu não conseguiria me soltar sem usar meus poderes. Tentei o “ Você está me machucando “, não deu certo.

“ O jogo só acaba quando eu disser que acabou. Cansei desse esconde-esconde, por favor, seja sincera em seus sentimentos. Chega de ser o cavalheiro, o paciente…”

“ Que bom. Não estou a fim de ser princesa de ninguém.”

“ Vamos ver”, ele me trouxe para perto de seus lábios e me beijou. Eu não poderia resistir. Ficamos tão perto um do outro, tão unidos que eu não pretendia me soltar jamais. Seu beijo era suave como o sentimento que nos unia. Aleja apareceu na minha mente, me repreendeu. Usei moderadamente os meus poderes, ele não perceberia.

“ Você não podia…”

“ Mas, eu queria…”, ele tentou fazer com que eu ficasse. Então percebi que o mundo era muito injusto comigo.

“ Querer não é poder “, sai correndo para o banheiro. Olhei-me no espelho, levei minha mão a boca devagar, tentando acompanhar cada linha. O meu primeiro beijo não foi igual àquele. Era diferente. Sai correndo pelo corredor, tropecei na Fernanda.

“ Ei, calma. Para onde está indo?”

“ Vou para a sala” respondi assustada.

“ A próxima aula é para lá. Vem comigo acho que você não está bem”.

Entramos na sala, ela pegou os seus livros e colocou na carteira ao meu lado. Ficamos lado a lado, já que as carteiras eram em duplas.

O professor de literatura começou a ler o livro.

“Precisa de alguém para conversar? “ela cochichou. Sua voz era tranquilizante, parecia que ela sabia o que eu necessitava.

“ O que você faria se tivesse que escolher entre o que você quer e o que é necessário? “

“ Eu faria o necessário…”

“ Mesmo que isso te doa? “

“ Sempre há um meio termo. O Maurício te beijou não foi?”

“ Como sabe?”

“ Sua respiração está desregular, sua pressão diminuiu e agiu como uma fugitiva… Eu também estava no lugar errado e na hora errada…”

“ E isso mexeu comigo. ”

“ Só não esqueça quem é você, “ela sorriu. Página 48, parágrafo 8, linha 13″, ela disse.

“ Senhorita Cavalieri, continue a leitura, “ o professor me encarou.

… Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há de ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar – isto é, a coisa mais natural do mundo – a mais bela – não direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos extravagantes. Confesse que ama, que não é indiferente a esse sentimento inexprimível que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas criaturas humanas. ”

XXX

“ Mestre o que faremos?”

“ Esperar a noite cair. Já sabemos quem ela é….Gabriella, já estou chegando. “

“ O que o senhor pretende fazer?”

“ Dar a ela as boas vindas… no melhor pesadelo.

O mestre de capuz preto, abriu as mãos levemente e, entre elas , apareceu Gabriella exatamente onde ela estava : na escola. Sentada na carteira, batendo com um lápis na mesa.

“ Ela se parece muito com Aleja. Tão tola…” ele soltou uma gargalhada aterrorizante e sumiu na forma de uma sombra.

Finalmente o Caliban descobriu o que queria. A transformação de Gabriella esclareceu muitas coisas, mas dificultaria caçada. Duas metades, duas chaves. Quem ficaria com o controle da dimensão mágica? A verdade é que todos sabiam que um grande combate estava prestes a ocorrer. Todos os seres mágicos o sentiam e também estavam cientes que Aleja havia voltado ou Gabriella havia despertado. Eles podiam até não saber quem era, mas se a vissem certamente a cumprimentariam e a reverenciariam. Todos concordavam que os guardiões eram mais poderosos que o próprio rei, pois eram eles que batalhavam em defesa da dimensão. A realeza era mera convenção.

Ariel ficou em casa, entediado, cansou de ir à escola com Gabriella. Para se divertir, fez o almoço de Angélica dar errado, mas ela o fez consertar ameaçando-o com o feitiço da banição que ela sequer sabia fazer. Entrou no quarto de Gabriel recordou-se de sua infância. Queria ser humano como o garotinho, mas era impossível. Bom, poderia tentar. Ele preferiu ficar em casa porque da última vez que foi a biblioteca, ele desapareceu. Ariel não entendia como ele desaparecia  do nada.

Andou de um lado para o outro. Conversou com Angélica, ela contou o que a filha tinha aprontado na escola. Ele mostrou sua foto para ela, a mulher pediu algumas explicações, ele contou o que lembrava da sua vida. Mas, sobre sua morte , nada.

Amanda começou suas investigações  na escola e quem seria sua melhor fonte? Sim, Erika. Na saída, as duas conversavam. A jornalista tentou apresentá-la a Gabriella, mas esta disse que estava atrasada, Maurício tentou o mesmo, sem sucesso.

Ao chegar à biblioteca, a garota procurou a velha senhora que a atendera da última vez. Em seu lugar, havia uma mulher de no máximo 30 anos, loira com o cabelo no coque, alta, terninho preto, saia até o joelho e um escurpan. De fato, parecia modelo, não bibliotecária. Gabriella disse que havia uma senhora, a mulher retrucou, ela era a única naquele estabelecimento. !Tudo bem”, disse Gabriella.

Antes de continuar sua busca, ela resolveu percorrer todo o perímetro do local.Subiu as escadas em forma de espiral, madeira antiga, tom avermelhado. Na subida, mais e mais livros em estantes. Chegou ao primeiro andar. Enormes estantes empoeiradas, algumas mesas dispostas à frente delas, todas as estantes paralelas, do primeiro andar, podia se ver o térreo já que o piso possuía o centro recortado de forma que, lá embaixo, a biblioteca podia ver as mesas lá de cima.

O cheiro de papel e madeira velhos incomodava um pouco, nada que cinco minutos de exposição não resolvesse. Gabriella continuou a caminhar, lembranças vieram à sua mente: Homens e mulheres vestidos para baile, roupas elegantíssimas, dançavam no centro do térreo, lá de cima, ela podia vê-los bailar suntuosamente. Onde ela estava, viu pessoas conversando, um grupo de jovens exibiam varinhas, entre eles, Ariel. Eles sorriram e acenaram para ela chamando-a, a garota sorriu e quando olhou para si mesma,viu-se trajando um vestido azul-turquesa de mangas fofas e saia “ abaloada”, ela utilizava uma peruca branca assim, como todos os outros, seu penteado era um coque alto, com algumas mechas caindo. Ela correu até eles e quando chegou estava no mesmo lugar que havia entrado. Caminhou em direção a um corredor onde a placa indicava  “ História da cidade”, aleatoriamente, pegou um livro de capa preta, abriu as páginas amarelas . Uma página chamou sua atenção. A gravura ali representada era um salão de festas que se localizava onde naquele momento, existia uma biblioteca centenária. A garota leu e descobriu que aquele salão era frequentado em dias de grande festa, principalmente, chegada de famílias poderosas àquele lugar, onde eram apresentadas à sociedade. Após um incêndio, as ruínas foram reconstruídas  e o imóvel tornou-se um arquivo de livros.

“ Bons tempos.”

“ Você de novo? “

“ Esqueceu que estou dentro de você?”

“ É impossível, mas eu queria.”

“ Este dia, foi o dia em que conheci Ariel. Minha família estava sendo apresentada à sociedade. Chegamos da fronteira externa, uma guerra era eminente, mas as convenções exigiam. Um grande baile, sem dúvida. Estavam felizes…os guardiões sempre obtiveram êxito, as duas famílias eram unidas. Tanto que a cada geração, um representante era escolhido de cada para serem os guardiões. Estavam me preparando. Não era regra, mas os dois sempre acabavam se casando. Talvez porque não tinham chance de conhecer outras pessoas…”

“ Se você se lembra de tudo isso, por que eu tenho que pesquisar? “

“ Eu passei 200 anos em uma dimensão paralela, nem viva nem morta. Só me lembro de reviver algumas coisa, sem ver, sem sentir… Estou como Ariel. “

“ Ótimo. Mais essa.”

“ Por que me odeia? Era só não ter dito que sim. “

“ Você não deu escolha, lembra? Aliás, faço isso por Ariel, não por você. Você é má. “

“ Desculpe.”

Aleja deixou-a só. O celular tocou, a bibliotecária apareceu lá embaixo, fez gesto de silêncio. A garota desligou-o. Começou a ler.

XXX

“ Não vá, por favor,”  ele me pediu quase implorando.

“ Eu só vou caminhar com a minha mãe. Hoje é sexta-feira, que mal há?” perguntei ao pegar o trinco da porta.

“ É perigoso. Não, hoje. Deixe para ir outro dia. Sinto que  a senhorita corre perigo, “ sua voz era angustiada.

“ Acredite nele” disse Aleja.

“ Tudo bem”  saí para dizer à minha mãe que não podíamos ir. Como sempre, ela foi compreensiva. Voltei ao meu quarto.

“ Hoje nós vamos descobrir para onde você vai à meia-noite. Eu não vou dormir. Que tal armamos um plano de busca? Quem é? Ouvi batidas.

“ Sou eu, Gabriel. “

“ Entra.”

“ Gabi, a mamãe pediu pra você ir ajudar com o jantar . O papai ainda não chegou, então… “

“ Tudo bem. Já vou. O que houve?” percebi que ele estava com medo, tímido. “ Sabe que pode me contar o que quiser.”

“ Você acredita em fantasmas?” ele se aproximou dos meus braços que estavam abertos para abraça-lo. Fiquei com um joelho no chão para me apoiar. Pensei um pouco.

“ Por que a pergunta?”, sorri desconfiada ao ver uma mecha branca.

“ Eu vejo dois. Um do lado da porta olhando para a gente e o outro dentro de você. Eu estou com medo. “Toquei a sua testa, ele adormeceu. Levitei-o até seu quarto.

Depois, fui ajudar a minha mãe. Contei sobre o Gabriel, meu pai chegou,mudamos de assunto. Abracei-o e beijei-lhe o rosto. Charles chamou Eduardo lá fora. Ele foi atendê-lo colocamos a mesa. Meu pai explicou o motivo de sua demora, a escola de música estava com problemas, muitos funcionários estavam sendo “ cortados”. Fiquei preocupada, queria ajudá-lo, como?

Após o jantar, lavei os pratos muito rápido. Ariel me ensinou que quando se trata de coisas diárias, era só eu pensar que elas simplesmente aconteciam. Incrível! Contei-lhe eu conseguia induzir as pessoas as pessoas a fazer o que eu queria. Meus pais estavam conversando no escritório, creio que os cochichos, mas eu sabia que era problemas financeiras. Eu os vi oferecendo a casa como garantia em um sonho…visão.

Ao menos posso dizer que tenho problemas normais, nada que a magia resolvesse. Contas são chatas, mas naquele momento para mim eram alegrias, algo unicamente humano. Gabriel dormia profundamente, depois eu resolveria  o nosso assunto. Entrei no quarto, tranquei a porta.

“ O que a senhorita realmente quer?”

Aconteceu algo estranho comigo. De repente, Aleja saiu de dentro de mim. Éramos idênticas, só que ela era um…espírito, fantasma, projeção astral? Perguntei como, ela respondeu que podia fazer isso quando quisesse, ela podia ir e vir, mas como era muito perigoso, o mais sensato era que ficássemos unidas, porque eu era a parte dela viva. O encontro dos dois foi estranho. Eles se olharam e mais nada. Sabiam que trabalharam juntos no passado, mas Ariel não tinha tanta lembrança de Aleja como ela tinha dele. Se Ariel soubesse que se sacrificou por amor aquela garota…

“ Há algum feitiço de volta ao passado? Assim poderíamos voltar à noite de sua morte” e descobrir onde estão as partes.

“ Isso é impossível agora. Você é nova nesse assunto de magia. “

“ Vocês vivem dizendo que eu sou muito poderosa, que isso é inédito até mesmo para vocês e, agora que eu quero usar todo esse poder não posso? “

“ Só se a senhorita quiser destruir tudo. Lembra da sua primeira lição? Eu quase morri de novo.”

Eu sorri. Repentinamente lembrei da esfera. Peguei-a na bolsa.

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CAPÍTULO VI DESCONTROLE

Aquilo já estava entediante, confesso. Porque não transferiram para o computador aqueles antigos arquivos? Papéis amarelos quase transparentes de 200 anos! Sentei na mesa de cedro vermelha, abri o primeiro arquivo, Ariel ficou ao meu lado. Seu queixo estava um pouco acima do meu ombro.

– Então, o que achas?

– Que tudo isso é muito chato. – continuei a folhear, o início da cidade no primeiro volume de outros cinco. Que interessante a primeira casa da cidade ficava no centro do que hoje é o parque. Creio que não sei mais nada.

– Acho que isso deve ter sido criado há uns 500 anos atrás. Quando eu era criança comprava doces nessa casa . Eu me lembro! Pertencia a uma fada decaída, acredite se quiser ela tinha 830 anos. Quando ela recebeu o direito de voltar a sua terra, o prefeito que era conde de  Voltarianôn, um vampiro, derrubou a casa e fez com que fadas e duendes construíssem um parque para homenagear a fada que gostava de muitas plantas. Bruxas e feiticeiros se uniram para continuar o plano do conde. Organizaram as ruas de tal forma  que, do exterior para o interior qualquer uma das ruas leva a praça que é o centro da cidade. Os humanos adoraram a idéia do conde e construíram suas casas. Vivíamos harmoniosamente só tínhamos que respeitar uma regra: humanos e criaturas mágicas não poderiam constituir família juntos. Eu tinha uns 10 anos e minha família era a mais poderosa da região. Eles guardavam a cidade por dentro.

Quando os humanos viram que não eram como a gente passaram a nos perseguir e com a ajuda do Caliban, eles se tornaram fortes. Pelo lado de fora, sua família era responsável pela segurança…

Aí, parei de prestar atenção na história e passei a observá-lo. Seus olhos estavam fechados, mas a sua fisionomia estava tensa, as sobrancelhas unidas. A dor estava em seu rosto, aquelas lembranças doíam para ele. Houve um silêncio, desviei minha atenção por um momento e Ariel havia sumido.

“ Ótimo, um fantasma que não consegue lidar com o próprio passado “.

Meu celular passou a vibrar, era o Maurício. Ele perguntou se eu estava bem após o episódio da cantina, respondi que sim, o garoto pediu para que eu o encontrasse na praça as 20:00hrs.

Terminei minhas pesquisas daquele dia. Fechei os livros leve-os até a bibliotecária que me elogiou por ser jovem e me interessar pela história da cidade. Ao olhar em seus olhos, vi uma duende. Tirei o olhar e pisquei forte, quando ela pegou no livro, seus dedos gelados deslizaram um pouco até tocar a minha mão. Ela virou a palma delas e colocou a sua sobre a minha. Uma pequena esfera do tamanho de uma pérola, saiu da sua mão e caiu na minha. A idosa olhou por cima dos seus óculos preto de armação grossa e disse:

“ Não sabe o quanto estou feliz por vê-la novamente, Aleja “.

