Capítulo 5

UMA GAROTA OU UMA FECHADURA?

Pela tarde, resolvi concluir meus deveres. Ariel, no entanto, não parava de exibir seus poderes e ficou comigo durante todo o tempo. Era difícil tentar entender a energia cinética das reações quando eu queria estudar outra coisa: música. Mal podia esperar para que meu pai chegasse, à noite, tocaríamos juntos. Ele ia me ensinar algumas notas diferentes.

Até que a matéria não estava difícil, a senhorita Mônica dava conta do recado. Apesar de nova na escola, eu já a admirava como os outros alunos. No lanche minha mãe fez misto e suco de maçã. Levei uma bandeja para o “ cantinho da bagunça “, coloquei sobre a mesinha de estudo. O fantasma me olhava curioso.

– Que gosto tem? – ele perguntou entusiasmado e olhando o prato bem de perto, como estava ajoelhado próximo da mesa, debruçou-se sobre ela, até que seus olhos ficaram perpendiculares a linha do recipiente.

– Hã… pão, queijo e presunto? Uni as sobrancelhas aquela pergunta era óbvia. – O de sempre.

– É difícil saber “ O de sempre “ quando se tem 200 anos.

– Não parece. – tomei um pouco de suco.

– Porque eu morri jovem. Quando pretende usar seu livro? – ele trouxe o livro vermelho no ar, com um simples movimento de mão.

– O que eu escrevo nele? – olhei para Ariel ao destrancá-lo as folhas eram brancas, perfeitas.

– Que tal isso? Assim eu posso ir para qualquer lugar, onde você estiver – ele me entregou sua foto ( aquela do começo ).

– Você não pode sair daqui por quê?

– Bom, tenho que “ assombrar “ esta casa. Na verdade, o que me mantém preso é um assunto inacabado e eu não posso terminá-lo sozinho, aliás, nem sei o que é. Por isso eu pedi sua ajuda.

– Gabriella, telefone. – falou Gabriel que, mais uma vez, entrou sem permissão. Dessa vez, ele desceu as escadas correndo dizendo que eu estava falando sozinha. Desci para atender, era Fernando, que bom. Ele me informou o preço e eu disse que na segunda, antes de ir para a escola, pegaria o óculos na relojoaria. Aproveitei para convidá-lo para ir ao circo, demorou aceitar, mas no fim, acabei vencendo. Como Ariel estava comigo, voltamos para onde estávamos. Pedi que ele me ensinasse, ele aceitou e ficou feliz. O que eu soube depois é que, primeiro, você aceita sua condição, depois pede ajuda. Abri o livro, as páginas começaram a passar sozinha, um vento forte invadiu meu leito.

Aquilo mais parecia um filme, toda a minha vida passando naquelas folhas. Desde criança até os dias atuais. Não pude esconder minha surpresa, Ariel também estava surpreendido. Quando a ventania parou, ele falou ainda com os cabelos bagunçados.

– Isso é incrível! O normal é que o feiticeiro escolhe seu livro, mas com a senhorita acontece o contrário.

– Ai… por que as coisas normais não ocorrem comigo? – perguntei abrindo o livro. Comecei a escrever.

“ Lição número 1: Nunca pensei que realidade e ficção fossem uma coisa só. Há dois mundos e eu sou o elo entre eles. Quem sou eu? Uma garota ou uma fechadura?… “

– Qual o seu primeiro encantamento? Uma lição, um encantamento… Ah, que tal levitação de coisas? Isso é muito legal! – Ariel falava e demonstrava ao mesmo tempo. Depois , quem sabe voar! – Ele fazia gestos e andava por todo o quarto.

– Levitar coisas. Ok! –sentei no pufe e fiquei observando Ariel colocar meu livro de matemática sobre a mesinha. Gostei dessa utilidade.

– Concentre-se. – ele falou me encarando. Seu olhar era sério e desafiador. Fiquei presa, nervosa. Como eu podia confiar em alguém como eu confiava nele?

Olhei fixamente para o livro, mas nada. Ariel já havia sentado no chão, encostado na parede. 15, 30, 60, 100 minutos se passaram e nada.

– É, hoje não é meu dia. – olhei para ele suspirando.

No seu quarto, Gabriel começou a tocar bateria, peguei meu violão. Antes, escutei bem as notas dele e comecei a acompanhar o ritmo. A canção era animada, contagiante, Ariel começou a bater palmas.

Aquele momento foi mágico. Consegui sentir todos os meus poderes fluindo por minhas veias. Era como se eu fosse feita de música e magia é isso: música. Tocava e olhava para o livro. Ele começou a se mexer, aliás, não foi só ele , meu violão, teclado, bateria, os outros livros. Eu estava alegre e as coisas começaram a flutuar, eu não tinha controle daquilo. Comecei a ter medo, as lâmpadas piscavam. Eu já estava flutuando, só que uns 10 cm do chão.

