CAPÍTULO 6 – DESCONTROLE

Após o almoço, Amanda saiu para investigar as consequências daquela chuva. Saiu com o seu inseparável amigo. Caminhou por todos os lugares onde os estragos foram bem piores. Desceu pela rede de esgotos da cidade, assim que colocou o pé no chão, pisou em algo gelatinoso e preto, muito pegajoso. O cachorro olhou aquilo, cheirou e provou. A garota parou para verificar, aquilo não era conhecido. Continuou a caminhar, encontrou um tecido rasgado da cor preta mais a frente. O silêncio terrível daquele lugar cedeu espaço a pedidos de socorro. Ela corou instintivamente. O medo congelou o seu cérebro.

Era um homem alto, todo de preto, atirado no chão. Sua pulsação lenta, aparência fúnebre. Estava muito machucado e arranhado. Próximo ao canto de sua boca, havia marcas de sangue.

“ O que houve? “, ela perguntou aproximando-se do corpo. “ Bruno? Como você veio parar aqui? “

“ Havia muitos deles… antes de desmaiar, eles se misturaram às sombras e foram embora, outros tentaram me levar. Eles são agressivos, perigosos. O que estou fazendo aqui? “, Bruno falava ofegante e demoradamente. Custava-lhe muito.

De fato, pelo jeito que estava o lugar, havia ocorrido uma briga feia, pedaços de concreto estavam no chão, buracos na parede, manchas de sangue. O pedaço de pano encaixava-se na manga do casaco dele. Amanda tirou sua garrafa da bolsa e deu-lhe água. Com muita dificuldade, ajudou-o a se erguer. Caminharam lentamente. Ele não parava de repetir o que havia falado. Quando chegaram próximo a uma saída do esgoto, a garota deixou-o encostado na parede.

“ A ajuda já vai chegar. Por favor, não conte que eu o ajudei e que estive aqui.”

Ela subiu a escada com o cachorro. Quando chegaram, ela pediu para Spoke ir até o hospital e fazer com que o seguissem até o garoto. A ajuda não demorou, também um cachorro que arranca o soro  de uma maca e sai correndo não é muito comum em hospitais. Chamaram a ambulância , Amanda voltou para casa, mas antes passou em um supermercado. Precisava mudar seu visual. Comprou tinta vermelha, era uma mudança e tanto.

Na porta da pousada, tinha um gato preto sentado só olhando. A garota entrou  e o animal soltou um miado. “ Senhora Camperon, Senhora Camperon? “

Mal recebera os cuidados médicos, Bruno teve seu sossego adiado devido aos policiais que entraram em seu leito para interrogá-lo. O rapaz contou a verdade, mas ninguém acreditou, o médico sugeriu que ele estaria com estresse pós- traumático. O delegado trabalhava com a linha de investigação que indicava vândalos como autores dos últimos acontecimentos. O que era irrelevante, pois a cidade não era como as grandes.

Frustrado, o chefe da polícia, Gutemberg, saiu com muita raiva, recebia pressões dos superiores para resolver o caso. Ele não admitia errar e nem confirmar que não tinha pistas . Na pousada, a doce senhora Camperon concordou em matricular a jovem inquilina na escola. Afinal ela não podia perder aulas. A garota ficou extasiada.

Enquanto caminhávamos, Maurício me deu o presente que tanto ele falava. Era um “flipbook”, lindo! Quando passei as folhas, me vi com uma flor na mão. Nossa era um presente e tanto, agradeci. Continuamos em silêncio, ele, com as mãos no bolso, eu, segurando o livro. Eu o acompanharia até o fim da rua. Eu queria  falar que gostava dele, mas como eu explicaria que não podíamos ficar juntos porque nasci destinada a consertar um grande erro e, provavelmente, não existiria mais aquela Gabriella. Quis gritar, mas não deu. Enfim, chegamos ao final. Nos despedíamos, sem abraços, apertos de mão. Ele estava triste, além de ver, eu podia sentir sua tristeza. Voltei, ele seguiu. Alguns segundos depois, eu virei e o chamei. Ele parou, eu corri e o abracei, agradeci pelo presente e pedi desculpas, ele ficou meio deslocado. Não precisava entender.

