Garotas, pássaros e gaiolas

Liberdade (Pássaro escapando de gaiola dourada)

Garotas são como passarinhos. Elas se permitem prender por um tempo para que seu canto possa chegar em algum coração, elas se esquecem de si por alguns momentos  para que alguém em algum momento lembre quem pode vir a ser. Elas dão o melhor de si até que acostumadas com seu canto, as pessoas as esquecem. E elas se encolhem no poleiro, vendo outras aves voarem e vez ou outra pousarem na janela lembrando-lhe que um dia ela também foi livre, que um dia seu coração bateu mais forte quando alguém lhe estendeu a mão e admirado com sua liberdade ofereceu uma mão para que pousasse. Por um tempo, recebeu toda a atenção e dedicação ofertadas a mais ninguém, sua alegria iluminava a casa e a todos ali perto. Mas seu canto, um belo dia, deixou de ser apreciado e não adiantava o quanto ela voasse de um lado para outro ou aprendesse canções diferentes, sua música não era capaz mais de chegar ao mesmo lugar de antes. Aos poucos esqueceu que a música estava dentro de si,  tentou cantar novamente, mas não conseguia, eram as mesmas notas, mas elas soavam tristemente como para fazer companhia aquela solidão que passara a habitar dentro si.

De vez em quando aqueles olhos a procuravam, mas não para apreciar. Se insistia em cantar, aquela voz antes doce, pedia para que calasse a boca. Ela havia trocado liberdade por outro tipo de liberdade, mas encontrou algo que não compreendia, em algum momento seu canto deixara de ser alívio para se tornar tormento. Em algum momento, sua gaiola saíra da janela para ocupar um lugar empoeirado, esquecido. Tudo naquele canto era assustador, mas ela não se importava, ainda podia ver a sombra do que passava lá fora. Ela não sabia até quando suportaria tudo aquilo, mas sabia também que nenhum sofrimento precisa ser infinito e que nenhuma dor por mais profunda que possa ser não cicatrize . De vez em quando alguém a olhava da janela, talvez esperando que ela cantasse ou voasse em sinal de alegria, mas ela simplesmente não conseguia. Ela observou atentamente a mobília ser trocada, as paredes mudarem de cor e ela se perguntava: quando chegaria a sua vez. Até que um dia, em algum descuido de quem a cativara, a mesa na qual ficava caiu e com ela, a gaiola…a porta se abriu e ela voou. No início, precisou se esforçar mais, mas suas asas tinham sido feitas para o ar. A música não veio logo, ainda demorou um tempo, mas finalmente, lembrou de quem era, de sua natureza e de que alguns pousos existem no caminho para ensinar que antes de fincar raízes em qualquer lugar, ela precisaria ter sólida a sua essência, assim, saberia quando finalmente poderia pousar sem medo.

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