Confusa, corrigi-a dizendo que meu nome não era Aleja,mas por um momento eu não sabia quem eu era, esqueci até do meu nome. Sorri contrariada, e falei que me chamava Gabriella, quer dizer os outros me chamavam assim.

“ Eu sei, Aleja “.

Tentei consertá-la novamente, aí pensei que não adiantava, desejei uma boa tarde a senhora e guardei o item na bolsa. Ao sair da biblioteca, o Sol me fez piscar um pouco. Era por volta das quatro. Decidi voltar a pé para casa, quinze quarteirões não era tão longe. Apertei meu caderno e meu livro de magia contra o peito e saí caminhando e pensando em matar o Ariel, mas desistir. Como matar um fantasma?

A cidade estava movimentada. Apesar de interiorana, Opala era um lugar legal construções estilo século XX aderida ao moderno do XXI tornava-a atraente, aí me “ toquei “ que a esfera era de opala, coincidência ou pista? Eu tinha raízes naquela cidade, no entanto, nunca haia estado lá. Enquanto caminhava me aproximava de um grupo de jovens. Eles me chamavam, resolvi pegar uma outra rua. Um deles se adiantou. Ele era alto, usava um gorro preto de algodão na cabeça que tinha umas bolas brancas, devido ao uso intenso, jaqueta preta com uma blusa verde por baixo. A barba estava por fazer, devo confessar que, se ele não fosse suspeito, eu poderia até dar-lhe uma chance, se eu não fosse tão tímida.

Certo. Você deve se pensando. Porque ela não entrou em algum lugar? Bom, numa situação de luta ou fuga não dá para pensar muito. O medo congelou o meu cérebro, todo o meu corpo estava em alerta, mas não havia sistema de segurança. A rua na qual entrei, era deserta. Isto sim, eu chamo de falta de sorte. O grupo estava me alcançando, virei na mesma direção dele. O rapaz que se adiantara, aproximou-se um pouco.

“ Passa o que tiver de valor “, ele apertou o meu braço. Um vento muito forte penetrou naquela rua. Os meus cabelos voavam para trás.

“ Não me toque e se afaste de mim “, falei encarando-o. Senti que ele estremeceu e que aquele poder vinha de mim.

“ Cara o olho dela tá branco! “, o rapaz me soltou horrorizado.

Aquela altura, meus pés afastaram do chão e passei a flutuar a uns centímetros da terra firme. Era uma força poderosa, me curvei para frente um pouco e quando voltei a posição inicial, ela saiu de dentro de mim. Os cinco garotos foram arremessados contra a parede, o lixeiro virou, as lâmpadas queimaram uma a uma como se fosse uma onda. O impacto foi tão grande que eles ficaram desacordados.

Também caí, de joelhos, meus braços apoiaram o resto do meu corpo, olhei para o chão. Aquilo não poderia estar acontecendo. Peguei minha bolsa, meu caderno, meu livro. Levantei e olhei para todos os lados, para certificar que ninguém vira o ocorrido. Mas, vi o mesmo garoto da escola, na esquina, me olhando, todo de preto. Gritei para ele me esperar, quando pisquei, ele havia sumido. Tudo bem, aquele garoto mexia comigo.

Cheguei em casa, minha família estava na sala. Entrei indiferente, não respondi aos seus cumprimentos. Subi as escadas cabisbaixa. Tranquei a porta do quarto. Minha mãe subiu logo em seguida, bateu. Quando abri fui logo abraçando-a em lágrimas, contei que estava com medo. Narrei o acontecido e relatei o episódio com a bibliotecária. Ela perguntou por Ariel, respondi que ele havia sumido.

Abri a bolsa e joguei os livros sobre a cama, tirei a pequena esfera e coloquei dentro de um porta-jóia  de porcelana com flores em alto relevo, resolvi banhar para refrescar a cabeça. Liguei o chuveiro e deixei a água cair.

Quando saí de roupão e toalha na cabeça, encontrei aquele fantasma covarde, ele acabara de atravessar a parede.

“  Preparada para a lição de hoje? “

Tirei a toalha da cabeça e joguei nele, nem preciso dizer que aquilo foi inútil. Encarei-o, coloquei a mão na cintura e soprei uma madeixa que caiu sobre o meu rosto.

“ Onde você estava? “ perguntei inquisicloramente, a resposta dele foi incriminadora. “ Com a senhorita, lembra? “.

“ Sai daqui, Ariel! “

Ele saiu, atravessou a parede, depois com parte do corpo ainda dentro do meu quarto, respondeu que morava naquela casa. Tudo bem, peguei uma roupa e fui ao banheiro. Quando saí, peguei meu óculos que estava sobre a cama, não o olhei. Fechei a porta quando virei tropecei no Gabriel. Pedi desculpas, quando saí, disse que meu quarto estava trancado Ariel perguntou para onde eu ia, não respondi claro. Desci as escadas até a cozinha e falei aos meus pais que eu ia sair, na sala Ariel trancou a porta, virei para ele, fiz careta, apontei o dedo indicador para a fechadura, a porta abriu, ele tentou me seguir, não conseguiu, sua foto estava dentro do meu livro de feitiços, estava preso.

As lâmpadas da rua queimaram, o tempo “ fechou “, um vento muito forte atingiu a cidade, eu estava com raiva.

Fernanda entrou em casa rapidamente, gritou pelo irmão que estava no 2º piso. Ele desceu rapidamente.

“ Precisamos encontrá-la! O Caliban vai aparecer! “, disse Charles pulando pelo corrimão.

Os dois saíram da casa e gritavam por Gabriella, mas ela não lhe deu ouvidos. Parecia não escutar, a vizinhança toda recolhia as crianças para dentro de casa, fechavam as portas e janelas. Trovões e relâmpagos tomaram de conta do céu. A chuva muito forte começou a cair aos poucos.

Eduardo, preocupado com a filha em meio aquele temporal inesperado, pegou as chaves do carro e saiu. Ariel também estava zangado as coisas dentro de casa começaram a voar. Angélica pegou o filho, Gabriel, em seus braços. O garoto chorava e estava com medo. Sua mãe não podia usar seus poderes, não na frente do menino, por isso, ela teve que fazer com que ele “ apagasse “.

Ela abriu a gaveta do armário e tirou seu livro, pedia para que Ariel parasse com aquilo, utilizou o feitiço da transferência, mas alguém teria que receber o fantasma. Utilizou o que parava o tempo. Refez as coisas que haviam quebrado e usou sua intuição para encontrar Ariel, aprisionou-o em uma garrafa transparente.

Enquanto isso, Eduardo procurava pela filha, ao longe, avistou-a caída no chão sua pulsação estava lenta. Levou-a até o carro, a chuva caía com mais força. Nuvens negras tomaram de conta do céu. Vultos escuros passavam pela estrada. Aquilo não era mais culpa de Gabriella. O Caliban se aproveitara disso para procurar pela guardiã, nuvens escuras se dividiam pela cidade causando um grande apagão quando entravam nas casas. Era o momento propício para encontrá-la, mas nada. Charles e Fernanda conseguiam despistá-los da avenida em que Eduardo vinha com sua filha. Bom, não havia problema algum, a guardiã não estava mais lá, Aleja não conseguia se encontrar com Gabriella mas, naquele dia , tudo mudou. Aleja só poderia ser capturada se a garota morresse. Agora, elas eram uma só, mais guardiã que uma estudante.

“ Está vendo só, Spoke? Eles realmente existem, veja que tempo, que atmosfera pesada. Eu não estou louca, como pensam “, disse Amanda segurando seu cachorrinho e olhando através da pousada na qual se hospedara. A garota correu e pegou seu bloco de anotações para escrever tudo o que descobrira.

Alguém bateu na porta, era a senhora que era dona da pousada. Aparentava ter uns 60 anos, 160 centímetros, cabelo com a raiz ficando branco, seu vestido era azul com florzinhas brancas. A garota abriu a porta e a anciã entrou, ela sentou-se na única poltrona que tinha no quarto.

“ A jovem por acaso não está fugindo de casa? “

“ Não. Meus pais permitiram “.

“ Então, a jovem que acabou de passar na televisão é sua irmã gêmea “.

“ A senhora ligou para os meus pais? “, ela virou o rosto de lado, meio receiosa.

“ Ainda não. Porque fugiu? “

“ A senhora não vai entender e ainda vai me chamar de louca. “

“ Acho que posso tentar compreender. “

Amanda explicou os seus motivos, falou que estava atrás daquilo em que acreditava. A velha sorriu e prometeu guardar segredo. Disse que a garota poderia ficar. Quando saiu do quarto, ela passou em frente a um espelho, mas não tinha imagem dela e sim de um gato preto de olhos verde-esmeralda.

Os metereologistas tentavam explicar aquela chuva inesperada nos jornais, mas assim como surgiu, ela desapareceu e várias pessoas também. A família de Maurício assistia ao telejornal reunida na sala. Pai, mãe e filho sentados no sofá sem entender bem o que acontecia. Alessandra levantou; foi para o seu quarto, abriu a janela, viu que uma nuvem negra estava prestes a entrar em sua casa.

“ Você sabe que não pode entrar aqui, mas se quiser arranjar problemas… “, ela falou para a nuvem que deu meia-volta e foi embora. Uma luz meio avermelhada passou a brilhar em seu colo, Alessandra retirou-a do seu corpo e deixou-a suspensa em suas mãos.

Maurício chamou-a batendo na porta. Ela teve que parar, a nuvem fugiu. Fechou a janela.

“ Me ajuda a colocar a mesa, querido? “

“ Tudo bem. “

Alessandra ainda abriu a porta  do quarto novamente e olhou uma outra vez, fechou-a. Desceu as escadas e foi servir o jantar.

“ Sim, não, tudo bem. Diga a ela que eu desejo melhoras. Boa noite, senhora Cavalieri. “

“ Algum problema? “, indagou a mãe lavando as mãos. “

“ A Gabriella saiu durante a chuva, o seu pai a encontrou caída no chão. O bom é que não foi nada grave, eu queria ir vê-la, mas ainda está desacordada. “

“ Cada vez mais tenho vontade de conhcê-la. Do jeito que você fala parece que essa Gabriella nem existe. “ a mãe sorriu ao ver o semblante apaixonado do filho.

“ De quem falavam?” perguntou Gonçalo. “ Não quero que você se envolva com nenhuma garota desta cidade, todas aqui só querem encontrar um marido que lhe dê um lar. Visão provinciana.”

“ Parece que as coisas não são bem como o senhor pensa… “

“ Alessandra, cuidado com o que anda colocando na cabeça do nosso filho, “ ele falou ao colocar arroz no prato. “

“ Querido, nosso filho já tem idade de saber o que quer. “

“ O que eu disse, está dito. Vamos comer e mudar de assunto. “

Eu estava lá ou alguém muito parecido comigo. Ela me chamava, aproximei-me.

“ Enfim, conseguimos nos encontrar Gabriella “, ela era linda e parecia comigo. A diferença era que seu cabelo era ruivo, ela usava as mesmas roupas com as quais eu sonhava. “ Sou Aleja, sua tataravó. “

“ Você não tem idade  de ser. Quem afinal, você é?, perguntei.

“ Eu sou você. Agora, somos uma só que você é mais guardiã que uma simples adolescente. Sua vida não será mais a mesma. Eu fui castigada, e causei tudo isso. Quis provar que os dois mundos poderiam se unir sim, paguei um alto preço ao me apaixonar por um humano, mas eu não me controlava mais. O Caliban passou a me dominar e o Ariel teve que lutar contra todo o nosso mundo para me defender. Só agora eu entendia que fui destinada, mas é tarde. Foi necessário 200 anos para eu entender que não posso lutar o que sou. Nesse, tempo fiquei nesta dimensão, como vê, aqui não existe nada. Melhorei e aperfeiçoei os meus poderes que, agora são seus. Consegui mudar o rumo natural das coisas, nisto o Caliban despertou. Como espírito, eles poderiam me aprisionar, então eu tive que vir até você. Entenda, agora é imortal, assim como as outras criaturas eram. Antes do medalhão ser quebrado, não precisávamos ficar de tempos em tempos reaaparecendo. A partir de hoje, você é a primeira de uma nova geração…

“ Eu não quero isso, quero envelhecer, ser uma garota comum. “

“… lembra da promessa? Ariel precisa de você, eu preciso. Permita-me reconstruir o que eu destruí, preciso de uma segunda chance. O medalhão precisa ser reunido, os aldeões voltarão para me julgar novamente, a dimensão mágica não pode cair nas mãos do Caliban. Eu estou com você, não se esqueça. “

“ Ainda não consigo me controlar, tenho muito o que aprender. Queria poder escolher, mas não posso. Por que eu? Você não tem esse direito. Os seus erros não me dizem respeito. “

“ Você está enganada. Nasceu para isso. Ganhei uma chance, entenda, é seu destino. “

Não sei nem porque eu aceitei o que ela me pedia. Eu apenas senti que era o certo a fazer. Antes, eu era uma simples garota comum, agora, um mundo todo depende de mim. Eu conseguiria realmente aquilo a que fui destinada?

A  figura de Aleja tornou-se cada vez mais distante, sua voz foi diminuindo de tom, longe. Percebi que estava recobrando meus sentidos, o médico passava algodão com álcool no meu nariz.

“ Que bom você de volta, Gabriella. Aqui estava tendo o maior festão “, disse o médico colocando uma lanterna nos meus olhos.

“ Parece que está tudo bem. PARECE, por via de dúvidas quero que realize estes exames o mais rápido possível.

O médico saiu, meu pai acompanhou. No quarto ficaram a minha mãe e o Gabriel, com um belo galo na cabeça.

“ Querida por que saiu daquele  jeito? Que susto, você nos deu. “

“ Mãe, a Gabriella quer ser o centro das atenções, mas eu sou o caçula, “ meu irmão ficou de joelhos na minha cama.

“ Não me lembro muito bem. “ Na verdade, eu lembrava. Uma forte luz apareceu na minha frente e eu caí com o impacto. Um fantasma, espírito ou sei lá o quê disse que era uma segunda chance. Guardo a chave de dois mundos. Coisas a que estamos acostumados. O relógio anunciou meia-noite, mamãe me deixou só e levou o meu irmão, já era tarde.

Apoiei meus braços na dobra do cobertor, olhei o forro do meu quarto fixamente tentando reatar meus laços com o sono, minha gaveta começou a se mexer. Aquilo poderia parar, frustei-me, a gaveta caiu e uma garrafa brilhante começou a flutuar, levantei-me, caminhei lentamente até a escrivaninha. A garrafa se quebrou sozinha, vários pedaços de vidro estilhaçado, um cortou minha bochecha, depois a luz sumiu Ariel com certeza teria o troco.

