CAPÍTULO VI DESCONTROLE

Aquilo já estava entediante, confesso. Porque não transferiram para o computador aqueles antigos arquivos? Papéis amarelos quase transparentes de 200 anos! Sentei na mesa de cedro vermelha, abri o primeiro arquivo, Ariel ficou ao meu lado. Seu queixo estava um pouco acima do meu ombro.

– Então, o que achas?

– Que tudo isso é muito chato. – continuei a folhear, o início da cidade no primeiro volume de outros cinco. Que interessante a primeira casa da cidade ficava no centro do que hoje é o parque. Creio que não sei mais nada.

– Acho que isso deve ter sido criado há uns 500 anos atrás. Quando eu era criança comprava doces nessa casa . Eu me lembro! Pertencia a uma fada decaída, acredite se quiser ela tinha 830 anos. Quando ela recebeu o direito de voltar a sua terra, o prefeito que era conde de  Voltarianôn, um vampiro, derrubou a casa e fez com que fadas e duendes construíssem um parque para homenagear a fada que gostava de muitas plantas. Bruxas e feiticeiros se uniram para continuar o plano do conde. Organizaram as ruas de tal forma  que, do exterior para o interior qualquer uma das ruas leva a praça que é o centro da cidade. Os humanos adoraram a idéia do conde e construíram suas casas. Vivíamos harmoniosamente só tínhamos que respeitar uma regra: humanos e criaturas mágicas não poderiam constituir família juntos. Eu tinha uns 10 anos e minha família era a mais poderosa da região. Eles guardavam a cidade por dentro.

Quando os humanos viram que não eram como a gente passaram a nos perseguir e com a ajuda do Caliban, eles se tornaram fortes. Pelo lado de fora, sua família era responsável pela segurança…

Aí, parei de prestar atenção na história e passei a observá-lo. Seus olhos estavam fechados, mas a sua fisionomia estava tensa, as sobrancelhas unidas. A dor estava em seu rosto, aquelas lembranças doíam para ele. Houve um silêncio, desviei minha atenção por um momento e Ariel havia sumido.

“ Ótimo, um fantasma que não consegue lidar com o próprio passado “.

Meu celular passou a vibrar, era o Maurício. Ele perguntou se eu estava bem após o episódio da cantina, respondi que sim, o garoto pediu para que eu o encontrasse na praça as 20:00hrs.

Terminei minhas pesquisas daquele dia. Fechei os livros leve-os até a bibliotecária que me elogiou por ser jovem e me interessar pela história da cidade. Ao olhar em seus olhos, vi uma duende. Tirei o olhar e pisquei forte, quando ela pegou no livro, seus dedos gelados deslizaram um pouco até tocar a minha mão. Ela virou a palma delas e colocou a sua sobre a minha. Uma pequena esfera do tamanho de uma pérola, saiu da sua mão e caiu na minha. A idosa olhou por cima dos seus óculos preto de armação grossa e disse:

“ Não sabe o quanto estou feliz por vê-la novamente, Aleja “.

Confusa, corrigi-a dizendo que meu nome não era Aleja,mas por um momento eu não sabia quem eu era, esqueci até do meu nome. Sorri contrariada, e falei que me chamava Gabriella, quer dizer os outros me chamavam assim.

“ Eu sei, Aleja “.

Tentei consertá-la novamente, aí pensei que não adiantava, desejei uma boa tarde a senhora e guardei o item na bolsa. Ao sair da biblioteca, o Sol me fez piscar um pouco. Era por volta das quatro. Decidi voltar a pé para casa, quinze quarteirões não era tão longe. Apertei meu caderno e meu livro de magia contra o peito e saí caminhando e pensando em matar o Ariel, mas desistir. Como matar um fantasma?