“ Você sabe que não deveria ter feito isso.”

“ Sim, eu sei. É por isso que somos da mesma família, Aleja. “

“ Ele vai ter esperanças.”

“ Ao menos alguém aqui pode ser humano” eu queria chorar. Agora que eu tinha amigos, agora que me senti parte de um grupo…

“ Você deve ser responsável e objetiva. Veja a mente dele, por que se bloqueia? Você é mais guardiã…”

“ … que Gabriella… acho que eu posso me governar, não posso? Não é por ser minha tatara que vou obedecê-la, lembra quem causou tudo isso?” Aleja não respondeu. Olhei para o outro lado da rua, aquele garoto estranho de novo. Dessa vez corri atrás dele, mas em um beco ele sumiu.

Sentei na mesa e comecei a fazer minha lição, depois deveria revisar o conteúdo para o teste do dia seguinte. Ariel ficou sentado também. Meu celular tocou.

“ Oi, sou eu, Erika, não se importa porque eu peguei seu número não é? Como foi? Ele falou com você? O que você disse?”

Fechei a porta com um fechar de dedos. Deixei no viva- voz, eu tinha que escrever. Ariel perguntou se podia sair, eu disse que ele podia ficar.

“ Ah, não! Eu sei que os dois estão a fim um do outro, mas nenhum tem coragem de tomar a frente. Não foi só isso o que aconteceu, eu tenho certeza. Meu foco jornalístico não se engana.”

“ Que bom que você é vidente… ”

“Não fuja do assunto. Eu sei que ele jogou verde, me mostrou até um certo presente… ”

Fiquei sem palavras, ela me chamou. Ariel mordia os lábios, provavelmente ele nunca presenciou um momento desses. Ele estava confuso, eu vi sua mente. Coitado.

“ Bom, conversamos normal. Ele me ajudou a lavar a louça. ”

“… e se declarou! Não é tão romântico, mas vale.”, ela ria.

“… perguntou porque sou quem sou e a gente quase, bom quase… “- interrompi minha fala, seriam informações demais. Mas, ela entendeu o que eu iria dizer e gritou eufórica do outro lado da linha.

“ Fala com ele. Vocês ficam lindos juntos!”

“ Erika, eu não posso…”, ela não ia entender. “… pode ser que eu esteja somente atraída, ele é lindo. E parece que ele não quer somente ficar. Olha preciso estudar. O senhor Gonçalo não tem boa impressão de mim, então preciso arrasar nessa prova. Conversamos depois . Tchau”

“ Tchau, chata”

Nem precisava dizer que aquela situação me deixou deslocada. Estudar matemática foi um saco. Após o jantar, lição de magia. Aprendi a reconstruir coisas, Ariel quebrou o meu violão. Aí não teve jeito. Eu tinha que aprender. Escrevi no meu livro.

“ Pai, não precisa vir me buscar. Hoje vou a biblioteca, preciso fazer umas pesquisas.”

“ Tudo bem. Mas esteja em casa cedo. Não quero que tenha uma recaída novamente. Qualquer coisa, me liga.”

O carro parou. Despedi-me do meu pai e do Gabriel. Desci, ainda faltava um tempinho para o início das aulas. Fui para a sala, guardei meu material e saí para o refeitório.

“ Preparada para o resultado do teste? O senhor Gonçalo disse que já corrigiu as provas de antes de ontem… “, disse Fernanda.

“… e como você parecia que não  estava aqui… “, completou Erika. Fernanda deu uma cotovelada nela.

“ Estou com uns probleminhas… “, disfarcei. Pisquei os olhos fortemente.