Voltei para dormir, cobri-me e, finalmente dormi, como se tudo aquilo fosse só um sonho do qual brevemente eu acordaria. Acordaria para nunca mais voltar.

Já era manhã e devido a intensa luz que tomava conta do meu quarto, calculei que minha mãe havia permitido que eu faltasse. Dez horas no máximo. Quando desci, percebi que minha mãe conversava com alguém que não via, ela calou-se. Assim que passei pela porta, vi Ariel de braços cruzados encostado na pia de mármore que ficava no espaço quadriculado que o armário deixava entre seus compartimentos.

Minha mãe me cumprimentou, serviu meu desjejum e disse que iríamos ao hospital. Fiz cara feia de nada adiantou. Liguei meu celular, três ligações de Maurício não atendidas. Ele esperara até o final das aulas. Angélica saiu para verificar o carro. Nós dois ficamos a sós na cozinha, ele foi o primeiro a falar.

– Perdoe-me, senhorita. Espero que aceite meu pedido e me dê uma chance para explicar-me.

Continuei a comer. Ele “ sentou-se “ na minha frente. Concedi o direito de defesa.

“ Não sei bem o que anda acontecendo comigo, isso acontece desde que morri. De repente, parece que não existo, mas eu sei que sofro. Ontem, quando a senhorita saiu fiquei muito irritada e não consigo ficar “ sano “, quase destruí sua casa toda, a senhorita Cavalieri teve que me aprisionar e reconstruiu tudo que eu arrasei.”

“ E como se não bastasse, explodiu a garrafa na minha frente. Você é muito controlado. “

“ … eu fiz isso?, ele tocou o meu corte. “

“ Não se faça desentendido! “, afastei a mão do meu rosto. “

“ É sério. Eu não lembro. Perdão. Errei muito ultimamente, é justo que estejas zangada comigo e creio que não tens que me ajudar mais em nada. Não mais a importunarei, será como se nunca eu houvesse existido. “

“ Não é tão fácil como se pensa, Ariel. Desde que cheguei aqui as coisas na minha vida mudaram. Não posso simplesmente ignorar o que está acontecendo, como se vivesse em uma redoma de vidro. Um dia, ela vai quebrar. Olha só pra mim, pareço a mesma garota que você viu naquela noite? E o meu cabelo? Essa mecha branca que apareceu não é velhice – mostrei-a é, igual a sua. Faço isso por mim, por você, por Aleja e por toda uma dimensão que depende, de nós para sobreviver. “

“ Aleja? “, ele perguntou meio comovido.

“ Sim. Veja. “, ele fixou seus olhos nos meus, pude ver Aleja que estava na minha pupila refletido no azul dele.

“ Agora, somos uma só. Conheço a sua história, a minha . “

Tudo vai ser mais fácil. Precisamos nos unir. Vocês merecem uma outra chance. Vamos encontrar o seu assassino e o medalhão, confie em mim, estendi minhas mãos e ele as “tocou”  começamos a brilhar juntos e uma luz surgiu entre a gente. Tudo ficou esclarecido para Ariel. Ele redescobriu parte da sua história. Quando nos soltamos , eu continuei a brilhar.

Eu estava passando por uma transformação. O fantasma estava diferente. Seus olhos estavam brancos, suas roupas também. Era uma camisa de algodão manga longa, parecida com as de mosqueteiro, uma calça um pouco mais justa dentro da bota branca com detalhes dourados. Uma capa branca até o chão. Um símbolo apareceu em sua face, a marca dos guardiões: ficava em seu osso da bochecha direita. Ele tinha uma forma humana.

Aí, me olhei na transparência da porta de vidro da cozinha. Eu tinha a mesma marca, do lado esquerdo. Meus olhos também brancos. Um vestido branco cujo estilo seguia o de Ariel na parte de cima, um cinto, corda, ou sei lá o quê dourado na minha cintura, em baixo, o vestido abria na lateral, eu estava com uma calça da  mesma cor e a mesma bota. Minha capa era um pouco mais larga, meu cabelo cresceu um pouco mais.

Minha mãe entrou e não escondeu a surpresa. Levou a mão a boca e desmaiou. Eu estava flutuando juntamente com o meu amigo. Ele pegou minha mão e “ pousamos “, caminhei até minha mãe que estava no chão. Nos olhamos e erguemos Angélica com um simples movimento de mãos, ele sempre do lado direito, estendeu seu braço sobre minha mãe  e fechou a mão. Eu repeti o mesmo do lado esquerdo. Nos teletransportamos  para o quarto dela, colocamos-a em sua cama . Olhei para Ariel novamente, voltamos a forma normal.

“ Querida, você se transformou? Isso é, é, incrível “, minha progenitora encostou-se nas almofadas.

“ Mãe, não posso ir ao hospital. – respirei fundo – não sou mais humana. “

“ CO – MO assim? Não HUMANA? “

“ Continuo  com as mesmas lembranças humanas, carne e osso, posso me furar, cair, mas não sofrerei como humano. Só seres mágicos podem me ferir. Também não viverei só 69, 5 anos.  Pareço a mesma de antes, mais minha essência não. Sua filha  – engoli em seco – não existe mais. “

“ Quem é você? “, Angélica perguntou em meio as lágrimas. “ Aleja Cavalieri, sua bisavó, mas a Gabriella se governa. Duas em uma. “

“ Como ousa fazer isso? Ela tem uma vida pela frente, tem família, amigos, casa. Não é você quem decide. “

“ É uma decisão dela. Você acredita? Mãe,eu vou ficar bem, não se preocupe, “ ela me abraçou. Seria melhor não ter contado, mas ela deveria saber da minha escolha. Em breve, eu teria que partir. A despedida doía, mas era necessário, eu precisava. Faria dos próximos meses, inesquecíveis lembranças. Eu poderia não sobreviver, também poderia desistir, mas teria que viver escondida. No meio das sombras que tanto odeio e que querem me ver morta. Eu podia parecer normal querer me casar com um humano assim, como minha mãe. Mas isso jamais teria um fim. Aliás, o Maurício não…

Com a visita ao médico dispensada, ajudei-a em casa. A manhã passou rápido, toquei um pouco, coisa que eu amo. Os homens da casa chegaram, logo depois um outro visitante.

“ Vim ver como está. Minha mãe me trouxe até aqui. “ – seu cabelo estava molhado. Ele olhou para o carro, – acabei de sair do treino. “ Sua mãe foi até onde estávamos. “

“ Ah, prazer. Senhora… “

“ Me chame de Alessandra. Queria conhecer a garota que causa um verdadeiro interlúdio no meu filho. Soube que você é um enigma, “ ela apertou minha mão, sorri e pisquei o olho. Fiquei um pouco assustada. Meus pais cumprimentaram- na , Angélica convidou-os para almoçar conosco. Alessandra disse que teria de ir para casa, se quisesse ter uma casa ainda. O marido poderia tentar esquentar o almoço e criar uma bomba nessa tentativa. “ Trouxe suas matérias de hoje. “ – ele sorriu mostrando a mochila, Ariel colocou a cabeça dentro dela e confirmou. Caminhamos até a cozinha.

O almoço foi animado, principalmente porque Ariel parecia se divertir ao imitar Maurício, mas só eu podia ver. Gabriel não perdeu a oportunidade de ser inconveniente dizendo que eu falava sozinha. Meu amigo humano sorriu e concordou. Era tudo estranho, nunca ninguém conhecido meu almoçou na minha casa. Meus pais estavam alegres, talvez pela filha finalmente se socializar com alguém.

Ficamos para lavar pratos.

“ A Érica queria transformá-la em primeira capa. A manchete seria: Gabriella tenta matar uma louca varrida. – seu celular tocou e ela desligou.

“ Não vai atender? “, perguntei ensaboando os pratos.

É a Bia, ela pode  esperar. Você, não. Porque não me retornou? “

Continuei calada. Talvez ele fosse embora, eu sofreria mas passaria.

“ Por que  você não respeita o meu espaço? “, perguntei.

“ Por que você não derruba essa muralha? Eu tento me aproximar de você, mas simplesmente, parece que você é volátil “, ele mudou de lado para ver minha reação, enxugou os talheres e me encarou. Continuei com os meus pensamentos. Ele ia desistir.

“ Eu não vou desistir,” vou, parecia que ele havia lido minha mente. Terminei de lavar a louça, comecei a guardar.

“ Tudo bem. Eu acho que já chega desse jogo,” falei ao fechar a porta do armário.

“ Gabriella eu quero muito te falar uma coisa…, “ ele se aproximou de mim, arrastei o pano sobre a mesa, Maurício estava nervoso. Ficamos muito próximos.

O meu sonho de adolescente estaria se completando? Será que realmente eu escutaria o que eu queria que ele falasse? Não, melhor não. Agora, seria algo impossível. Eu realmente estava encrencada. Sua proximidade ia aumentando, eu já conseguia sentir a respiração dele. Mas, para a minha sorte-azar, Gabriel apareceu na porta.

“ Finalmente terminamos, “ Maurício falou pegando o pano de prato.

“ Vamos ao meu quarto da bagunça, para eu copiar os assuntos  de hoje . Assim você já pode ir. “

Caminhamos até o meu quarto da bagunça/ estúdio/ sala de estudo, Ariel estava lá, mexendo como sempre. Entramos a porta ficou aberta. Meu amigo fantasma fechou a porta bruscamente, Maurício se assustou com o barulho.

“ Acredita em fantasmas? “, perguntei.

“ Só tenho medo dos que estão vivos. Fantasmas não existem. “

Abri os livros sobre a mesa e meu caderno. O livro de feitiços escondi embaixo do teclado que estava desmontado.

“ Posso? “, Maurício falou mostrando o meu violão.

Assenti. Ele começou a tocar.

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Capítulo 5

UMA GAROTA OU UMA FECHADURA?

Pela tarde, resolvi concluir meus deveres. Ariel, no entanto, não parava de exibir seus poderes e ficou comigo durante todo o tempo. Era difícil tentar entender a energia cinética das reações quando eu queria estudar outra coisa: música. Mal podia esperar para que meu pai chegasse, à noite, tocaríamos juntos. Ele ia me ensinar algumas notas diferentes.

Até que a matéria não estava difícil, a senhorita Mônica dava conta do recado. Apesar de nova na escola, eu já a admirava como os outros alunos. No lanche minha mãe fez misto e suco de maçã. Levei uma bandeja para o “ cantinho da bagunça “, coloquei sobre a mesinha de estudo. O fantasma me olhava curioso.

– Que gosto tem? – ele perguntou entusiasmado e olhando o prato bem de perto, como estava ajoelhado próximo da mesa, debruçou-se sobre ela, até que seus olhos ficaram perpendiculares a linha do recipiente.

– Hã… pão, queijo e presunto? Uni as sobrancelhas aquela pergunta era óbvia. – O de sempre.

– É difícil saber “ O de sempre “ quando se tem 200 anos.

– Não parece. – tomei um pouco de suco.

– Porque eu morri jovem. Quando pretende usar seu livro? – ele trouxe o livro vermelho no ar, com um simples movimento de mão.

– O que eu escrevo nele? – olhei para Ariel ao destrancá-lo as folhas eram brancas, perfeitas.

– Que tal isso? Assim eu posso ir para qualquer lugar, onde você estiver – ele me entregou sua foto ( aquela do começo ).

– Você não pode sair daqui por quê?

– Bom, tenho que “ assombrar “ esta casa. Na verdade, o que me mantém preso é um assunto inacabado e eu não posso terminá-lo sozinho, aliás, nem sei o que é. Por isso eu pedi sua ajuda.

– Gabriella, telefone. – falou Gabriel que, mais uma vez, entrou sem permissão. Dessa vez, ele desceu as escadas correndo dizendo que eu estava falando sozinha. Desci para atender, era Fernando, que bom. Ele me informou o preço e eu disse que na segunda, antes de ir para a escola, pegaria o óculos na relojoaria. Aproveitei para convidá-lo para ir ao circo, demorou aceitar, mas no fim, acabei vencendo. Como Ariel estava comigo, voltamos para onde estávamos. Pedi que ele me ensinasse, ele aceitou e ficou feliz. O que eu soube depois é que, primeiro, você aceita sua condição, depois pede ajuda. Abri o livro, as páginas começaram a passar sozinha, um vento forte invadiu meu leito.

Aquilo mais parecia um filme, toda a minha vida passando naquelas folhas. Desde criança até os dias atuais. Não pude esconder minha surpresa, Ariel também estava surpreendido. Quando a ventania parou, ele falou ainda com os cabelos bagunçados.

– Isso é incrível! O normal é que o feiticeiro escolhe seu livro, mas com a senhorita acontece o contrário.

– Ai… por que as coisas normais não ocorrem comigo? – perguntei abrindo o livro. Comecei a escrever.

“ Lição número 1: Nunca pensei que realidade e ficção fossem uma coisa só. Há dois mundos e eu sou o elo entre eles. Quem sou eu? Uma garota ou uma fechadura?… “

– Qual o seu primeiro encantamento? Uma lição, um encantamento… Ah, que tal levitação de coisas? Isso é muito legal! – Ariel falava e demonstrava ao mesmo tempo. Depois , quem sabe voar! – Ele fazia gestos e andava por todo o quarto.

– Levitar coisas. Ok! –sentei no pufe e fiquei observando Ariel colocar meu livro de matemática sobre a mesinha. Gostei dessa utilidade.

– Concentre-se. – ele falou me encarando. Seu olhar era sério e desafiador. Fiquei presa, nervosa. Como eu podia confiar em alguém como eu confiava nele?

Olhei fixamente para o livro, mas nada. Ariel já havia sentado no chão, encostado na parede. 15, 30, 60, 100 minutos se passaram e nada.

– É, hoje não é meu dia. – olhei para ele suspirando.

No seu quarto, Gabriel começou a tocar bateria, peguei meu violão. Antes, escutei bem as notas dele e comecei a acompanhar o ritmo. A canção era animada, contagiante, Ariel começou a bater palmas.

Aquele momento foi mágico. Consegui sentir todos os meus poderes fluindo por minhas veias. Era como se eu fosse feita de música e magia é isso: música. Tocava e olhava para o livro. Ele começou a se mexer, aliás, não foi só ele , meu violão, teclado, bateria, os outros livros. Eu estava alegre e as coisas começaram a flutuar, eu não tinha controle daquilo. Comecei a ter medo, as lâmpadas piscavam. Eu já estava flutuando, só que uns 10 cm do chão.

Meu novo amigo tentava isolar o quarto com seus poderes. Ouvi batidas na porta.