A cidade estava movimentada. Apesar de interiorana, Opala era um lugar legal construções estilo século XX aderida ao moderno do XXI tornava-a atraente, aí me “ toquei “ que a esfera era de opala, coincidência ou pista? Eu tinha raízes naquela cidade, no entanto, nunca haia estado lá. Enquanto caminhava me aproximava de um grupo de jovens. Eles me chamavam, resolvi pegar uma outra rua. Um deles se adiantou. Ele era alto, usava um gorro preto de algodão na cabeça que tinha umas bolas brancas, devido ao uso intenso, jaqueta preta com uma blusa verde por baixo. A barba estava por fazer, devo confessar que, se ele não fosse suspeito, eu poderia até dar-lhe uma chance, se eu não fosse tão tímida.

Certo. Você deve se pensando. Porque ela não entrou em algum lugar? Bom, numa situação de luta ou fuga não dá para pensar muito. O medo congelou o meu cérebro, todo o meu corpo estava em alerta, mas não havia sistema de segurança. A rua na qual entrei, era deserta. Isto sim, eu chamo de falta de sorte. O grupo estava me alcançando, virei na mesma direção dele. O rapaz que se adiantara, aproximou-se um pouco.

“ Passa o que tiver de valor “, ele apertou o meu braço. Um vento muito forte penetrou naquela rua. Os meus cabelos voavam para trás.

“ Não me toque e se afaste de mim “, falei encarando-o. Senti que ele estremeceu e que aquele poder vinha de mim.

“ Cara o olho dela tá branco! “, o rapaz me soltou horrorizado.

Aquela altura, meus pés afastaram do chão e passei a flutuar a uns centímetros da terra firme. Era uma força poderosa, me curvei para frente um pouco e quando voltei a posição inicial, ela saiu de dentro de mim. Os cinco garotos foram arremessados contra a parede, o lixeiro virou, as lâmpadas queimaram uma a uma como se fosse uma onda. O impacto foi tão grande que eles ficaram desacordados.

Também caí, de joelhos, meus braços apoiaram o resto do meu corpo, olhei para o chão. Aquilo não poderia estar acontecendo. Peguei minha bolsa, meu caderno, meu livro. Levantei e olhei para todos os lados, para certificar que ninguém vira o ocorrido. Mas, vi o mesmo garoto da escola, na esquina, me olhando, todo de preto. Gritei para ele me esperar, quando pisquei, ele havia sumido. Tudo bem, aquele garoto mexia comigo.

Cheguei em casa, minha família estava na sala. Entrei indiferente, não respondi aos seus cumprimentos. Subi as escadas cabisbaixa. Tranquei a porta do quarto. Minha mãe subiu logo em seguida, bateu. Quando abri fui logo abraçando-a em lágrimas, contei que estava com medo. Narrei o acontecido e relatei o episódio com a bibliotecária. Ela perguntou por Ariel, respondi que ele havia sumido.

Abri a bolsa e joguei os livros sobre a cama, tirei a pequena esfera e coloquei dentro de um porta-jóia  de porcelana com flores em alto relevo, resolvi banhar para refrescar a cabeça. Liguei o chuveiro e deixei a água cair.

Quando saí de roupão e toalha na cabeça, encontrei aquele fantasma covarde, ele acabara de atravessar a parede.

“  Preparada para a lição de hoje? “

Tirei a toalha da cabeça e joguei nele, nem preciso dizer que aquilo foi inútil. Encarei-o, coloquei a mão na cintura e soprei uma madeixa que caiu sobre o meu rosto.

“ Onde você estava? “ perguntei inquisicloramente, a resposta dele foi incriminadora. “ Com a senhorita, lembra? “.

“ Sai daqui, Ariel! “

Ele saiu, atravessou a parede, depois com parte do corpo ainda dentro do meu quarto, respondeu que morava naquela casa. Tudo bem, peguei uma roupa e fui ao banheiro. Quando saí, peguei meu óculos que estava sobre a cama, não o olhei. Fechei a porta quando virei tropecei no Gabriel. Pedi desculpas, quando saí, disse que meu quarto estava trancado Ariel perguntou para onde eu ia, não respondi claro. Desci as escadas até a cozinha e falei aos meus pais que eu ia sair, na sala Ariel trancou a porta, virei para ele, fiz careta, apontei o dedo indicador para a fechadura, a porta abriu, ele tentou me seguir, não conseguiu, sua foto estava dentro do meu livro de feitiços, estava preso.