Meu novo amigo tentava isolar o quarto com seus poderes. Ouvi batidas na porta.

“ Querida, acalme-se. Deixe fluir seus poderes com uma respiração lenta. Vamos lá, você consegue. “

Uau! Minha mãe estava na minha mente. E não era só ela.

“ Vamos, Gabriella! Eu não vou aguentar por muito tempo. Não posso usar meus poderes contra os seus. A senhora tem que me ajudar. “ Era Ariel, seus olhos estavam ficando brancos, as coisas começaram a rodar dentro do campo que ele criou para isolar o cômodo em que estávamos.

Assim como aquela avalanche de Poder surgiu, ela esvaziou-se. Não era eu-  quem fez aquilo, outra força veio de fora e me ajudou controlando o meu acesso. Caí sobre minha cama, as coisas ficaram em seus lugares e Ariel foi arremessado longe. Só não quebrou a janela, porque ele pode atravessar objetos sólidos. Sorte.

– Vocês estão bem? Perguntou Angélica na entrada.

– Acho que sim. – falei me levantando. Alguém viu alguma coisa?

– Não. Eu tive que parar o tempo, lembrar o feitiço é difícil quando você quase não tem poderes. Eu estava conversando com nossos vizinhos: o Charles e a Fernanda. Deixei-os tomando chá lá embaixo.

– Parar o tempo?! Ah, fala sério! Nós fazemos isso? – perguntei entusiasmada.

– A coisa mais perigosa que existe: o Tempo. – falou Ariel.

– Bom, eu vou descendo. Ariel, da próxima vez não deixe minha filha se controlar sozinha. – minha mãe não sabia para onde olhar.

– Hum… mãe, os poderes dele são anulados à medida que o meu aumenta. – falei mexendo os dedos em círculos.

– Depois conversamos, tenho visitas.

O circo me dava nostalgia. Muita gente. Levei a foto de Ariel na tiracolo cáqui que eu ganhei no dia do meu aniversário de 14 anos da minha avozinha. Estavam todos à minha espera. Me arrependi por não ter inventado um programa de família, uma dor de barriga repentina. ( ah não essa não cola desde os meus dez anos ), eu sei lá o quê.

De início, eles não me notaram. Maurício tampava o campo de visão da Erika e da Fernanda. Aquela estava toda produzida para a apresentação, esta, trajava um vestido malhado com estampas florais em diversas cores. Aliás, seu topete estava fofo! Maurício, também estava esplêndido: uma calça de várias bolsos nas laterais, verde e uma babylook preta. Ele tirava fotos da dupla.

Olhei para mim mesma. Uma babylook branca com coletinho preto, uma saia jeans da cor da bolsa e uma rasteirinha teriam sido uma boa? Coloquei as mãos nos bolsos, suspirei fundo e continuei. Fernanda me viu primeiro e acenou, os outros viraram.

– Que bom que veio! Senão você iria andar na prancha,companheira! – Erika incorporou seu personagem.

– Vocês estão esplêndidos – falei olhando a todos.

– Você está linda –disse Maurício tirando uma foto.

– Nossa, isso é um flash ou um pulverizador? – coloquei a mão no rosto. – Não gosto de fotos, câmera, filmadora ou qualquer outra coisa do tipo…

– Vamos entrar? – Maurício tirou outras fotos . Eles não vão me levar a sério mesmo.

– Estou esperando uma pessoa.

– Quem? – Erika perguntou ficando na ponta dos pés para ver por cima da multidão.

– O Fernando.

– Você é corajosa. – afirmou Fernanda que até aquele instante ainda não havia falado.

Foi aí que olhei para o Maurício e encontrei seu olhar que já perdera a vivacidade, ele estava me reprovando e aqueles dois olhos eram minha prisão. Mais não era somente isto que eu via, aquilo ia mais além.

– Não! – gritei.

– Não? – eles perguntaram assustados.

– Não… é, esqueci o meu, hum, é … o meu quarto destrancado. É isso! Hum … meu irmão vai fazer uma festa! – menti.

– Olha! Ali está o Fernando! – gritou Erika.

Eles entrarem na frente, Maurício ficou atrás de mim . Ele  me falou que eu não sabia mentir. E pra falar a verdade eu não sabia. Me disseram que a mentira tem perna curta. E tem.

“ Não! “ Eu não queria ver o pensamento dele, aliás, eu não queria “ ler “ a alma de ninguém. Logo, de quem do Maurício! Eu não permitirei.

Mal entrei e os desastres começaram. Primeiro, encontramos a Bianca que grudou feito carrapato no Maurício. Depois, na hora de subirmos para a arquibancada, eu tropecei. Fernando me apoiou para que eu não caísse.

As apresentações eram esplêndidas, tudo estava muito animado. Fernanda gravava e eu tirava algumas fotos, quando posicionei a câmera mais uma vez, um garoto do outro lado da arquibancada olhava em nossa direção. Ele era alto, branco, cabelos pretos, nariz fino, todo vestido de preto. Quando nossos olhares se encontraram , por um instante, seus olhos ficaram totalmente brancos. Tirei a visão  quando olhei novamente, ele havia sumido.