“ Querida, acalme-se. Deixe fluir seus poderes com uma respiração lenta. Vamos lá, você consegue. “

Uau! Minha mãe estava na minha mente. E não era só ela.

“ Vamos, Gabriella! Eu não vou aguentar por muito tempo. Não posso usar meus poderes contra os seus. A senhora tem que me ajudar. “ Era Ariel, seus olhos estavam ficando brancos, as coisas começaram a rodar dentro do campo que ele criou para isolar o cômodo em que estávamos.

Assim como aquela avalanche de Poder surgiu, ela esvaziou-se. Não era eu-  quem fez aquilo, outra força veio de fora e me ajudou controlando o meu acesso. Caí sobre minha cama, as coisas ficaram em seus lugares e Ariel foi arremessado longe. Só não quebrou a janela, porque ele pode atravessar objetos sólidos. Sorte.

– Vocês estão bem? Perguntou Angélica na entrada.

– Acho que sim. – falei me levantando. Alguém viu alguma coisa?

– Não. Eu tive que parar o tempo, lembrar o feitiço é difícil quando você quase não tem poderes. Eu estava conversando com nossos vizinhos: o Charles e a Fernanda. Deixei-os tomando chá lá embaixo.

– Parar o tempo?! Ah, fala sério! Nós fazemos isso? – perguntei entusiasmada.

– A coisa mais perigosa que existe: o Tempo. – falou Ariel.

– Bom, eu vou descendo. Ariel, da próxima vez não deixe minha filha se controlar sozinha. – minha mãe não sabia para onde olhar.

– Hum… mãe, os poderes dele são anulados à medida que o meu aumenta. – falei mexendo os dedos em círculos.

– Depois conversamos, tenho visitas.

O circo me dava nostalgia. Muita gente. Levei a foto de Ariel na tiracolo cáqui que eu ganhei no dia do meu aniversário de 14 anos da minha avozinha. Estavam todos à minha espera. Me arrependi por não ter inventado um programa de família, uma dor de barriga repentina. ( ah não essa não cola desde os meus dez anos ), eu sei lá o quê.

De início, eles não me notaram. Maurício tampava o campo de visão da Erika e da Fernanda. Aquela estava toda produzida para a apresentação, esta, trajava um vestido malhado com estampas florais em diversas cores. Aliás, seu topete estava fofo! Maurício, também estava esplêndido: uma calça de várias bolsos nas laterais, verde e uma babylook preta. Ele tirava fotos da dupla.

Olhei para mim mesma. Uma babylook branca com coletinho preto, uma saia jeans da cor da bolsa e uma rasteirinha teriam sido uma boa? Coloquei as mãos nos bolsos, suspirei fundo e continuei. Fernanda me viu primeiro e acenou, os outros viraram.

– Que bom que veio! Senão você iria andar na prancha,companheira! – Erika incorporou seu personagem.

– Vocês estão esplêndidos – falei olhando a todos.

– Você está linda –disse Maurício tirando uma foto.

– Nossa, isso é um flash ou um pulverizador? – coloquei a mão no rosto. – Não gosto de fotos, câmera, filmadora ou qualquer outra coisa do tipo…

– Vamos entrar? – Maurício tirou outras fotos . Eles não vão me levar a sério mesmo.

– Estou esperando uma pessoa.

– Quem? – Erika perguntou ficando na ponta dos pés para ver por cima da multidão.

– O Fernando.

– Você é corajosa. – afirmou Fernanda que até aquele instante ainda não havia falado.

Foi aí que olhei para o Maurício e encontrei seu olhar que já perdera a vivacidade, ele estava me reprovando e aqueles dois olhos eram minha prisão. Mais não era somente isto que eu via, aquilo ia mais além.

– Não! – gritei.

– Não? – eles perguntaram assustados.

– Não… é, esqueci o meu, hum, é … o meu quarto destrancado. É isso! Hum … meu irmão vai fazer uma festa! – menti.

– Olha! Ali está o Fernando! – gritou Erika.

Eles entrarem na frente, Maurício ficou atrás de mim . Ele  me falou que eu não sabia mentir. E pra falar a verdade eu não sabia. Me disseram que a mentira tem perna curta. E tem.

“ Não! “ Eu não queria ver o pensamento dele, aliás, eu não queria “ ler “ a alma de ninguém. Logo, de quem do Maurício! Eu não permitirei.

Mal entrei e os desastres começaram. Primeiro, encontramos a Bianca que grudou feito carrapato no Maurício. Depois, na hora de subirmos para a arquibancada, eu tropecei. Fernando me apoiou para que eu não caísse.

As apresentações eram esplêndidas, tudo estava muito animado. Fernanda gravava e eu tirava algumas fotos, quando posicionei a câmera mais uma vez, um garoto do outro lado da arquibancada olhava em nossa direção. Ele era alto, branco, cabelos pretos, nariz fino, todo vestido de preto. Quando nossos olhares se encontraram , por um instante, seus olhos ficaram totalmente brancos. Tirei a visão  quando olhei novamente, ele havia sumido.

Seria engraçado se todos pudessem ver. Ariel estava, lá embaixo com os funcionários do circo imitava seus gestos e, na hora do mágico, ele fez com que os truques saíssem errados. Eu sorria, era hilário. Mas, nada tirava da minha cabeça a imagem daquele garoto.

Em uma outra cidade, Amanda Luana pesquisava sobre seu assunto favorito: o sobrenatural. Ao ver o link sobre a pequena cidade de Opala, não pensou duas vezes. Iria procurar e encontrar, quem sabe, a maior aventura de sua vida. Soube das fendas misteriosas que apareciam no lugar, nuvens estranhas que apareciam à noite. Aquilo a fascinava, as pessoas não acreditavam nela, mas ela sim e isso bastava. Fez as anotações que podia, arrumou sua mochila e uma bolsa de viagem. Pegou seu cachorrinho dálmata, o Spoke e o colocou em cima da cama.

Os lençóis que sua mãe lavara, serviram de corda. Começou a amarrar suas pontas. Enquanto fazia isso, olhou-se no espelho: os olhos arredondados negros como a noite, o nariz pequeno afilado e arrebitado na ponta, a boca fina e sinuosa a fazia lembrar de sua mãe. Aliás, era o retrato da progenitora. Amarrou seu cabelo preto comprido em um rabo de cavalo, colocou a jaqueta e sentou-se na penteadeira, olhando seu reflexo, escreveu uma carta aos seus pais. Contou-lhes de seus sonhos e pediu-lhes tempo. Disse que não estava louca, se não fosse tudo como “ louco “, Einsten seria apenas um simples professor ( sem desmerecê-los ), não um gênio.

– Vem, Spoke. Não se preocupe, guardei toda a minha mesada dos últimos seis anos e o trabalho de 2 anos na livraria, me deu um bom dinheiro que investi na poupança. Vamos ficar bem. – ela olhou da janela até o chão e começou a descer.

Não olhou para trás, uma lágrima atrevida caiu de seu olho, mas não foi acompanhada por outras. Amanda pegou um táxi e foi para a rodoviária, tinha 17 anos, podia comprar uma passagem, mas deixaria pistas de seu paradeiro. Pediu a um morador de rua que comprasse uma e, em troca, pagou-lhe um jantar no restaurante local. Quando embarcou, à medida que o ônibus se afastava de sua cidade, a esperança de ver aquilo em que acredita fumegava em seus olhos e era maior que a saudade que ela sabia ter de casa.

À noite, o desequilíbrio entre o mundo real e o mundo mágico se acentuava, porém não era tão perigoso. A presença da guardiã e o ressurgimento do Caliban afetavam o equilíbrio, o pouco que tinha.

Eles estavam famintos, a fome os dominava. Há anos que não sentiam a força da carne tão forte. Aliás, não era para sentir, o Caliban começava a entrar em ação. Eram quatro, sedentos e perigosos e, acima de tudo, presos.

O gatinho do senhor que morava na descida da rua de Gabriella, não era de sair à noite, mas tudo estava errado. O ancião que tratava o animal como um filho, foi atrás dele. Abriu a porta da varanda, o vento estava frio, amarrou o roupão de algodão felpudo azul, ajeitou os chinelos melhor no pé, colocou a garrafa com água segurando a porta.

– Frederico, cadê você? Vem cá, garoto. – a voz rouca chamava.

Estava escuro, um homem de preto apareceu do outro lado da rua com o bichano no braço. Atravessou e aproximou-se do velho.

– Aqui está. O senhor não deveria aparecer na rua a essa hora, é perigoso. – seus olhos demonstravam confiança.

O ancião agradeceu e quando virou as costas, o homem disse que ele apesar de velho, tinha uma força vital extraordinária e muito apetitosa. Os rapazes estavam de preto, alvoroçados, sem sentidos. Ao verem aquela presa, frágil, indefesa, não pensaram duas vezes. Só queriam saciar a sede. O homem permaneceu em pé observando, nem o gato saiu ileso.

– É hora de voltarem a dormir, já os usei o suficiente. – eles desapareceram.

Charles e Fernanda não chegaram a tempo, o senhor Gonçalo estava estirado no chão. Apenas sua alma permanecia em pé. Os dois irmãos estavam reluzentes.

– Eu morri? – ele perguntou olhando seu corpo.

– Sim. – disse Charles – Somos anjos de passagem e você vai…

Eles preparavam-se para o transporte do ancião.

– Não. – uma voz veio da escuridão. Ela era forte, firme. – Ele vem comigo.

– Não podemos deixar, assim, ele vai ficar preso. – intercedeu a garota.

– Isso é uma ordem. Sua alma vem comigo.

– Eu não vou com você, eles estão de branco. A cor que você está vestido não é confiável. Pra mim, você é um…

– Não diga mais nada. De um jeito ou de outro, você virá comigo. Aceite. – ele estendeu a mão.

– Mas… – continuou Fernanda.

– Cuidem do seu protegido. Ele é meu – erguendo as mãos para o ar, os dois sumiram.

Os anjos ficaram ali, parados, não podiam fazer nada. Perceberam que o desequilíbrio aumentara. O Caliban estava ganhando. Eles voltaram e ficaram rondando a casa de Gabriella. Outro ataque parecido aconteceu na saída da cidade, mas ele estava lá, então era melhor não fazer nada.

Quando acordei, Ariel estava em pé de frente à minha cama, só observando. Sua expressão mais angelical do que nunca, a luz que entrava pela janela conferia-lhe um brilho a mais. Deu-me um bom dia. Meu livro vermelho estava sobre o computador, trouxe-o levitando. Meu professor elogiou minha rápida aprendizagem.

– Então, o que vai fazer hoje? – ele perguntou andando de um lado para o outro.

– Vou à biblioteca, ver os arquivos antigos da cidade.

Por que a senhorita fez essa careta? – ele virou o rosto de lado.

– Eu não dou conta nem dos livros da escola, imagine de arquivos de dois séculos! Sabe, não me leve a mal, mas essa estória de senhorita não pega…

– Não PEGA? Eu só a chamei, não a toquei eu juro! Ele cruzou os dedos sobre a boca.

– “ Não PEGA? Quer dizer que está ultrapassado, só idosos falam assim, ah, e os professores, claro nem todos.

– Eu tenho duzentos anos e alguma coisa.

– 216, eu acho. – levantei, esfreguei os olhos, bocejei um pouco. – Tive um sonho estranho, com você. Bom, eu não era eu. Estávamos em um jardim e tinha uma árvore, você segurava um embrulho quadrado, havia um outro homem, não sei bem. Eu, bom, ela, ah, você entendeu, fui atrás dele. Você sorria, mas estava infeliz. Me senti egoísta por não dar-lhe atenção.

– Talvez tenha sido uma lembrança, não lembro muito da minha vida. – seu semblante mudou, ele sofria. Disse que ia banhar e deixei-o só. Me arrumei, desci para tomar café com minha família.

– Nossa! Quanta alegria, você está radiante, filha.

– Não fiz nada de mais, pai. – falei ao beijar-lhe o rosto, abracei minha mãe e mexi no penteado do Gabriel, ele odeia isso.

Eu estava feliz porque me lembrava de sábado, que Maurício trocou aquela patricinha da Bianca, para andar com a gente. Estava mais feliz ainda porque ele defendeu o Fernando do idiota do capitão da seleção que fazia chacota dele. Ele era uma pessoa e tanto, ele disse que tinha uma surpresa para mim e ia levá-la para a escola.

– Podemos ir? – perguntei ao meu pai sem ter, ao menos terminado de comer. Vou escovar os dentes. – subi as escadas correndo.

Desci do carro. Bom, tirando a parte de que ainda tenho medo da escola e das pessoas, a visita a biblioteca, o dia prometia. Erika estava à minha espera.

– As fotos ficaram ótimas, parabéns , Gabi. Posso te chamar assim? O que você fez hoje? Está diferente. Que cabelo branco é esse?

Cabelo branco? Não, era possível!

– Pode chamar sim. Cabelo branco? Como assim? – ela me mostrou um espelho. Na verdade, uma mecha do meu cabelo estava com a raiz branca, só uma mecha, na parte frontal. – Deve ser o shampoo. – Espero que seja isso.

Caminhamos até a sala de aula, vimos Fernanda. Onde ela estava? A professora Mônica nos cumprimentou.

– Ai, não…

– O que foi Erika? – perguntei assustada. Se fosse mais um cabelo branco, eu surtaria. Começaria a gritar, a pular…

– Teste de química surpresa. A senhorita Mônica pode até ser legal, mas se ela nos cumprimenta no corredor, especialmente nesse, é prova. Vou avisar aos outros. – ela saiu correndo.

Abri  meu livro vermelho e olhei a foto de Ariel, disse que ele precisava me falar sobre essa história de cabelo branco, distraída caminhava com o livro aberto nas mãos.

– Você não pode viver um dia sem topar nas pessoas? – Maurício falou me segurando.

Amarelei. O que eu falaria? Meu HD não processava, a informação. Pare. Socorro.

– Desculpe. – ufa! Só “ desculpe”? Não era bom. Fui mal…

– Com quem você falava? Nossa você envelhece muito rápido.

– Eu, não falava com ninguém, a não ser com … comigo mesma. – ele percebeu meu cabelo branco azar danado.

– Calma, só estou brincando. – ele disse ao ver minha reação.

Ariel apareceu do nosso lado. Apontou para ele, mediu sua altura, ele era menor, ficou na ponta dos pés, mexeu no cabelo dele.

– Para!

– Hum … com o quê?

– Eu estou falando com, o Fernando! – menti- Espera aí, saí correndo e deixei-o sozinho. De novo, não, de velho.