As lâmpadas da rua queimaram, o tempo “ fechou “, um vento muito forte atingiu a cidade, eu estava com raiva.

Fernanda entrou em casa rapidamente, gritou pelo irmão que estava no 2º piso. Ele desceu rapidamente.

“ Precisamos encontrá-la! O Caliban vai aparecer! “, disse Charles pulando pelo corrimão.

Os dois saíram da casa e gritavam por Gabriella, mas ela não lhe deu ouvidos. Parecia não escutar, a vizinhança toda recolhia as crianças para dentro de casa, fechavam as portas e janelas. Trovões e relâmpagos tomaram de conta do céu. A chuva muito forte começou a cair aos poucos.

Eduardo, preocupado com a filha em meio aquele temporal inesperado, pegou as chaves do carro e saiu. Ariel também estava zangado as coisas dentro de casa começaram a voar. Angélica pegou o filho, Gabriel, em seus braços. O garoto chorava e estava com medo. Sua mãe não podia usar seus poderes, não na frente do menino, por isso, ela teve que fazer com que ele “ apagasse “.

Ela abriu a gaveta do armário e tirou seu livro, pedia para que Ariel parasse com aquilo, utilizou o feitiço da transferência, mas alguém teria que receber o fantasma. Utilizou o que parava o tempo. Refez as coisas que haviam quebrado e usou sua intuição para encontrar Ariel, aprisionou-o em uma garrafa transparente.

Enquanto isso, Eduardo procurava pela filha, ao longe, avistou-a caída no chão sua pulsação estava lenta. Levou-a até o carro, a chuva caía com mais força. Nuvens negras tomaram de conta do céu. Vultos escuros passavam pela estrada. Aquilo não era mais culpa de Gabriella. O Caliban se aproveitara disso para procurar pela guardiã, nuvens escuras se dividiam pela cidade causando um grande apagão quando entravam nas casas. Era o momento propício para encontrá-la, mas nada. Charles e Fernanda conseguiam despistá-los da avenida em que Eduardo vinha com sua filha. Bom, não havia problema algum, a guardiã não estava mais lá, Aleja não conseguia se encontrar com Gabriella mas, naquele dia , tudo mudou. Aleja só poderia ser capturada se a garota morresse. Agora, elas eram uma só, mais guardiã que uma estudante.

“ Está vendo só, Spoke? Eles realmente existem, veja que tempo, que atmosfera pesada. Eu não estou louca, como pensam “, disse Amanda segurando seu cachorrinho e olhando através da pousada na qual se hospedara. A garota correu e pegou seu bloco de anotações para escrever tudo o que descobrira.

Alguém bateu na porta, era a senhora que era dona da pousada. Aparentava ter uns 60 anos, 160 centímetros, cabelo com a raiz ficando branco, seu vestido era azul com florzinhas brancas. A garota abriu a porta e a anciã entrou, ela sentou-se na única poltrona que tinha no quarto.

“ A jovem por acaso não está fugindo de casa? “

“ Não. Meus pais permitiram “.

“ Então, a jovem que acabou de passar na televisão é sua irmã gêmea “.

“ A senhora ligou para os meus pais? “, ela virou o rosto de lado, meio receiosa.

“ Ainda não. Porque fugiu? “

“ A senhora não vai entender e ainda vai me chamar de louca. “

“ Acho que posso tentar compreender. “

Amanda explicou os seus motivos, falou que estava atrás daquilo em que acreditava. A velha sorriu e prometeu guardar segredo. Disse que a garota poderia ficar. Quando saiu do quarto, ela passou em frente a um espelho, mas não tinha imagem dela e sim de um gato preto de olhos verde-esmeralda.