Erika ficou calada por um instante. Olhava para além de mim, nem precisei virar. Olhei em seus olhos e vi nitidamente Maurício e Bianca de braços dados. Os dois se aproximaram da nossa mesa. A loira, estava com um ar triunfante, colocou uma bandeja com seu café na mesa.

“ Oi, Gabriella”, ela disse. “ Senta, Maurinho, afinal, são seus amigos “. Ele sorriu incomodado.

“ Olá. ”

“ Já vai? Ah, fica mais um pouco…”, sua voz era melosa.

“ Ô, macarrão escorrido! Ela vai para onde quiser. “

“ Calma, Erika” Eu tinha que sair, precisava impedir que o capitão do time de futebol entrasse no refeitório. Levantei novamente, Bianca me puxou pelo braço. O refeitório ficou em silêncio. Mirei bem nos olhos dela, mentalizei que ela ia me soltar e ela o fez.

Já não dava mais tempo. Caminhei em direção ao Fernando que estava prestes a sentar em uma mesa com sua turma, digamos, “ os excluídos”. Peguei o seu braço.

“ Vem comigo.” Tarde demais.

“ Fernandinho, cadê você? Ah, aí está “, disse o capitão do time de futebol abrindo as portas do local. Três amigos dele logo atrás, um com um presente nas mãos, o outro com um tacho cheio de molho. “ Eu quero pedir desculpas”.

Fernando parou. Chamei-o novamente. Ele pensava que tudo ia acabar ali. Todas as armações. Todos pensavam assim e paravam o que estavam fazendo, menos eu.

“ Eu trouxe isso pra você”, ele entregou a caixa.

“ Obrigado “, ele sorriu, mas depois mudou de expressão.

“ E aí gostou?, ele puxou o protetor “ Quero pedir desculpas por ter feito isso com o antigo. Ele puxou do tacho outro.

“ Deixa ele!”, empurrei-o. Inútil. Ele não se moveu.

“ Sai do meio, gatinha. Suas garras não me arranham”  ele me empurrou, Maurício puxou-o e deu-lhe um soco, no momento que os comparsas de David seguraram o meu defensor para o líder bater, o diretor chegou.

A diretoria era tenebrosa, móveis antigos, feixes de luz com poeira passavam pelas janelas, cortinas amarelo-escuro. Um local totalmente contrastante  com o restante da estrutura da escola. O senhor “ vicking “, ou melhor, Gonçales um homem careca, gordo que mais parecia o Hagar, só que sem a barba. Nos levou para lá, quero dizer, David, Igor, Marcelo, Felipe, Fernando, Maurício, Erika ( por ser a jornalista ) e eu.

Ficamos em pé, um do lado do outro. O diretor sentou-se na mesa, uniu os dedos das mãos e nos olhou inquisidoramente.

“ Bom, o que aconteceu?”

Todos começaram a falar, menos eu. Se eu tivesse ficado na minha…. claro que não, eu fiz bem, “bem para quem” era a pergunta, estávamos na diretoria.

“ Já mandei chamar os pais de vocês. É bem mais fácil se uma só pessoa me contasse o que realmente aconteceu. “

Erika adiantou-se. Ela não tinha nada a ver com o assunto. Olhamos para ela.

“ Diretor, uma só palavra: bullying. É… o senhor pensa que essas coisas só acontecem com os outros. Não… esse brutamontes ficam aterrorizando a vida do Fernando e nada acontece com eles. Cuidado se o conselho tutelar descobre o seu cargo já era.”

“ Que tal começar do interno, senhorita Camargo? ”

“ Ei… senhor diretor posso falar?”- pedi permissão.

“ Ah, senhorita Cavalieri já ouvi falar sobre sua condição aqui na escola. O que quer dizer?”

“ O David estava humilhando o Fernando em frente toda a escola e a gente só tentou acabar com aquilo. Eu … acho que foi…isso,” estremeci.