O teste não estava tão difícil, mas para mim era um assassinato. Quem sabe se eu tivesse dez por cento do Fernando, poderia me dar bem. Ficando na média, estava ótimo, quer dizer, maravilhoso. Olhei para a professora, ela parecia a Mônica mesmo. Ela estava observando a prova que tinha em mãos. Comecei a ver sua mente, muitas outras vieram à tona. Pedi a Ariel que me ajudasse, ele me disse que eu era a chave de mim mesma. Só eu poderia me controlar. Tantas pessoas, era muito pra mim, um redemoinho. Aí… suas vozes aumentavam era ensurdecedor. A última coisa que vi foi a professora me apoiando para eu não cair no chão.

Abri os olhos devagar, minha mãe estava sentada ao meu lado.

– Você está melhor?

– Sim. – respondi. Eu deveria estar melhor de quê?

– Que susto, hein, Gabriella! Foi só uma queda de pressão.

– Eu disse pra você não comer tão rápido.

Quando a enfermeira saiu, minha mãe perguntou onde Ariel estava. Eu respondi que ao lado da porta, ela me deixou a sós. Pedi que me deixasse ficar, contrariada, disse que sim. Caminhou em direção a ele , cochichou algo. Percebi que ela não queria que eu escutasse. Fingi que não vi.

– Quando aparecem para um humano, fantasmas de passagem se tornam responsáveis por ele. Não é mesmo Ariel?

Angélica em uma de raras vezes deixou sua postura calma. Afinal era sua filha. Ela temia pelo o que pudesse acontecer com a garota devido a tantos acontecimentos.

O fantasma permaneceu imóvel, braços cruzados, testa franzida. A mãe de Gabriella passou pela porta que ficou aberta, ele a fechou com o poder da mente bruscamente.

Eu não podia acreditar naquilo, Ariel zangado. Levantei da maca. Fiquei sentada, quase desmaiei novamente.

– Quem ela pensa que é? – gritava ele.

– Minha mãe? – estranhei a pergunta e fiquei assustada.

– Isso! A sua mãe! Não a minha!

As coisas começaram a voar por todos os lados. Mas, nada me atingia, eu estava protegida. Nada se aproximava a menos de um metro de mim. Ele explodia de cólera, seus olhos mudaram de cor, estavam vermelhos fumegantes, ardiam. Aquilo me deixara triste e eu não sabia por que. Um sentimento de culpa me dominava. Eu era culpada, causei tudo aquilo. Eu não queria…

Aí, ele olhou para mim. Ao perceber que eu chorava aquela raiva esvaziava de seu rosto, aos poucos ele voltara a ser o Ariel que eu conhecia. Sentou ao meu lado, tentou me tocar, mas era impossível. Ele era um fantasma.

– Desculpe-me, senhorita. Um cavalheiro não deve “ perder “ a cabeça. Bom, eu já estou morto. Apesar disso, não devo perder os modos. Sinto muito.

– Tudo bem. – enxuguei a última lágrima e levantei definitivamente. – Já vai começar o recreio, preciso comer alguma coisa. Vem comigo?

Fomos ao refeitório, mal sentei com minha bandeja o sinal tocou. Comecei a comer, aquilo não me atingia de forma alguma. Eu estava “ só “ e nada poderia atrair minha atenção, mas eu estava enganada.

Entre os alunos que formavam a fila para pegarem sua bandeja, eu o vi. O mesmo cara do circo, ele me observava. Roupas pretas, o olhar fixo. Desviei minha atenção, Erika chegou pulando com a bandeja em mãos foi logo perguntando como eu estava, o que havia acontecido, o que fizeram comigo, se fui tratada bem…

– Droga. – disse ela por fim – Eu quero uma matéria  polêmica, explosiva. Uma grande repórter precisa de grandes matérias.

– Desculpe não posso ajudá-la. – falei a meia- voz, procurava com os olhos aquele garoto, ele já tinha sumido.

– É uma pena que esteja bem. – falou Bianca sentando na minha frente. Toda a escola parou.

Apenas a olhei, mirei seus olhos  e vi sua mente. Ela me odiava, eu era uma ameaça. Bianca odiava garotas frágeis, delicadas que precisavam de proteção. Aquela loira de cabelos compridos e olhos azuis não admitia suas verdades. Negava a si mesma e procurava nos outros a sua culpa. Não falei nada, continuei comendo.

– Você é retardada ou o quê? – ela afastou minha bandeja.

– Fala Bianca. – olhei para ela , senti pena.

– Muito bem. Assim que eu gosto. Eu quero que você saia do caminho, mosca- morta…

– Ei, garota! Você se banhou com água fervente quando deixava seu cabelo escorrido que nem macarrão? – Erika a puxou pelo braço.

– Solta ela, Erika. – falei . Ariel queria agir, disse-lhe que “ não “. Levantei, mas Bianca me deteve. Eu não aguentava mais aquilo.

– Fala, Bianca! Eu não te fiz nada! Que tanto ódio é esse? Eu não estou no seu caminho, não quero nada que te pertença. Como você disse eu sou uma mosca- morta o que eu posso fazer? – ironizei. Ironia era algo novo. Saí correndo para conter as lágrimas. Na saída do refeitório, aquele garoto novamente. Fiquei escondida na biblioteca. Fernando estava sentado ao lado da entrada.

– Posso me sentar aqui? – perguntei com a voz meia rouca.

– Eu estou tentando não chorar. Homens não choram.

– Então eu choro por mim e por você. – sentei ao seu lado.

– O que foi? – ele perguntou

– A Bianca me odeia. Aliás todos me odeiam.

– TODOS, não. Há pessoas que gostam de você, apesar de não te conhecerem bem. Não chore tanto assim. – ele passou a mão na minha cabeça.

Maurício nos encontrou, ele não teve nenhuma reação ruim, pelo contrário, foi muito amável. Mas ele teve um pensamento “ se não pode com junte-se a ele “. Nada a ver, porque eu estava me tornando amiga do Fernando, só isso. Ele sentou-se ao nosso lado, ficamos fixos, imóveis, calados. Cada um compartilhando a dor do outro. Quando bateu a campa, Macbeth, a bibliotecária, abriu a porta.

– O que fazem aqui, garotos? – ela perguntou meio receosa.

– Só estamos nos escondendo de uma galera que quer jogar ovos nela, hoje é seu aniversário. Sabe como é , dona Mac – convenceu Maurício.

– Ah, é você, Maurício. Então é melhor irem para a sala de aula, já bateu a campa.

Saimos. Cada um foi para um canto diferente. A próxima aula seria no laboratório de língua espanhola. Sentei na última cadeira da sala, lá no fundão. O senhor Alejandro entrou no local, todo vestido a caráter. Iriamos aprender sobre a cultura mexicana e algumas expressões idiomáticos.

Ariel permaneceu andando por toda a escola, fez uns experimentos de química do 3º ano darem errados, causando confusão no laboratório. Trocou de posição os quadros que o diretor mantinha em ordem das diversas fachadas da escola causou muito alvoroço. Não se sentia livre há 200 anos, mas ainda estava preso na terra. Angustia e alegria ao mesmo tempo.

Amanda finalmente chegou aonde queria: o local onde as rachaduras foram abertas na pequena cidade de Opala. Alguns geólogos trabalhavam no local ainda. A garota aproximou-se da equipe.

– Oi. – ela disse segurando as alças da mochila.

– Não deveria estar aqui mocinha – falou um homem meio barbudo e de óculos segurando uma fita nas mãos.

– É, eu sei. É que me interesso muito por geologia quando vi na tv que vocês estariam aqui não pude resistir. O que causou isso seria um movimento esperotérmico?

– Ainda não sabemos bem. Oi! Sou Bruno, estagiário. Estou ajudando-os. – O garoto tirou a trena da mão e estendeu-a. –Talvez seja só um desmoronamento interno.

– Amanda. Prazer. O que tem lá embaixo?

– Terra e mais terra, – falou o homem mais velho entrando no buraco. A senhorita quer vir?

– Sim, muito! Vem, Spoke!

O  caminho era escuro, os três desceram mais o cachorro. Havia uma equipe, trabalhando, recolhendo amostras de terra escavando, a garota caminhava atentamente. Prestava atenção em tudo, em cada detalhe: a terra fofa e preta que deixava as marcas de pegadas, o odor úmido de terra molhada, água que umedecia as paredes e as luzes calculadamente empregadas na iluminação do local.

De onde vem tanta água?

Aqui ao lado, há tubulações de água e um pouco mais adiante a rede de canais de esgotos. Tivemos sorte por ele não ter sido atingido. Isso é estranho porque um provável deslocamento de terra não se limitaria a uma área tão limitada. – disse Bruno entusiasmado.

– Talvez o concreto das paredes o tenham impedidos. Qualquer hipótese bem fundamentada deve ser levada em consideração. – falou o chefe da equipe.

– Existe alguma testemunha?

– Não. Se não for incômodo, poderia me dizer o porquê de seus levantamentos?

– Só curiosidade e espírito geológico.

Amanda tropeçou em uma rocha e caiu por terra. Ao cair viu um pingente no chão. Quando pegou-o escondida, este queimou a sua mão. O formato dele era um círculo com o “ A “ de plano de fundo e um “ C “ por cima . Provavelmente era de ouro.

– Tenho que ir. Meus pais me disseram para não demorar. Além disso, ainda nem almocei. Obrigada e boa sorte com as pesquisas.

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Capítulo 4

Quando saí, mamãe já estava à minha espera e conversando com ninguém mais, ninguém menos que Maurício! Gabriel já estava no carro com seu videogame predileto. Cumprimentei o rapaz e entrei no carro. Mamãe se despediu dele e saímos. E meu irmão não poderia perder a chance de me irritar ou não se chamaria “meu irmão”:

– Gabi tem namorado! Gabi tem namorado!- ele cantava agudo e aquilo era irritante, mais irritante que ter seus pés sobre mim se debatendo.

– Cala a boca.- resmunguei, chateada. Cruzei os braços e fiquei olhando pela janela.

– Por que a demora? O que o senhor Gonçalo falou?- perguntou mamãe olhando pelo retrovisor.

– Como sabe que falei com ele?- perguntei retribuindo seu olhar pelo objeto. Aquilo era estranho, ela não sabia meus horários.

– O Maurício me contou. –ela respondeu prontamente ao fazer uma curva.

– Mas ele nem…- desisti- uma patricinha desagradável que fez eu me dar mal em um trabalho. Perdi metade da nota.

– Ela não tem esse direito!- mamãe exclamou.

-Não tenho provas, além disso o senhor-sei-de-tudo-não-estou-nem-aí já me deu a sentença e não tenho direito à resposta. Sabia que teria problemas com ele.- continuamos o caminho sem mais conversa. Era meu momento de silêncio e a dona Angélica, como mais ninguém, sabia respeitá-lo.

Meu pai preparou o almoço. Aquilo era um pouco raro, mas não incomum. Estávamos à mesa, juntos, novamente. Uma típica família normal, até minha mãe receber outra viagem da agência. Depois daquele momento fui para o cantinho da bagunça, joguei a mochila sobre a mesa, tirei os sapatos, respirei fundo e perguntei:

– Se você estiver aqui, por favor, apareça…que loucura a minha, foi apenas um sonho…um sonho bem…- falei voltando as costas para o espelho.

– …real? A senhorita é quem pensa…- ele apareceu do lado do espelho, recostado em sua madeira vermelha detalhada em alto relevo.

– Ariel?! Eu não sonhei mesmo…- falei aliviada. Na verdade, aquilo era mais uma prova que minha solidão não estava me deixando louca, mas ele nã precisava saber disso.

– Acho que não- ele sorriu- o que desejas?

-Saber mais…sobre você…sobre mim…anda acontecendo umas coisas estranhas comigo…-falei segurando meu pingente-chave..

– Uma história longa que eu não me lembro bem, queres escutar?- ele se sentou no chão. Estranho dizer que um fantasma sentou no chão, mas foi isso que aconteceu.

– Sim, muito.- fiz o mesmo que ele.

– Há mais ou menos 200 anos, acho que mais, eu tinha 16…eu era como a senhorita, digo, de carne e osso. Minha família era como a sua, viva… guardávamos o portal entre a dimensão mágica e o seu mundo..e agora eu estou aqui, bom, não me lembro de muito.

– Eu? Bruxa?Guardiã? Não é possível…- eu realmente não queria  acreditar.

– Tente. A senhorita acordou levitando, paralisou meu teletransporte e quebrou copos com a mente. Quer mais provas? Observe.- com um simples movimento de dedos, ele fez as lâmpadas apagarem e acenderem. Desafiei-o pedindo que fizesse algo comigo.

– Não posso. A sua áurea…anula teus poderes. Tente os teus. Acredite.

– Quero a Madonna aqui!- fechei os olhos com força.

– Não precisas exagerar. Tente traze aquele copo primeiro.- olhei pra ele. Fechei os olhos, respirei, abri-os, eu vi o copo, eu queria o copo, ele veio até mim.

–  Isso é incrível!- eu sorria, nossa, era demais!

– Queria pedir algo…-ele mudou seu tom de voz, estava triste.

– O que quiser.- respondi me levantando e sentando no sofá. Ele se aproximou de mim, sentou do meu lado, eu não me sentia desconfortável, aliás, eu gostava daquilo.

– Meu sonho é ser livre, mas preciso descobrir meu assassino, recuperar meu medalhão. Ele é a chave e foi dividido em quatro partes: duas chaves e duas metades. Ele é a resposta de tudo.- ele olhou para o chão por um bom tempo e eu fiquei observando-o.

– Prometo ajudá-lo nessa busca. Você tem alguma pista? Como é esse medalhão?- falei me erguendo e caminhando pela sala.

– Eu não faço ideia. Desde o início, há dualidade. Bem e Mal duelam. Nossos mundos eram unidos e agora vivemos escondidos, presos, sem voz. Apenas aqueles que ainda tem assuntos com os humanos podem ser vistos.

– Isto explica em parte meus sonhos esquisitos.- deduzi.

– Como assim?- ele voltou a me olhar novamente. Ouvimos batidas na porta. Era minha mãe. Estava na hora de caminhar.

– Está na hora de contar para a sua mãe, ela não sabia como…não fique fora depois das seis da tarde, será perigoso. – ele olhava pela janela meio perdido, senti um vento gelado tomar conta da minha espinha dorsal.

– Tudo bem.- disse saindo.

XXX

Por debaixo dos esgotos da cidade, havia uma caverna fria e escura. A iluminação era feita com velas, tinham muitas caveiras e ossos por todo o local. Podíamos ver também uma espécie de altar com um espelho (daqueles antigos que encontramos em lojas de penhor), aquele jogo de luz e sombra era sinistro e dava um tom de mistério àquele lugar.

– Meus caros conterrâneos, chegou a nossa era de glória. Senti o espírito de Aleja e sua tataraneta. Ariel ainda está em um mundo paralelo, mas aquela bruxa saiu do seu isolamento. Não posso afirmar aonde estão, mas eles voltaram, há muito almejo aquele medalhão, o portal das duas dimensões. É hora de nos levantarmos e acabar com aquela raça de guardiões! O Caliban retorna para a vitória!- Caliel ergueu os braços para o alto e os abriu.