Os metereologistas tentavam explicar aquela chuva inesperada nos jornais, mas assim como surgiu, ela desapareceu e várias pessoas também. A família de Maurício assistia ao telejornal reunida na sala. Pai, mãe e filho sentados no sofá sem entender bem o que acontecia. Alessandra levantou; foi para o seu quarto, abriu a janela, viu que uma nuvem negra estava prestes a entrar em sua casa.

“ Você sabe que não pode entrar aqui, mas se quiser arranjar problemas… “, ela falou para a nuvem que deu meia-volta e foi embora. Uma luz meio avermelhada passou a brilhar em seu colo, Alessandra retirou-a do seu corpo e deixou-a suspensa em suas mãos.

Maurício chamou-a batendo na porta. Ela teve que parar, a nuvem fugiu. Fechou a janela.

“ Me ajuda a colocar a mesa, querido? “

“ Tudo bem. “

Alessandra ainda abriu a porta  do quarto novamente e olhou uma outra vez, fechou-a. Desceu as escadas e foi servir o jantar.

“ Sim, não, tudo bem. Diga a ela que eu desejo melhoras. Boa noite, senhora Cavalieri. “

“ Algum problema? “, indagou a mãe lavando as mãos. “

“ A Gabriella saiu durante a chuva, o seu pai a encontrou caída no chão. O bom é que não foi nada grave, eu queria ir vê-la, mas ainda está desacordada. “

“ Cada vez mais tenho vontade de conhcê-la. Do jeito que você fala parece que essa Gabriella nem existe. “ a mãe sorriu ao ver o semblante apaixonado do filho.

“ De quem falavam?” perguntou Gonçalo. “ Não quero que você se envolva com nenhuma garota desta cidade, todas aqui só querem encontrar um marido que lhe dê um lar. Visão provinciana.”

“ Parece que as coisas não são bem como o senhor pensa… “

“ Alessandra, cuidado com o que anda colocando na cabeça do nosso filho, “ ele falou ao colocar arroz no prato. “

“ Querido, nosso filho já tem idade de saber o que quer. “

“ O que eu disse, está dito. Vamos comer e mudar de assunto. “

Eu estava lá ou alguém muito parecido comigo. Ela me chamava, aproximei-me.

“ Enfim, conseguimos nos encontrar Gabriella “, ela era linda e parecia comigo. A diferença era que seu cabelo era ruivo, ela usava as mesmas roupas com as quais eu sonhava. “ Sou Aleja, sua tataravó. “

“ Você não tem idade  de ser. Quem afinal, você é?, perguntei.

“ Eu sou você. Agora, somos uma só que você é mais guardiã que uma simples adolescente. Sua vida não será mais a mesma. Eu fui castigada, e causei tudo isso. Quis provar que os dois mundos poderiam se unir sim, paguei um alto preço ao me apaixonar por um humano, mas eu não me controlava mais. O Caliban passou a me dominar e o Ariel teve que lutar contra todo o nosso mundo para me defender. Só agora eu entendia que fui destinada, mas é tarde. Foi necessário 200 anos para eu entender que não posso lutar o que sou. Nesse, tempo fiquei nesta dimensão, como vê, aqui não existe nada. Melhorei e aperfeiçoei os meus poderes que, agora são seus. Consegui mudar o rumo natural das coisas, nisto o Caliban despertou. Como espírito, eles poderiam me aprisionar, então eu tive que vir até você. Entenda, agora é imortal, assim como as outras criaturas eram. Antes do medalhão ser quebrado, não precisávamos ficar de tempos em tempos reaaparecendo. A partir de hoje, você é a primeira de uma nova geração…

“ Eu não quero isso, quero envelhecer, ser uma garota comum. “

“… lembra da promessa? Ariel precisa de você, eu preciso. Permita-me reconstruir o que eu destruí, preciso de uma segunda chance. O medalhão precisa ser reunido, os aldeões voltarão para me julgar novamente, a dimensão mágica não pode cair nas mãos do Caliban. Eu estou com você, não se esqueça. “

“ Ainda não consigo me controlar, tenho muito o que aprender. Queria poder escolher, mas não posso. Por que eu? Você não tem esse direito. Os seus erros não me dizem respeito. “

“ Você está enganada. Nasceu para isso. Ganhei uma chance, entenda, é seu destino. “

Não sei nem porque eu aceitei o que ela me pedia. Eu apenas senti que era o certo a fazer. Antes, eu era uma simples garota comum, agora, um mundo todo depende de mim. Eu conseguiria realmente aquilo a que fui destinada?