“ Por acaso não ocorreu-lhe que isso é um assunto da direção?” ele foi severo, “ Senhor Stevan, o que aconteceu?. “

O nerd olhou para todos em volta. Quase não acreditei no que ele ia falar. Mentalizei o que acontecera. O Fernando não poderia dizer que nada aconteceu, o medo não podia dominá-lo.

“ O que já disseram. Eles pegaram meu protetor e colocaram dentro do molho que ia ser servido no almoço e me deram um novo, senhor” ele tampou a boca assustado. Sorri, satisfeita. Só o Maurício viu, quando o percebi parei.

“ Muito bem. Voltem para a sala. Vocês do time, não.”

Quando saímos nossos pais estavam na recepção. Não pudemos falar com eles. Quando entrei na turma, eu a vi. Sentada atrás da minha carteira, uma garota ruiva , corte channel, “ PROBLEMA “, pensei. Sei lá, eu deveria ter cuidado perto dela. Não sei porquê. Só senti isso. Já estávamos no início da segunda aula. Bomba: as notas de matemática. “ 6,9 “, não era justo. Olhei para o professor . “ Estude mais” , ele disse. Conferi meus cálculos a nota era sete.

Quando acabou a aula, fui até a mesa do professor. Ele falou que eu não sabia diferenciar um nove de um quatro e que aquilo contava sim porque outra pessoa não ia me procurar pra saber se o número que escrevi era um quatro ou um nove. Fiquei chateada, peguei minha mochila e saí. Escutei aquela música do colar del. Meus livros caíram, apanhei-os corri para a outra sala, estava atrasada.

No recreio, encontrei o capitão do time de futebol. Ótimo, mais uma pessoa que me odeia. Ele me colocou na parede, literalmente.

“ Olha  aqui, gatinha. Garotas como você não devem se meter em certos assuntos. Se não tivesse se metido, eu poderia até fazer o favor de ficar com você.”- ela cheirou o meu cabelo. Aquilo me irritou profundamente.

“ Dispenso”  baixei os braços que me prendiam na parede, ele me puxou  para perto de si.

“ Solta ela!” falou Maurício com uma bandeja em mãos.

Os dois se encararam, bem próximos, cara a cara. David saiu Maurício colocou sua bandeja com o lanche sobre uma mesa e saiu me puxando pelo braço até sairmos do refeitório por uma porta lateral. Fazia sol lá fora, próximo aos jardins da escola, não era primavera, mas o verde dominava.

“ Você quer parar de se meter em encrenca? “

“ Me solta! E você para de ser o Super- Homem! Que coisa, hein.”

“ Se você parar de dar uma de Mulher Maravilha… O que está acontecendo? Ei, não foge não!”, ele me segurou perto dele.

“ Para de fugir, você parece um animalzinho amedrontado. Você finge que não está nem aí, mas na primeira oportunidade sai defendendo as causas dos outros. Você faria isso por mim?”

“ Você acha que eu quero dar uma de heroína… “

“ E só não salva você mesma. Cansei de brincar”  sua voz era séria, firme. Mas os seus olhos tão serenos, tão profundos. Senti que ele queria me beijar e…eu queria que aquilo acontecesse.

“ Ótimo! GAVE OVER”,soltei-me dele. Ele correu de novo, sua respiração era ofegante. Dessa vez eu não conseguiria me soltar sem usar meus poderes. Tentei o “ Você está me machucando “, não deu certo.

“ O jogo só acaba quando eu disser que acabou. Cansei desse esconde-esconde, por favor, seja sincera em seus sentimentos. Chega de ser o cavalheiro, o paciente…”

“ Que bom. Não estou a fim de ser princesa de ninguém.”

“ Vamos ver”, ele me trouxe para perto de seus lábios e me beijou. Eu não poderia resistir. Ficamos tão perto um do outro, tão unidos que eu não pretendia me soltar jamais. Seu beijo era suave como o sentimento que nos unia. Aleja apareceu na minha mente, me repreendeu. Usei moderadamente os meus poderes, ele não perceberia.