– Que reinem as sombras!- gritou a assembleia fazendo o mesmo. As sombras tomaram conta do lugar.

XXX

Estávamos a caminho de casa, a tarde foi muito boa, distraí-me a ponto de esquecer o aviso de Ariel. Mamãe dirigia, eu escutava musicas, mas algum tipo de interferência me fez jogar o ipad no banco de trás. Na nossa frente, uma fenda abriu-se e minha mãe desviou o carro. Sombras saíam das fendas e dominavam tudo que tocavam, elas avançariam mas algo ficou na nossa frente e brilhava e afugentaram as sobras que insistiam pelo caminho. O carro continuou o caminho tortuoso, fendas e mais fendas se abriam. Eu não entendia nada, Angélica me abraçou e estávamos na frente de casa.

– Tudo bem, querida?- mamãe colocou a mãe em meu rosto e me abraçou novamente.

– Sim, obrigada. – abracei-a- Por que não me contou sobre os feiticeiros?- olhei para ela.

– É uma longa história, como soube? Quem te contou?

– Um amigo.

– Entre, não conte nada a seu pai; Diga que parei em uma oficina e não demoro. Depois conversamos.- ela me abraçou e se levantou e depois sumiu.

– Tudo bem.- falei me levantando da grama. Tentando limpar o máximo possível os vestígios dela da minha calça para um álibi perfeito.

Fiz conforme pedido por ela. Banhei, troquei de roupa. Quando voltei para desenhar, encontrei minha mãe sentada na cama, convidou-me para sentar ao seu lado. Ariel estava encostado ao lado da janela, de braços cruzados.

– Tem lugar para mais um?- perguntei olhando para ele. Ele estava bem concentrado naquilo, sei lá, estava lindo com aquela cara séria. Sim, sou esquisita a tal ponto de me encantar por um fantasma.

-Quem?- ela perguntou com jeito de quem temia a resposta. Olhou para o lado dele, mas não o viu.

– O meu amigo.- apontei o queixo em sua direção.

– Ele não é um…- ela olhou pra mim assustada- oh! Querida, fantasmas não, por favor, seres de carne e ossos de preferência, esses não são confiáveis, eles perderam humanidade, perderam lembranças, vivem sozinhos…- ela realmente estava desesperada e Ariel desaprovou sua reação com um olhar.

– Não pode vê-lo?- perguntei me levantando e caminhando um pouco para longe. Era demais por um dia.

– Bom, desde que cheguei sinto sua presença, mas pensei que era só o fato de estarmos em uma casa nova. Mas, vejo que me enganei. O que queres saber?- ela voltou a si e olhou pra mim.

– Tudo. Tem acontecido umas coisas comigo: vejo fantasmas, acordo flutuando. Quebro copos e fico hipnotizada.

– Hipnose? Essa é nova. Querida, somos descendentes de guardiões do portal dimensional, mas minha bisavó desobedeceu as regras e fomo punidas. Nossos poderes se perdem a cada geração e apenas temos um de descendência por vez.- ela olhou para o lado.

– Como assim?

-Somos filhas únicas. Ou éramos. Aleja foi enfeitiçada, se apaixonou por um humano e recusou-se a cumprir seu destino. O Caliban conseguiu o que queria, um desequilíbrio. O outro guardião amava a sua tatara e a protegeu, mandando-a para a dimensão mortal, ele tomou o seu lugar e pagou um alto preço por isso. Com isso, o medalhão foi quebrado e espalhado por quatro locais diferentes. O portal sumiu ninguém sabe sua localização, ele precisa ser invocado.

– Bom, hmm, não se nem o que falar, aquele livro que a senhora me deu é o quê? Tudo isso é muito estranho.- mordi o lábio inferior, não é muito fácil você descobrir que, de repente, você tem poderes e tem uma história muito louca que parece ter saído de um livro de histórias fantásticas.

– É o seu livro de magia, nele será gravados seus encantamentos. O meu é cheio de folhas brancas. Optei por uma vida normal, e além disso, tem a perda gradativa de poderes que a nossa família tem sofrido com o passar das gerações. O máximo que consigo é o teletransporte e esboçar o futuro- ela explicou gentilmente, mas sua voz estava meio sombria.

– Então, foi a senhora?- perguntei surpresa, quase não acreditava.

– Não, querida. Foi muito rápido, não tive tempo de me concentrar. Há muitas lacunas nesta história mal contada- por um momento, ela olhou na direção do meu amigo fantasma como se pudesse vê-lo. Ele fez cara de poucos amigos, por um momento, achei que eles estava se vendo.

– Querida, hoje é o seu dia de fazer o jantar!- gritou papai da escada. Logo depois que minha mãe saiu, Gabriel entrou correndo no meu quarto,  sujo e descalço e jogou-se sobre a minha cama. Olhei para ele e mandei que saísse, ele, obviamente, não quis me ouvir.

– Sai daqui agora!- gritei ao jogar uma almofada nele.

– Nem me acertou besta, na na na na na na- ele fez careta e começou a correr pelo quarto. Quando eu gritei novamente, uma força estranha empurrou-o na parede do corredor. Não foi grave, mas eu me senti muito culpada por não me controlar. Ele começou a chorar, corri e abracei-o, pedi um milhão de desculpas, ele me abraçou. Apesar de brigarmos constantemente, eu o amo e seria capaz de matar por ele se fosse o caso.

Depois do jantar, fui estudar Álgebra, apenas mais um assunto e eu poderia descansar daquele tormento. Coloquei o caderno sobre a mesinha e só de olhar fiquei com vontade de morrer, em algum momento daquela equação eu me enforcaria no cosseno e  a tangente seria a testemunha. Ariel não estava no quarto, olhei fixamente para a  janela, eu só queria um dia comum, com minha família musical e desastrada, com meus recorrentes problemas com matemático e o meu convívio antissocial, eu só queria por um momento, uma vida como a de antes, sem acontecimentos extraordinários, humanamente normal ao jeito Cavalieri de ser. Desisti de estudar, a teoria era fácil, mas a prática…

XXX

Maurício concluía seus deveres. Quando terminou, pegou seu violão e tirou a partitura que Gabriella tinha composto. Não era tão difícil e a simplicidade das notas que ela utilizara eram carregadas de emoção. Na letra, havia  a história de uma garota e suas diversas faces que mudavam como cavalinhos no carrossel. Ele sorriu, ela realmente não era como as outras. Fechou os olhos enquanto tocava novamente a música, dessa vez, ele cantou. A música parecia emanar de si. Uma estranha sensação percorreu o seu corpo e ele voltou a si. Olhou para a porta e teve uma surpresa.

– A senhora está aí há muito tempo?

De pé, no batente da porta, estava Alessandra, de braços cruzados, ouvira seu filho tocar. Vinte anos mais nova que seu esposo, era a docilidade em pessoa. Seu cabelo era na altura do pescoço, levemente ondulado, entre preto e loiro estava amarrado em um “rabo de cavalo”. Seu olhar meio arrendodado, a fazia parece uma asiática se não fosse pelos olhos cor de mel. O vestido floral longo dava-lhe um ar mais jovial. Observava seu filho com ternura e amor, ela tinha chorado. Enxugou uma lágrima recalcitrante  e sorriu.

– Só o suficiente para entender tanta emoção. Esta letra é sua?- perguntou sentando ao lado do filho na cama.

– É de uma amiga- ele sorriu  novamente.

– Uma amiga? Você sabe quem eu sou, não é?- ela retrucou desafiando-o.

– Sim, minha mãezinha linda e maravilhosa que me conhece tão bem a ponto de saber que se depender de mim, ela não será apenas uma amiga. – ele a abraçou e beijou seu rosto, depois olhou para a interlocutora- A Gabriella é incrível, me fascina. É muito reservada, foge de todos e de mim- essa parte ele disse com tristeza.

Alessandra sorriu e foi pegar a capa do violão do filho.

– Hmm. Gabriella de quê?

-Gabriella Cavalieri- a mulher mudou de cor. Estremeceu. Não podia ser. Era impossível. Recordações vieram-lhe à mente.- Mãe?- repetiu novamente Maurício preocupado com aquele transe.

– Oi, querido.- ela voltou a si e sorriu para disfarçar.

– A senhora está bem? Algum problema?

– Quero saber mais. E não me esconda nada mocinho- ela sentou na cama novamente e deu cócegas o filho. Eram mais que parentes, eram amigos, melhores amigos: mãe e filho. A brincadeira não durou muito, Gonçalo apareceu na porta informando sobre o horário.

XXX

Caminhei apressada, a mochila pesava. Meu livro estava sobe o fichário, no braço esquerdo. Passei por Bianca sem me atrever a levantar o rosto, se eu tivesse sorte, seria desapercebida até me formar. Aliás, eu só queria olhar para o chão. Quando estava de saída, pude ver Fernanda se destacar dos demais, estava na frente de Érica que acenava para mim. A garota pulava e sorria, por favor, que não fosse comigo, a outra apenas sorria. Aproximei-me delas receosa.

– Quer ir ao circo?- Erica me estendeu um anúncio- Como você é minha amiga será a fotógrafa para o jornal da escola, não é?

AMIGA, pensei. Aquilo era novo. AMIGA. Sorri amarelo e estremeci. Alguém não fugia de mim, aquilo era um máximo! E preocupante.

– Eu serei a “camerawomam”, o que acha?- Fernanda estava com uma filmadora- Ah, o que é isso? Sorria!

– Ah, sei lá…- o Sol estava forte. Olhei para fora, havia muitos alunos esperando seus pais, muitos já chegavam.

– Se for mais um pouco para o lado, terá um ângulo bem melhor Gabriella- falou Maurício por trás de mim. Desprevenida, pulei de susto. Procurei algum lugar para me esconder e distingui o doblô de minha mãe. Corri sem medo.

– E o circo?!- gritou Erika.

Virei para eles e gritei que iria. Sei lá, nem sei como surgiu tanta coragem, acenei para eles. Quando virei novamente, dei de “cara” com Fernando, o cara mais inteligente da minha turma de Física. Caímos no chão, meus papeis voaram, meus cadernos caíram, meu livro de encantamos saiu escorregando, Maurício correu para nos ajudar.

– Desculpa, desculpa, eu não queira… ai, como sou desastrada!- falei apanhando os papeis dele. Coloquei meu cabelo para trás.

– Não, tudo bem- ele sorriu metálico.

– Olha, qualquer problema depois é só falar…

– Eu…eu..eu…eu me viro, não se preocupe.- ele sorriu, sua liga era azul- Meu óculos…- ele tateava o chão,

– Eu..é.. aqui está…eu compro outro não se preocupe. – uma das lentes estava quebrada.

Levantamos, arranquei uma folha do meu caderno e escrevi meu telefone, estendi o papel pra ele.

– Me liga pra conversarmos depois e tu me dizer o preço tá bom?- sorri pra ele.

Alguns rapazes se aproximaram de tiraram chacota dele. “Até nerds tem seu dia de rei”, disseram. O rapaz ficou encolhido.

– Não liga, eles são idiotas. Prazer, Gabriella Cavalieri- estendi minha mão.

– Fernando Stevan- ele sorriu de volta pra mim.

-Vê se me liga, ouviu?- encorajei. Continuei o meu caminho, até que alguém me puxou para trás.

– Você vive perdendo as coisas, não é mesmo?- era Maurício, ele me apontava o livro.

– Obrigada.- peguei o livro e aumentei a distância entre a gente.

– Então, eu preciso ser ruivo, ter sardas, usar óculos, aparelho de liga azul e camisa xadrez para conseguir teu número?

– Algum problema com nerds?- desafiei-o, me soltei dele e saí em direção ao doblô esverdeado.

– Um dia e tanto- minha mãe sorriu, ao me ver entrar no carro.

– Nem me fale.- suspirei ao colocar o cinto.

No caminho, Gabriel jogava videogame e chutava o meu banc. Gritei pra ele parar e o PSP dele queimou.

“Há algo de muito errado. Gabriella tem poderes extradordinários”, pensou minha mãe. Hã? Eu comecei a ler mentes? Tudo bem. Isso é um sonho. Não sou uma bruxa, não um fantasma morando comigo, não tenho poder algum e não leio mentes. Não mesmo.

Estremeci no banco e me encolhi.

– Querida? Querida? Está me ouvindo? – perguntava uma voz ao longe.

Senti que alguém me beliscava meu irmão. Voltei a mim. Angélica não sabia se olhava para mim ou para a estrada. Paramos em um sinal, outro carro estacionou ao nosso lado, esperando a cor do semáfaro trocar. Olhei para o homem careca que estava ao volante, não era ele , quer dizer, era e não era. Ah, sei lá. Seus olhos centilaram ao encontrar os meus e sua aparência mudou as orelhas surgiram pontudas e com brincos, o nariz pontiagudo com uma verruga e ele ficou verde! Pisquei os olhos , o sinal mudou ao tentar vê-lo novamente, percebi sua normalidade.

Ao cegar em casa me sentir avaliada pelo fato de no outro dia ser sábado. Sem patricinhas, sem professor de matemática, sem micos ( ou melhor gorilas ). Abracei meu pai que estava perto do balcão da cozinha preparando o almoço. Subi a escada que dava acesso ao 2º piso, Gabriel saiu correndo na frente e entrou no banheiro primeiro. Bom, eu teria que esperar.

Frustrada, sentei na minha cama com meu livro de feitiçaria nas mãos. Meus dedos percorriam cada detalhe gravado em alto relevo. As rosas vermelhas que se enroscaram nos galhos, abrindo espaço para a fechadura.

– Bú! – soprou alguém no meu ouvido, caí com o susto.

– Desculpe – ele falou me olhando, no chão. Acomodou-se melhor na minha cama, um joelho cruzado sobre ele, costas no apoio de trás.

– Isso virou rotina – coloquei primeiro o livro sobre a cama e balancei a cabeça no intuito de tirar a cabelereira do meu rosto. – Ainda pensava que isso era um sonho.

– Magia não é brincadeira. – ele me repreendeu, mas feito criança mudou seu humor rapidamente e sorriu. Perdoe-me novamente, sou um fantasma. Fazemos isso.

– Isso? Tipos possessões de corpos, estrangulamento das vias córneas até a morte, brincadeiras de mau gosto, incêndios que parecem acidentais?

– Nem todos, só os que enlouquecem e não aceitam sua condição nova. A senhorita sabia que a maior prisão é a solidão? De repente, você está morto, quer ser escutado, pede ajuda, mas simplesmente ninguém o nota. Primeiro, você entra em depressão, depois torna-se agressivo, concentra seus poderes de forma negativa. Aí, aparece o Caliban. – Ariel estava concentrado como se olhasse para dentro de si mesmo.