A  figura de Aleja tornou-se cada vez mais distante, sua voz foi diminuindo de tom, longe. Percebi que estava recobrando meus sentidos, o médico passava algodão com álcool no meu nariz.

“ Que bom você de volta, Gabriella. Aqui estava tendo o maior festão “, disse o médico colocando uma lanterna nos meus olhos.

“ Parece que está tudo bem. PARECE, por via de dúvidas quero que realize estes exames o mais rápido possível.

O médico saiu, meu pai acompanhou. No quarto ficaram a minha mãe e o Gabriel, com um belo galo na cabeça.

“ Querida por que saiu daquele  jeito? Que susto, você nos deu. “

“ Mãe, a Gabriella quer ser o centro das atenções, mas eu sou o caçula, “ meu irmão ficou de joelhos na minha cama.

“ Não me lembro muito bem. “ Na verdade, eu lembrava. Uma forte luz apareceu na minha frente e eu caí com o impacto. Um fantasma, espírito ou sei lá o quê disse que era uma segunda chance. Guardo a chave de dois mundos. Coisas a que estamos acostumados. O relógio anunciou meia-noite, mamãe me deixou só e levou o meu irmão, já era tarde.

Apoiei meus braços na dobra do cobertor, olhei o forro do meu quarto fixamente tentando reatar meus laços com o sono, minha gaveta começou a se mexer. Aquilo poderia parar, frustei-me, a gaveta caiu e uma garrafa brilhante começou a flutuar, levantei-me, caminhei lentamente até a escrivaninha. A garrafa se quebrou sozinha, vários pedaços de vidro estilhaçado, um cortou minha bochecha, depois a luz sumiu Ariel com certeza teria o troco.

Voltei para dormir, cobri-me e, finalmente dormi, como se tudo aquilo fosse só um sonho do qual brevemente eu acordaria. Acordaria para nunca mais voltar.

Já era manhã e devido a intensa luz que tomava conta do meu quarto, calculei que minha mãe havia permitido que eu faltasse. Dez horas no máximo. Quando desci, percebi que minha mãe conversava com alguém que não via, ela calou-se. Assim que passei pela porta, vi Ariel de braços cruzados encostado na pia de mármore que ficava no espaço quadriculado que o armário deixava entre seus compartimentos.

Minha mãe me cumprimentou, serviu meu desjejum e disse que iríamos ao hospital. Fiz cara feia de nada adiantou. Liguei meu celular, três ligações de Maurício não atendidas. Ele esperara até o final das aulas. Angélica saiu para verificar o carro. Nós dois ficamos a sós na cozinha, ele foi o primeiro a falar.

– Perdoe-me, senhorita. Espero que aceite meu pedido e me dê uma chance para explicar-me.

Continuei a comer. Ele “ sentou-se “ na minha frente. Concedi o direito de defesa.

“ Não sei bem o que anda acontecendo comigo, isso acontece desde que morri. De repente, parece que não existo, mas eu sei que sofro. Ontem, quando a senhorita saiu fiquei muito irritada e não consigo ficar “ sano “, quase destruí sua casa toda, a senhorita Cavalieri teve que me aprisionar e reconstruiu tudo que eu arrasei.”