“ Você não podia…”

“ Mas, eu queria…”, ele tentou fazer com que eu ficasse. Então percebi que o mundo era muito injusto comigo.

“ Querer não é poder “, sai correndo para o banheiro. Olhei-me no espelho, levei minha mão a boca devagar, tentando acompanhar cada linha. O meu primeiro beijo não foi igual àquele. Era diferente. Sai correndo pelo corredor, tropecei na Fernanda.

“ Ei, calma. Para onde está indo?”

“ Vou para a sala” respondi assustada.

“ A próxima aula é para lá. Vem comigo acho que você não está bem”.

Entramos na sala, ela pegou os seus livros e colocou na carteira ao meu lado. Ficamos lado a lado, já que as carteiras eram em duplas.

O professor de literatura começou a ler o livro.

“Precisa de alguém para conversar? “ela cochichou. Sua voz era tranquilizante, parecia que ela sabia o que eu necessitava.

“ O que você faria se tivesse que escolher entre o que você quer e o que é necessário? “

“ Eu faria o necessário…”

“ Mesmo que isso te doa? “

“ Sempre há um meio termo. O Maurício te beijou não foi?”

“ Como sabe?”

“ Sua respiração está desregular, sua pressão diminuiu e agiu como uma fugitiva… Eu também estava no lugar errado e na hora errada…”

“ E isso mexeu comigo. ”

“ Só não esqueça quem é você, “ela sorriu. Página 48, parágrafo 8, linha 13″, ela disse.

“ Senhorita Cavalieri, continue a leitura, “ o professor me encarou.

… Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há de ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar – isto é, a coisa mais natural do mundo – a mais bela – não direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos extravagantes. Confesse que ama, que não é indiferente a esse sentimento inexprimível que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas criaturas humanas. ”

XXX

“ Mestre o que faremos?”

“ Esperar a noite cair. Já sabemos quem ela é….Gabriella, já estou chegando. “

“ O que o senhor pretende fazer?”

“ Dar a ela as boas vindas… no melhor pesadelo.

O mestre de capuz preto, abriu as mãos levemente e, entre elas , apareceu Gabriella exatamente onde ela estava : na escola. Sentada na carteira, batendo com um lápis na mesa.

“ Ela se parece muito com Aleja. Tão tola…” ele soltou uma gargalhada aterrorizante e sumiu na forma de uma sombra.

Finalmente o Caliban descobriu o que queria. A transformação de Gabriella esclareceu muitas coisas, mas dificultaria caçada. Duas metades, duas chaves. Quem ficaria com o controle da dimensão mágica? A verdade é que todos sabiam que um grande combate estava prestes a ocorrer. Todos os seres mágicos o sentiam e também estavam cientes que Aleja havia voltado ou Gabriella havia despertado. Eles podiam até não saber quem era, mas se a vissem certamente a cumprimentariam e a reverenciariam. Todos concordavam que os guardiões eram mais poderosos que o próprio rei, pois eram eles que batalhavam em defesa da dimensão. A realeza era mera convenção.

Ariel ficou em casa, entediado, cansou de ir à escola com Gabriella. Para se divertir, fez o almoço de Angélica dar errado, mas ela o fez consertar ameaçando-o com o feitiço da banição que ela sequer sabia fazer. Entrou no quarto de Gabriel recordou-se de sua infância. Queria ser humano como o garotinho, mas era impossível. Bom, poderia tentar. Ele preferiu ficar em casa porque da última vez que foi a biblioteca, ele desapareceu. Ariel não entendia como ele desaparecia  do nada.

Andou de um lado para o outro. Conversou com Angélica, ela contou o que a filha tinha aprontado na escola. Ele mostrou sua foto para ela, a mulher pediu algumas explicações, ele contou o que lembrava da sua vida. Mas, sobre sua morte , nada.