– Caliban?

– O quê? – ele virou-se rapidamente para mim.

– Ah, não se faça de bobo! Você acabou de falar  em um tal de Caliban, espíritos inconformados.

– Perdoe-me, não lembro de nada. Eu disse algo? – ele brincava fazendo as lâmpadas acenderem e apagarem. Olhei para cima . Levantei para banhar , meio constrangida, tive que perguntar se ele não via pelas paredes. Com cavalheirismo e envergonhado também, Ariel que isso só aconteceria se ele atravessasse a parede o que seus princípios impediam.

Fernando estava mexendo na sua caixa de e-mails quando recebeu um que o deixaram triste.

E aí nerd do dente de ferro, vai dar o quê pra Gabriella? Uma proteção contra esse cabeção de jaca? Vê se te manca, aqui não é teu lugar não “ Iro men “.

Pô! Quê que tu tá pensando da vida? Teu aparelho tá dando interferência no meu PC e o teu cabeção da p… não me deixa respirar aspirando todo o ar. Aí não é estudo não, é ar seu bocó!

Extremamente abalado, ele levantou-se da mesinha do PC e pegou um de seus troféus que tinha um formato de DNA. Com raiva, ele lançou-o na tela do computador. Sua avó assustada, correu até o quarto do neto a tempo de impedir que ele quebrasse tudo. Depois de calmo , sua avó deu-lhe um calmante. O garoto adormeceu, mas isto não impediu que esse fato  continuasse em seus sonhos.

Fernando era um nerd. Não tinha amigos, namorada, pais, nem tampouco vida social. Quando seus pais morreram em um acidente, ele passou a morar com sua avó, uma doce senhora sábia, mas radical quando se fala das mudanças que acontecem na sociedade desde quando ela era jovem.

A senhora Stevan cuidava do neto, como se fosse até seu filho adolescente, o que não era muito diferente.

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Capítulo 3

-Quem é ele? É legal? Oh, desculpe querida. Atrapalhei algo?

-Não, mãe. A situação estava ficando embaraçosa mesmo. Sabe como é.- fiquei observando-a. Seus cabelos castanho-claro, cortados médio deixavam seu cacheado mais lindo ainda. Os olhos da mesma cor, estavam fixos no caminho. Ela me olhou e sorriu. Lembrei do retrato dos meus pais sobre a estante. Meu pai com seu cabelo preto e curto, seu rosto quadrado e barba sempre por fazer. Seus olhos verdes a olharem fixamente minha mãe e com tanto amor e ternura que aquela foto era minha preferida.

– Vamos passar em um restaurante primeiro. Hoje teremos comida chinesa.- ela comemorava e começamos a sorrir juntos, minha mãe, meu irmão e eu.

– Algum motivo especial D. Angélica.- perguntei logo depois de aplaudir.

– Minha próxima viagem, em dois meses.- mamãe estava muito contente. Ela iluminava tudo a seu redor mesmo. Por isso tinha meu amor, admiração e respeito.

O almoço em família foi ótimo. No finalzinho da tarde, voltaria à caminhada com minha mãe. Fiz as tarefas de casa, Gabriel começou a gritar do banheiro. Corremos até o cômodo, assustados, ele estava encolhido na banheira e tremendo de medo.

– O que foi filho?- minha mãe perguntou quase sem fôlego.

– Mãe, eu vi um garoto no espelho- ele apontou para o armário de escovas, estava com muito medo. Retruquei que ele havia visto seu reflexo, mas ele estava muito certo do que falava, ao menos parecia. Minha mãe ficou com ele e eu saí, aliviada, por não ter acontecido nada de ruim com ele.

XXX

Maurício tocava em seu quarto repleto de pôsteres de bandas de rock, mais parecia um museu. Seu pai chegou do trabalho e sem perceber tempo, começou a discutir com o filho sobre seu futuro profissional.

– Meu filho, você deveria estar estudando ao invés de perder tempo como os vagabundos de seus amigos. – ele disse entrando no quarto do rapaz,a porta estava aberta, nem precisou bater.

-Pai, eu quero fazer música. Não quero ser um médico…- o rapaz  manteve o tom sereno em sua voz, diferente das outras vezes em que brigavam.

-Você é meu filho, mora na minha casa e vai fazer medicina sim senhor! Onde se viu um aspirante a músico sobreviver disso? Se quiser vencer na vida, desista de seus sonhos!

– Nunca! A vida é minha e dela cuido eu!- o garoto deixou o violão sobre a cama e saiu do quarto, desceu as escadas rapidamente e nem percebeu sua mãe colocando a mesa.

-Querido, tenha paciência com seu pai.- a mulher pediu enquanto o rapaz se apressava em sair de casa.

-Mãe, eu tento, mas tem horas que… Tenho que dar uma volta, esse ar está me matando.- sem rumo, ele saiu caminhando. As mãos no bolso da calça jeans, o vento a bagunçar seu cabelo e a fornecer-lhe uma sensação de liberdade nunca antes sentida por ele.

Mamãe é muito versátel: Quando está em casa, à tardezinha faz caminhada comigo, uma coisa que amamos fazer juntas, na realidade, sou a cópia perfeita de minha mãe em muitos quesitos, conversamos sobre tudo, ela é meu segundo diário e ÚNICA amiga. À noite, quando chega, joga videogame com o Gabriel (sim, ela é jovem ao extremo, mas sem perder maturidade). Não tem como não amá-la. Era para ser um momento bem agradável, mas à medida em que caminhávamos sentia que minha rotina seria quebrada, talvez fosse apenas a saudade que eu tinha dela após suas viagens, sei lá, mas era uma sensação estranha. Entre os rostos que passavam por mim, um deles prendeu minha atenção, não por ser ele, mas por ele vir em minha direção me olhando com aqueles olhos que me faziam perder-me neles. Ele parecia decidido a falar comigo e eu estava decidida a me jogar no próximo bueiro que eu visse para evitar tal situação embaraçosa.

Oi, Gabriella!– ele falou com aquela voz de locutor de programas românticos da meia-noite, ou algo parecido, a verdade é que é bem difícil discernir a perfeição dele, será mesmo que eu disse isso?

Olá, Maurício.– falei meio sem jeito e procurando já uma estratégia de saída rápida e sem levantar suspeitas- Ah! Essa é a minha mãe, Angélica. Mãe, esse é o Maurício.

-Prazer, senhora Cavalieri.– ele estendeu a mão e a cumprimentou, um verdadeiro gentleman.

-O prazer é todo meu. Que rapaz formoso e educado tú tens por amigo, querida. O genro que toda sogra teria orgulho em ter.

Agradecimentos especiais a minha mãe, por estragar meu dia e minha vida também. Não bastasse isso, ela tinha que inventar uma história sem pé nem cabeça para nos deixar a sós. Saiu em direção ao carro e Maurício prometeu me levar em casa. Fiquei atônita, desajeitada e sem reação, matar, morrer ou fugir/

-Então, está gostando da escola?

Perguntei-me se ele gostaria de ouvir a verdade ou se seria bem melhor dizer um “sim” e acabar com a conversa. Não seria muito cordial de minha parte, eu sei, mas eu não me importava se conseguisse meu intento. Mas, não, eu tinha que conversar com ele…

Você é a segunda pessoa que faz essa pergunta hoje.- falei olhando para o chão, buscando em minha mente possíveis saídas, ela nunca trabalhou tanto naquela tarde.

Isso é bom ou ruim? Mostra que és uma boa observadora- ele sorriu de canto de boca, eu vi e, claro, fiquei toda derretida- Queria terminar nossa conversa pode ser?

Não, não pode. Pra falar a verdade, quero ir pra casa, conversar me incomoda um pouco, na realidade, muito.

-Só não garanto te dar respostas.- ataquei.

Quero arriscar.- ele riu novamente, dessa vez um pouco mais alto, ele gostava de desafios. E, percebi com isso, que ele não desistia facilmente e que aquilo o incitava mais ainda. Eu teria problemas.- Que instrumentos você toca?

Respondo ou não respondo, eis a questão.

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Capítulo 2

O dia me parecia comum, passávamos por uma praça muito verde, a grama brilhava com o toque do Sol. Vi pessoas estranhas, com chapéus estranhos e roupas esquisitas. Animais com forma de gente conversavam com seres humanos, tudo bem, aquilo já não era mais comum e eu certamente estava sonhando. Corrí para casa e vi minha mãe com as mesmas roupas, no meu quarto, em frente ao espelho, vi-me com as mesmas vestimentas, eu não era eu, aqueles trajes…fechei meus olhos e quando percebi, estava flutuando. Escutei o despertador, um barulho contínuo e estridente ecoando no meu subconsciente, finalmente, acabei acordando, mas eu ainda flutuava. Bati em meu rosto várias vezes gritando “Acorda!”, eu estava levitando! Meu pai abriu a porta do meu quarto e quando ele fez isso, caí na cama.

– Querida, o que houve?!- ele perguntou desesperado, abrindo a porta e seguido por Gabriel. Eles estavam despenteados e muito, muito assustados.

– Só um pesadelo, pai.- despistei, assim que eles entraram, eu caí sobre a cama. Doeu um pouco, pela força da queda, mas era melhor manter segredo daquela coisa estranha.

Quando ele saiu, fui me arrumar. Olhei para o espelho e me vi com aquelas roupas esquisitas. Fechei meus olhos com força e desci para  o desjejum.

– Filha, esteja ao meio-dia e quinze em frente a sua escola. Assim, eu não me atraso na escola na escola de música. Gabriel esteja ao meio-dia na sua. Combinados?- meu pai planejava enquanto retirava a mesa.

– Sim, pai- falamos enquanto recebíamos os pacotes com nossos lanches.

A escola me pareceu melhor do que eu me imaginava, não sei se era a minha tendência em ver o lado ruim das coisas ou sei lá o quê, mas era assim. A galera me olhava da cabeça aos pés, mau dia, mau dia, mau dia…parecia até que eu havia cometido algum crime, continuei meu trajeto cabisbaixa, evitando encará-los já era muita vergonha ser o centro das atenções, vai, eu não me vestia mal, tinha bom senso e adorava sites de moda, então, descarta a opção vestuário, eu não tinha nada que chamasse a atenção, nenhum atributo físico extraordinário, então, se quisessem, poderiam parar de me olhar daquela forma. Na secretária, recebi uma papelada enorme, o pior é que eles fizeram brincadeiras comigo, demorei até me situar, em virtude da bondade incomum de meus anfitriões, me perdi e me atrasei para a primeira aula, consequentemente. Era Química, bom, eu não faria tanta questão de assistí-la, afinal, era Química… a professora foi bem receptiva e, como se não bastasse a “humilhação” de ser novata vítima de olhares curiosos, ela ainda pediu que eu me apresentasse à turma.

– Vamos lá, Gabriella, fale um pouco sobre você e sua antiga escola.- ela não tinha nenhuma má intenção, parecia legal, sua voz era doce e, por um momento, senti-me encorajada, mas não.

-Bom,eu..hmm.., eu..- travei aí mesmo. Palavras, onde estão quando eu mais  preciso? Timidez, pra quê te quero? A professora percebeu e deve ter se sentido culpada, me salvou daquele momento constrangedor e ainda me poupou de perguntas.

Cinética Química, quem vê diz que eu entendo algo. Tentei me concentrar, eu juro. Mas, assimilar que as reações têm velocidade que depende de uma constante e da concentração de reagentes é, para mim, coisa de outro mundo. Talvez um planeta de nerds, ou Júpiter mesmo. O sinal tocou e saímos, próximo massacre: Álgebra, segunda e terceira aula. Quem havia organizado aquele horário carrasco? O professor já tinha idade avançada, quero dizer, não que ele estivesse em estado de putrefação, porque ele ainda estava vivo, mas tinha cabelos brancos, muitos mesmo, o que o caracteriza com uma idade avançada. Gonçalo se não me falha a memória. Mas, o que aconteceu de bom mesmo, foi um garoto do terceiro ano que me ajudou com o mapa, eu estava tentando decifrá-lo de cabeça para baixo, havíamos topado no corredor e ele foi muito gentil apanhando meus livros do chão, seu nome era Maurício e era filho do carrasco futuro, mais conhecido como meu professor de Álgebra.

– Boa sorte com meu pai! Nos vemos por aí’- gritou ele enquanto eu caminhava rápido para compensar o tempo perdido.

Mais um assunto que eu não entendia e do qual não fazia ideia mesmo. Eu não me concentrava, não por ser uma distraída, mas o colar que ele usava me atraía. Era um prisma pequeno com uma ponta, o brilho dele me fascinava e eu ouvia uma música emanar dele como se estivesse me hipnotizante, tudo bem, eu estava viajando legal e olha que eu tomei apenas achocolatado. Nem percebi que o sinal havia tocado.

– Mocinha, bateu o sinal. Caso ainda não saiba, preciso trancar a sala.- disse o professor com sua voz rouca e de velho, ele me assustava realmente.

-Ah, sim. Desculpe-me.- fiquei vermelha de vergonha, recolhi meus livros timidamente e saí tentando esconder minha cara.

***

Maurício era um rapaz alto, forte, cabelo preto, liso, curto, olhos verdes. Seu rosto era perfeito: seguia em linha reta até cair no queijo quadrado, era meio bronzeado. Sua postura era imponente, mas era simpático e divertido. Trabalhava em uma lanchonete e era capitão das equipes de judô e karatê da escola. Era filho de Gonçalo Castella, doutor em Matemática, pai e professor autoritário. Baixo, cheinho e muito ranzinza. Pai e filho viviam em conflito quando o assunto era futuro.

***

De duas coisas, lembro bem daquele dia: meu encontro com o lindo do Maurício e a declaração de guerra das patricinhas. Tudo por causa de um tropeço meu e um copo de suco na blusa da líder delas. Nem adiantou pedir desculpas, eu estava encrencada e elas me perseguiriam o resto do ginásio ou por toda a eternidade, o que demorasse mais. O resto do dia correu bem, no horário combinado, papai apareceu, nossa, respirei tão fundo que me senti afundando no navio Titanic quando vi o doblô esverdeado parar a poucos metros de mim.

Passei a tarde concentrada nas tarefas, eu me esforçava. Ao anoitecer, fui para o meu refúgio, peguei uma tela e comecei a desenhar, de início, não sabia bem qual seria o desenho final, mas aí, eis que me surge o rosto daquele garoto do retrato. Meu irmão começou a tocar bateria no seu quarto em um volume ensurdecedor. Prevenido, trancou a porta, ah, se eu o pegasse! Desisti de gritar e bater em sua porta, era o que ele queria. Voltei a desenhar e conferi os dois garotos, incrível como eu tinha aquele rosto gravado em minha memória. Papai pediu para entrar e me entregou um embrulho nas mãos, era o presente de mamãe: uma corrente fofa com um cristal vermelho que parecia ter um líquido dentro. Na caixa, tinha uma espécie de livro antigo, a capa era vermelha e em alto relevo com rosas em toda ela, o colar era a chave e eu, no meu instinto Sherlock, deduzi ser um diário.