“ E como se não bastasse, explodiu a garrafa na minha frente. Você é muito controlado. “

“ … eu fiz isso?, ele tocou o meu corte. “

“ Não se faça desentendido! “, afastei a mão do meu rosto. “

“ É sério. Eu não lembro. Perdão. Errei muito ultimamente, é justo que estejas zangada comigo e creio que não tens que me ajudar mais em nada. Não mais a importunarei, será como se nunca eu houvesse existido. “

“ Não é tão fácil como se pensa, Ariel. Desde que cheguei aqui as coisas na minha vida mudaram. Não posso simplesmente ignorar o que está acontecendo, como se vivesse em uma redoma de vidro. Um dia, ela vai quebrar. Olha só pra mim, pareço a mesma garota que você viu naquela noite? E o meu cabelo? Essa mecha branca que apareceu não é velhice – mostrei-a é, igual a sua. Faço isso por mim, por você, por Aleja e por toda uma dimensão que depende, de nós para sobreviver. “

“ Aleja? “, ele perguntou meio comovido.

“ Sim. Veja. “, ele fixou seus olhos nos meus, pude ver Aleja que estava na minha pupila refletido no azul dele.

“ Agora, somos uma só. Conheço a sua história, a minha . “

Tudo vai ser mais fácil. Precisamos nos unir. Vocês merecem uma outra chance. Vamos encontrar o seu assassino e o medalhão, confie em mim, estendi minhas mãos e ele as “tocou”  começamos a brilhar juntos e uma luz surgiu entre a gente. Tudo ficou esclarecido para Ariel. Ele redescobriu parte da sua história. Quando nos soltamos , eu continuei a brilhar.

Eu estava passando por uma transformação. O fantasma estava diferente. Seus olhos estavam brancos, suas roupas também. Era uma camisa de algodão manga longa, parecida com as de mosqueteiro, uma calça um pouco mais justa dentro da bota branca com detalhes dourados. Uma capa branca até o chão. Um símbolo apareceu em sua face, a marca dos guardiões: ficava em seu osso da bochecha direita. Ele tinha uma forma humana.

Aí, me olhei na transparência da porta de vidro da cozinha. Eu tinha a mesma marca, do lado esquerdo. Meus olhos também brancos. Um vestido branco cujo estilo seguia o de Ariel na parte de cima, um cinto, corda, ou sei lá o quê dourado na minha cintura, em baixo, o vestido abria na lateral, eu estava com uma calça da  mesma cor e a mesma bota. Minha capa era um pouco mais larga, meu cabelo cresceu um pouco mais.

Minha mãe entrou e não escondeu a surpresa. Levou a mão a boca e desmaiou. Eu estava flutuando juntamente com o meu amigo. Ele pegou minha mão e “ pousamos “, caminhei até minha mãe que estava no chão. Nos olhamos e erguemos Angélica com um simples movimento de mãos, ele sempre do lado direito, estendeu seu braço sobre minha mãe  e fechou a mão. Eu repeti o mesmo do lado esquerdo. Nos teletransportamos  para o quarto dela, colocamos-a em sua cama . Olhei para Ariel novamente, voltamos a forma normal.

“ Querida, você se transformou? Isso é, é, incrível “, minha progenitora encostou-se nas almofadas.

“ Mãe, não posso ir ao hospital. – respirei fundo – não sou mais humana. “

“ CO – MO assim? Não HUMANA? “

“ Continuo  com as mesmas lembranças humanas, carne e osso, posso me furar, cair, mas não sofrerei como humano. Só seres mágicos podem me ferir. Também não viverei só 69, 5 anos.  Pareço a mesma de antes, mais minha essência não. Sua filha  – engoli em seco – não existe mais. “

“ Quem é você? “, Angélica perguntou em meio as lágrimas. “ Aleja Cavalieri, sua bisavó, mas a Gabriella se governa. Duas em uma. “

“ Como ousa fazer isso? Ela tem uma vida pela frente, tem família, amigos, casa. Não é você quem decide. “

“ É uma decisão dela. Você acredita? Mãe,eu vou ficar bem, não se preocupe, “ ela me abraçou. Seria melhor não ter contado, mas ela deveria saber da minha escolha. Em breve, eu teria que partir. A despedida doía, mas era necessário, eu precisava. Faria dos próximos meses, inesquecíveis lembranças. Eu poderia não sobreviver, também poderia desistir, mas teria que viver escondida. No meio das sombras que tanto odeio e que querem me ver morta. Eu podia parecer normal querer me casar com um humano assim, como minha mãe. Mas isso jamais teria um fim. Aliás, o Maurício não…

Com a visita ao médico dispensada, ajudei-a em casa. A manhã passou rápido, toquei um pouco, coisa que eu amo. Os homens da casa chegaram, logo depois um outro visitante.