Amanda começou suas investigações  na escola e quem seria sua melhor fonte? Sim, Erika. Na saída, as duas conversavam. A jornalista tentou apresentá-la a Gabriella, mas esta disse que estava atrasada, Maurício tentou o mesmo, sem sucesso.

Ao chegar à biblioteca, a garota procurou a velha senhora que a atendera da última vez. Em seu lugar, havia uma mulher de no máximo 30 anos, loira com o cabelo no coque, alta, terninho preto, saia até o joelho e um escurpan. De fato, parecia modelo, não bibliotecária. Gabriella disse que havia uma senhora, a mulher retrucou, ela era a única naquele estabelecimento. !Tudo bem”, disse Gabriella.

Antes de continuar sua busca, ela resolveu percorrer todo o perímetro do local.Subiu as escadas em forma de espiral, madeira antiga, tom avermelhado. Na subida, mais e mais livros em estantes. Chegou ao primeiro andar. Enormes estantes empoeiradas, algumas mesas dispostas à frente delas, todas as estantes paralelas, do primeiro andar, podia se ver o térreo já que o piso possuía o centro recortado de forma que, lá embaixo, a biblioteca podia ver as mesas lá de cima.

O cheiro de papel e madeira velhos incomodava um pouco, nada que cinco minutos de exposição não resolvesse. Gabriella continuou a caminhar, lembranças vieram à sua mente: Homens e mulheres vestidos para baile, roupas elegantíssimas, dançavam no centro do térreo, lá de cima, ela podia vê-los bailar suntuosamente. Onde ela estava, viu pessoas conversando, um grupo de jovens exibiam varinhas, entre eles, Ariel. Eles sorriram e acenaram para ela chamando-a, a garota sorriu e quando olhou para si mesma,viu-se trajando um vestido azul-turquesa de mangas fofas e saia “ abaloada”, ela utilizava uma peruca branca assim, como todos os outros, seu penteado era um coque alto, com algumas mechas caindo. Ela correu até eles e quando chegou estava no mesmo lugar que havia entrado. Caminhou em direção a um corredor onde a placa indicava  “ História da cidade”, aleatoriamente, pegou um livro de capa preta, abriu as páginas amarelas . Uma página chamou sua atenção. A gravura ali representada era um salão de festas que se localizava onde naquele momento, existia uma biblioteca centenária. A garota leu e descobriu que aquele salão era frequentado em dias de grande festa, principalmente, chegada de famílias poderosas àquele lugar, onde eram apresentadas à sociedade. Após um incêndio, as ruínas foram reconstruídas  e o imóvel tornou-se um arquivo de livros.

“ Bons tempos.”

“ Você de novo? “

“ Esqueceu que estou dentro de você?”

“ É impossível, mas eu queria.”

“ Este dia, foi o dia em que conheci Ariel. Minha família estava sendo apresentada à sociedade. Chegamos da fronteira externa, uma guerra era eminente, mas as convenções exigiam. Um grande baile, sem dúvida. Estavam felizes…os guardiões sempre obtiveram êxito, as duas famílias eram unidas. Tanto que a cada geração, um representante era escolhido de cada para serem os guardiões. Estavam me preparando. Não era regra, mas os dois sempre acabavam se casando. Talvez porque não tinham chance de conhecer outras pessoas…”

“ Se você se lembra de tudo isso, por que eu tenho que pesquisar? “

“ Eu passei 200 anos em uma dimensão paralela, nem viva nem morta. Só me lembro de reviver algumas coisa, sem ver, sem sentir… Estou como Ariel. “

“ Ótimo. Mais essa.”

“ Por que me odeia? Era só não ter dito que sim. “

“ Você não deu escolha, lembra? Aliás, faço isso por Ariel, não por você. Você é má. “

“ Desculpe.”

Aleja deixou-a só. O celular tocou, a bibliotecária apareceu lá embaixo, fez gesto de silêncio. A garota desligou-o. Começou a ler.