Dormi bem, nem tanto, tive outro sonho, sim, mais um daqueles estranhos. Vi uma mulher parecida comigo com roupas vermelhas, parecidas com as de filme de bruxas, só que mais elegantes, tinha também um chapéu pontudo. Ela estava correndo e segurava um medalhão com uma pedra vermelha brilhante e um livro em mãos. Duas pessoas de preto perseguiam-na, eram rápidos, não podiam ser humanos. De repente, vi-a estendida no chão e quando eles saíram, corri até o corpo estendido no chão, virei-a para ver se podia ajudar e, para a minha surpresa, era aquele garoto. Ele suspirou o nome “Aleja” e parou de respirar. Tentei reanimá-lo, uma forte luz invadiu o lugar e eu acordei. Ainda era noite, levantei e fui à cozinha tomar leite. Estava frio e eu havia esquecido as pantufas, pensei que se eu morresse ali, minha mãe perceberia que eu estava sem pantufas e comentaria isso, seria hilário e uma lembrança boa de mim para ela, a pergunta que não queria calar “por que eu estava pensando em morte?”. A janela abriu sozinha e uma rajada de vento entrou no ambiente, muito sinistro, meu coração gelou. Fechei-a e antes de voltar para a cama, fui olhar meu irmãozinho, parecia uma anjinho dormindo. Seu cabelo loiro dourado caía sobre seus olhos azeitonas, cobri-o e saí devagarzinho para não acordá-lo.

Não lembro se sonhei novamente, nem sei se dormi. Não havia lembrança alguma. Minha mãe chegou antes do café, comeríamos em família novamente, papai estava apressado, afinal, estávamos atrasados. Como não tenho amigos, fui direto para a classe sem falar com ninguém. Estava desenhando no caderno e vi Maurício pela janela. Perdi-me naquele momento ao observá-lo, até ser “puxada” à realidade com uma garota que veio falar comigo. Geralmente, as pessoas fogem de mim, mas esta,era diferente.

– Oi, sou Erika. Gabriella, não é? O que acha da escola? Está gostando? Percebi que ficou meio sem jeito com a senhorita Mônica ontem, está tudo bem não está?-Fiquei sem fôlego com tantas perguntas. Respirei fundo e falei:

– Acho…si,,,é…bom…tudo ainda é muito novo pra mim- a campa tocou. Obrigada campa maravilhosa, livraste-me de mais uma e minha gratidão para ti é tanta que nunca mais reclamo de você sua linda. A garota recolheu seus livros e saiu do meu lado,

-A gente se vê. – ela sorriu e não era um sorriso falso. Era verdadeiro, ela qqueria ser minha amiga, eu senti aquilo. Deveria estar muito feliz com isso, uma amiga que não fosse minha mãe, mas fiquei um pouco temerosa. Devia ser pela situação diferente.

– Tudo bem.- acho. Senti um calafrio por mim a dominar-me.Peguei meu material, ouvi novamente aquele som que me fascinara uma vez. Era como se ela me chamasse, mas é óbvio que eu não iria procurar aquele professor. Ah, isso não.

XXX

Erika Camargo, uma garota extrovertida, espontânea e alegre. Cabelos ruivos compridos, franja diagonal, olhos com uma cor entre verde e azul. Carrega consigo muita alegria, seus pais são de uma família circense e transmite mensagens de esperança e alegria sempre que pode. Feminista radical. Digamos que é a “rebelde” da escola. Está por trás de todos os protestos e movimentos revolucionários. Talvez por isso, é a diretora do jornal e do grêmio da escola.

XXX

Erika sentou-se ao meu lado no refeitório, tagarelava muito. O bom é que eu não comeria sozinha e tampouco precisava ficar falando. A garota gostava mesmo de falar e fazia isso por nós duas. Vimos Maurício vir ao nosso encontro na mesa, ele se destacava entre os demais, ao menos pra mim.

-Maurício, senta aqui com a gente- convidou Erika, apontando para uma cadeira vazia ao nosso lado. Ela era muito ativa e se mexia o tempo todo. Era legal isso.

– Oi, Erika! Oi, Gabriella!- ele nos cumprimentou sorrindo e acenando, se aproximando cada vez mais da gente. Vi também Bianca se aproximar dele. De fato, ela era muito linda e chamava atenção, mesmo de uniforme.

-Maurinho, vem comigo. Estamos sentados naquela mesa. Vem, por favor.- ela pegou no braço dele, e pediu com tanta ‘melação’ na voz que dava vontade de vomitar, ele cedeu e sentou-se com ela. Mas , não interagia com o grupo.

Quando as aulas acabaram,saí correndo. Claro, louca para ir para casa e não encontrar mais ninguém, principalmente aquela garota patricinha que não ia perder nenhuma oportunidade. De repente, eu estava sentada naquele banco da praça, esperando minha carona, mas havia segundos que não. Parecia que meu espírito estava fora de mim, ou melhor, que eu não era eu.

-Oi, Gabriella.- e voltei a mim, um garoto sentara ao meu lado e, claro, era o Maurício.

-Maurício?!?- perguntei assustada, afinal, havia voltado à Terra novamente.

-É, acho que sou eu mesmo- ele sorriu divertindo-se com a situação-você deixou isso quando topamos ontem. É sua?- ele perguntou me estendendo uma folha, seu rosto contra o Sol me fez ficar meio desnorteada, como que aquele cara podia ser tão gentil comigo?

-Está tão ruim assim?- perguntei encolhendo-me um pouco até que meu pescoço ficou na altura da gola do meu casaco. Que embaraçoso.

– Não, ela é linda. Tirei as notas no meu violão e se não se importa, completei a canção, sério, gostei muito.- ele sorriu novamente, não sei se ele conseguia ouvir meu coração, só sei que corei um pouco. Não estou acostumada a elogios vindos do garoto mais lindo e perfeito de toda a escola, ops, será que eu estava me apaixonando?

-Tudo bem.- virei o rosto um pouco de lado para evitar encará-lo, sim, sou mestre nesta arte.

-Então, quer dizer que além de uma garota linda,tenho uma compositora na minha frente? Isso é incrível!- ele parecia entusiasmado realmente- Vem cá, você toca também? – acenei com a cabeça- Quais instrumentos?

Pude escutar o carro buzinando. Minha salvação pessoal sempre chegando na hora certa. Oba, oba, oba. Sem mais perguntas, sem mais constrangimentos e probabilidades de muitos king kongs.

– Tenho que ir.- falei colocando minha bolsa tiracolo novamente e me levantando. Ele pareceu meio decepcionado, mas contanto que eu saísse daquela situação, para mim, estava tudo bem. Mal entrei no doblô esverdeado, colocando o cinto, uma “chuva” de perguntas começou a cair e realmente pensei em voltar para o primeiro interrogatório. Só que não.

-Não!- acordei assustada. Eu não estava dormindo, eu já tinha acordado, mas vi aquele garoto da foto me olhando. Pisquei várias vezes, ele sumiu. Mas eu sabia o que tinha visto, concentrei-me um pouco naquilo e ele apareceu, parecia que tinha interferência ele sumia e aparecia.

-É apenas um sonho, acorde- ele sussurrou pra mim. Ah! Fala sério! Um personagem do meu sonho, me dizendo que é um sonho e me pedindo pra acordar? Não mesmo.

-Estou bem acordada! Quem é você?- perguntei me levantando da cama e indo ao seu encontro, por precaução, estava com uma almofada em mãos.

-Se me libertar, eu falo- ele disse desapontado, parecia que aquilo magoava seu ego. Fantasmas tem ego? Bom, aquela altura eu não sabia o que ele era.

– Como assim?- perguntei atordoada tentando entender aquilo.

-Seus poderes anulam os meus- ele falou com um tom que parecia tão óbvio que me assustei.

-Cara, fala sério. É assaltante? Ah, já sei… um programa daqueles de pegadinha? Hahahaha que coisa mais sem graça- Obviamente. A graça estava comigo falando com um fantasma. Hahaha.

– Não, senhorita.- sua voz era tão suave que inibiu o meu medo. Eu me sentia à vontade com ele. Ele caminhou até a minha cama e sentou.

– Não estou te prendendo, não mesmo. Pode ir para onde quiser. –falei.

-Sou um fantasma. Estou nesse estado há mais ou menos uns 200 anos. Os descendentes da minha família decidiram vender a casa, talvez porque eu goste de me divertir um pouco demais com as pessoas, é que nessa existência eu me sinto muito solitário. Estou preso aqui, não lembro muito do que aconteceu antes da minha morte, é estranho… mas a senhorita me é familiar. –olhei em seus olhos, era verdade.

-Qual o seu nome?

-Perdoe a minha falta de modos. Sou Ariel Amedran, o fantasma que “assombra” esta casa.- ele sorriu, eu também.

– Você falou que eu estava te prendendo? Como assim?

– A senhorita é descendente de feiticeiras, assim como eu. Mas eu não consigo lembrar de minha anterior com todos os detalhes. Estamos ligados de alguma maneira…

– Não é possível! Minha mãe é uma “doidinha”, meu pai, um músico, como eu sou feiticeira? Cara, agora você viajou de vez. Eu? Bruxa? Ah, tá… Acreditar em fantasmas é uma coisa, em contos de fadas é outra.

Ouvimos badaladas. Era meia-noite.

– Não tenho muito tempo. Preciso ir- ele sumiu.

– Se você estiver por aqui, promete voltar?- perguntei meio desapontada já que ele parecia não ouvir.

XXX

Do outro lado da rua, Charles e Fernanda fecharam as janelas e revelaram suas verdadeiras identidades. Eram como diamante em suas roupas brancas, estranho que, com tamanha luz eles não chamavam tanta atenção da vizinhança. Eram mais belos ainda naquela forma.

-Parece que Ariel finalmente usou seus poderes a ponto de o detectarmos. Há muito não o sentia.- falou Charles virando-se para sua irmã.

-Também o sinto, devemos protegê-lo e a família Cavalieri. Ele precisa fazer a passagem, precisamos traze o equilíbrio entre as dimensões.- ela disse enquanto os dois flutuavam pelo meio da sala, a garota tinha o olhar longe como se pudesse ver o que aconteceria se o fantasma não realizasse a passagem.

– Não se trata apenas do nosso trabalho. Os Aldeãos e o Caliban também possuem seus interesses nessa história, os primeiros querem justiça, o segundo, vingança e nós… bom, ainda não sei o que Ele quer.- ele olhou para o teto, mas via além disso, podia ver as estrelas além das densas nuvens e bem mais além.

-Temos que guardar os sonhos deles, é o momento em que estão mais desprotegidos. No sonho não sabemos distinguir a realidade do que não existe, isso pode levar à morte. Eles são nossa responsabilidade, viemos aqui para isso. Vamos começar o círculo, a batalha se prolongou através dos anos e o medalhão é o grande prêmio.

XXX

O sinal tocou, ao passar pela mesa do senhor Gonçalo, ele me deteve. Claro, eu estremeci da cabeça aos pés, gelei, acho que meu sangue parou de circular. Sim, ele era apenas um professor de Álgebra, mas parecia que tinha saído do meu maior pesadelo.

-Senhorita Cavalieri, creio que estejas brincando com minhas capacidades cognitivas e arranjou um meio de mostrar-me seu total desapreço por mim e pelo que ensino. – tão amável suas palavras… ele me olhava em tom de desaprovação, por cima do seu óculos e meio inclinado por cima da mesa.

-Desculpe, professor, não sei do que está falando, realmente eu.. não sei…- falei timidamente agarrando-me com a força que tinha na alça da minha bolsa tiracolo e tentando não me encolher tanto a ponto dele perceber.

– Não admito chacotas, mocinha, confesso que seu raciocínio ia bem até que por algum motivo a senhorita decide se enforcar na raiz quadrada e me desenhar ao lado de capuz e foice…- ele mostrou o desenho, não sei bem o que senti, tive vontade matar quem tinha feito aquilo.

– Não fui eu senh…- tentei me defender, mas ele estava uma fera comigo e eu não tinha culpa. A janela da sala se abriu e uma rajada de vento entrou por ela.

– Há apenas uma Gabriella Santina Cavalieri nesta turma, creio que deve ser este o seu nome- ele se levantou da mesa para fechar a janela, fiquei observando aquela situação.

– Sim, mas…- fui interrompida, nossa, pensei que seria expulsa.

-Sem rodeios, perdeste a metade da nota.- ele declarou. Fiquei frustrada, envergonhada. Pela janela da porta, Bianca me deu um tchauzinho. Sínica. Fiquei com muita raiva, se pudesse “voar” nela e dar umas bofetadas eu me sentiria bem. O copo que estava sobre a mesa do professor caiu. Escutei novamente uma música emanado da corrente dele.

1

Introdução

Gabriella é uma garota de 16 anos que acaba de mudar para outra cidade. Como não tem facilidade para se “enturmar”, anda sozinha (assim pensava).O problema é que, anos atrás, ocorreu um assassinato neste mesmo local e o fantasma de Ariel assombra o lugar. O fantasminha tem a mesma idade que ela, mas é o seu oposto: um rapaz extrovertido, engraçado, amigável…o primeiro encontro deles ocorreu quando a garota fazia uma faxina. Gabi encontrou um retrato antigo no sótão de sua casa. Desde então, suas aparições e travessuras tornaram-se cada vez mais frequentes.

Depois de algum tempo, eles acostumam-se com suas diferenças e a moça sai à procura do assassino do seu amigo para libertá-lo da prisão na terra. Ariel não é o único que possui segredo a serem revelados, tampouco, um simples fantasma. Na reta final, ele dificulta a caçada porque sente que pertence àquela menina de alguma maneira que não conhece entender, ela não é tão frágil quanto parece e ele sente a necessidade de protegê-la de tudo. Por sua vez, Gabi também sente a partida do amigo se aproximando, por preferir sua liberdade,mantém-se firme à sua promessa.

A cada passo da verdade eles sentem-se mais próximos de algo ainda maior, já não se trata apenas de libertá-lo, há mais coisas escondidas do que eles pensavam, o Caliban sabe disso e tentará atrapalhá-los e exterminá-los para que nada viesse à tona. A morte de Ariel não foi uma eventual fatalidade, ela não aconteceu por acaso. Algo além da visão humana os unia e os explicava. O que será? Que segredos serão revelados? Que luta é essa? Magia, ação, suspense e uma pitada de romance são os ingredientes que encontrei para embriaga-los com uma estória surpreendente do início ao fim.