“ Vim ver como está. Minha mãe me trouxe até aqui. “ – seu cabelo estava molhado. Ele olhou para o carro, – acabei de sair do treino. “ Sua mãe foi até onde estávamos. “

“ Ah, prazer. Senhora… “

“ Me chame de Alessandra. Queria conhecer a garota que causa um verdadeiro interlúdio no meu filho. Soube que você é um enigma, “ ela apertou minha mão, sorri e pisquei o olho. Fiquei um pouco assustada. Meus pais cumprimentaram- na , Angélica convidou-os para almoçar conosco. Alessandra disse que teria de ir para casa, se quisesse ter uma casa ainda. O marido poderia tentar esquentar o almoço e criar uma bomba nessa tentativa. “ Trouxe suas matérias de hoje. “ – ele sorriu mostrando a mochila, Ariel colocou a cabeça dentro dela e confirmou. Caminhamos até a cozinha.

O almoço foi animado, principalmente porque Ariel parecia se divertir ao imitar Maurício, mas só eu podia ver. Gabriel não perdeu a oportunidade de ser inconveniente dizendo que eu falava sozinha. Meu amigo humano sorriu e concordou. Era tudo estranho, nunca ninguém conhecido meu almoçou na minha casa. Meus pais estavam alegres, talvez pela filha finalmente se socializar com alguém.

Ficamos para lavar pratos.

“ A Érica queria transformá-la em primeira capa. A manchete seria: Gabriella tenta matar uma louca varrida. – seu celular tocou e ela desligou.

“ Não vai atender? “, perguntei ensaboando os pratos.

É a Bia, ela pode  esperar. Você, não. Porque não me retornou? “

Continuei calada. Talvez ele fosse embora, eu sofreria mas passaria.

“ Por que  você não respeita o meu espaço? “, perguntei.

“ Por que você não derruba essa muralha? Eu tento me aproximar de você, mas simplesmente, parece que você é volátil “, ele mudou de lado para ver minha reação, enxugou os talheres e me encarou. Continuei com os meus pensamentos. Ele ia desistir.

“ Eu não vou desistir,” vou, parecia que ele havia lido minha mente. Terminei de lavar a louça, comecei a guardar.

“ Tudo bem. Eu acho que já chega desse jogo,” falei ao fechar a porta do armário.

“ Gabriella eu quero muito te falar uma coisa…, “ ele se aproximou de mim, arrastei o pano sobre a mesa, Maurício estava nervoso. Ficamos muito próximos.

O meu sonho de adolescente estaria se completando? Será que realmente eu escutaria o que eu queria que ele falasse? Não, melhor não. Agora, seria algo impossível. Eu realmente estava encrencada. Sua proximidade ia aumentando, eu já conseguia sentir a respiração dele. Mas, para a minha sorte-azar, Gabriel apareceu na porta.

“ Finalmente terminamos, “ Maurício falou pegando o pano de prato.

“ Vamos ao meu quarto da bagunça, para eu copiar os assuntos  de hoje . Assim você já pode ir. “

Caminhamos até o meu quarto da bagunça/ estúdio/ sala de estudo, Ariel estava lá, mexendo como sempre. Entramos a porta ficou aberta. Meu amigo fantasma fechou a porta bruscamente, Maurício se assustou com o barulho.

“ Acredita em fantasmas? “, perguntei.

“ Só tenho medo dos que estão vivos. Fantasmas não existem. “

Abri os livros sobre a mesa e meu caderno. O livro de feitiços escondi embaixo do teclado que estava desmontado.

“ Posso? “, Maurício falou mostrando o meu violão.

Assenti. Ele começou a tocar.

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