XXX

“ Não vá, por favor,”  ele me pediu quase implorando.

“ Eu só vou caminhar com a minha mãe. Hoje é sexta-feira, que mal há?” perguntei ao pegar o trinco da porta.

“ É perigoso. Não, hoje. Deixe para ir outro dia. Sinto que  a senhorita corre perigo, “ sua voz era angustiada.

“ Acredite nele” disse Aleja.

“ Tudo bem”  saí para dizer à minha mãe que não podíamos ir. Como sempre, ela foi compreensiva. Voltei ao meu quarto.

“ Hoje nós vamos descobrir para onde você vai à meia-noite. Eu não vou dormir. Que tal armamos um plano de busca? Quem é? Ouvi batidas.

“ Sou eu, Gabriel. “

“ Entra.”

“ Gabi, a mamãe pediu pra você ir ajudar com o jantar . O papai ainda não chegou, então… “

“ Tudo bem. Já vou. O que houve?” percebi que ele estava com medo, tímido. “ Sabe que pode me contar o que quiser.”

“ Você acredita em fantasmas?” ele se aproximou dos meus braços que estavam abertos para abraça-lo. Fiquei com um joelho no chão para me apoiar. Pensei um pouco.

“ Por que a pergunta?”, sorri desconfiada ao ver uma mecha branca.

“ Eu vejo dois. Um do lado da porta olhando para a gente e o outro dentro de você. Eu estou com medo. “Toquei a sua testa, ele adormeceu. Levitei-o até seu quarto.

Depois, fui ajudar a minha mãe. Contei sobre o Gabriel, meu pai chegou,mudamos de assunto. Abracei-o e beijei-lhe o rosto. Charles chamou Eduardo lá fora. Ele foi atendê-lo colocamos a mesa. Meu pai explicou o motivo de sua demora, a escola de música estava com problemas, muitos funcionários estavam sendo “ cortados”. Fiquei preocupada, queria ajudá-lo, como?

Após o jantar, lavei os pratos muito rápido. Ariel me ensinou que quando se trata de coisas diárias, era só eu pensar que elas simplesmente aconteciam. Incrível! Contei-lhe eu conseguia induzir as pessoas as pessoas a fazer o que eu queria. Meus pais estavam conversando no escritório, creio que os cochichos, mas eu sabia que era problemas financeiras. Eu os vi oferecendo a casa como garantia em um sonho…visão.

Ao menos posso dizer que tenho problemas normais, nada que a magia resolvesse. Contas são chatas, mas naquele momento para mim eram alegrias, algo unicamente humano. Gabriel dormia profundamente, depois eu resolveria  o nosso assunto. Entrei no quarto, tranquei a porta.

“ O que a senhorita realmente quer?”

Aconteceu algo estranho comigo. De repente, Aleja saiu de dentro de mim. Éramos idênticas, só que ela era um…espírito, fantasma, projeção astral? Perguntei como, ela respondeu que podia fazer isso quando quisesse, ela podia ir e vir, mas como era muito perigoso, o mais sensato era que ficássemos unidas, porque eu era a parte dela viva. O encontro dos dois foi estranho. Eles se olharam e mais nada. Sabiam que trabalharam juntos no passado, mas Ariel não tinha tanta lembrança de Aleja como ela tinha dele. Se Ariel soubesse que se sacrificou por amor aquela garota…

“ Há algum feitiço de volta ao passado? Assim poderíamos voltar à noite de sua morte” e descobrir onde estão as partes.

“ Isso é impossível agora. Você é nova nesse assunto de magia. “

“ Vocês vivem dizendo que eu sou muito poderosa, que isso é inédito até mesmo para vocês e, agora que eu quero usar todo esse poder não posso? “

“ Só se a senhorita quiser destruir tudo. Lembra da sua primeira lição? Eu quase morri de novo.”

Eu sorri. Repentinamente lembrei da esfera. Peguei-a na bolsa.

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