Seria engraçado se todos pudessem ver. Ariel estava, lá embaixo com os funcionários do circo imitava seus gestos e, na hora do mágico, ele fez com que os truques saíssem errados. Eu sorria, era hilário. Mas, nada tirava da minha cabeça a imagem daquele garoto.

Em uma outra cidade, Amanda Luana pesquisava sobre seu assunto favorito: o sobrenatural. Ao ver o link sobre a pequena cidade de Opala, não pensou duas vezes. Iria procurar e encontrar, quem sabe, a maior aventura de sua vida. Soube das fendas misteriosas que apareciam no lugar, nuvens estranhas que apareciam à noite. Aquilo a fascinava, as pessoas não acreditavam nela, mas ela sim e isso bastava. Fez as anotações que podia, arrumou sua mochila e uma bolsa de viagem. Pegou seu cachorrinho dálmata, o Spoke e o colocou em cima da cama.

Os lençóis que sua mãe lavara, serviram de corda. Começou a amarrar suas pontas. Enquanto fazia isso, olhou-se no espelho: os olhos arredondados negros como a noite, o nariz pequeno afilado e arrebitado na ponta, a boca fina e sinuosa a fazia lembrar de sua mãe. Aliás, era o retrato da progenitora. Amarrou seu cabelo preto comprido em um rabo de cavalo, colocou a jaqueta e sentou-se na penteadeira, olhando seu reflexo, escreveu uma carta aos seus pais. Contou-lhes de seus sonhos e pediu-lhes tempo. Disse que não estava louca, se não fosse tudo como “ louco “, Einsten seria apenas um simples professor ( sem desmerecê-los ), não um gênio.

– Vem, Spoke. Não se preocupe, guardei toda a minha mesada dos últimos seis anos e o trabalho de 2 anos na livraria, me deu um bom dinheiro que investi na poupança. Vamos ficar bem. – ela olhou da janela até o chão e começou a descer.

Não olhou para trás, uma lágrima atrevida caiu de seu olho, mas não foi acompanhada por outras. Amanda pegou um táxi e foi para a rodoviária, tinha 17 anos, podia comprar uma passagem, mas deixaria pistas de seu paradeiro. Pediu a um morador de rua que comprasse uma e, em troca, pagou-lhe um jantar no restaurante local. Quando embarcou, à medida que o ônibus se afastava de sua cidade, a esperança de ver aquilo em que acredita fumegava em seus olhos e era maior que a saudade que ela sabia ter de casa.

À noite, o desequilíbrio entre o mundo real e o mundo mágico se acentuava, porém não era tão perigoso. A presença da guardiã e o ressurgimento do Caliban afetavam o equilíbrio, o pouco que tinha.

Eles estavam famintos, a fome os dominava. Há anos que não sentiam a força da carne tão forte. Aliás, não era para sentir, o Caliban começava a entrar em ação. Eram quatro, sedentos e perigosos e, acima de tudo, presos.

O gatinho do senhor que morava na descida da rua de Gabriella, não era de sair à noite, mas tudo estava errado. O ancião que tratava o animal como um filho, foi atrás dele. Abriu a porta da varanda, o vento estava frio, amarrou o roupão de algodão felpudo azul, ajeitou os chinelos melhor no pé, colocou a garrafa com água segurando a porta.

– Frederico, cadê você? Vem cá, garoto. – a voz rouca chamava.

Estava escuro, um homem de preto apareceu do outro lado da rua com o bichano no braço. Atravessou e aproximou-se do velho.

– Aqui está. O senhor não deveria aparecer na rua a essa hora, é perigoso. – seus olhos demonstravam confiança.

O ancião agradeceu e quando virou as costas, o homem disse que ele apesar de velho, tinha uma força vital extraordinária e muito apetitosa. Os rapazes estavam de preto, alvoroçados, sem sentidos. Ao verem aquela presa, frágil, indefesa, não pensaram duas vezes. Só queriam saciar a sede. O homem permaneceu em pé observando, nem o gato saiu ileso.

– É hora de voltarem a dormir, já os usei o suficiente. – eles desapareceram.

Charles e Fernanda não chegaram a tempo, o senhor Gonçalo estava estirado no chão. Apenas sua alma permanecia em pé. Os dois irmãos estavam reluzentes.

– Eu morri? – ele perguntou olhando seu corpo.

– Sim. – disse Charles – Somos anjos de passagem e você vai…

Eles preparavam-se para o transporte do ancião.

– Não. – uma voz veio da escuridão. Ela era forte, firme. – Ele vem comigo.

– Não podemos deixar, assim, ele vai ficar preso. – intercedeu a garota.

– Isso é uma ordem. Sua alma vem comigo.

– Eu não vou com você, eles estão de branco. A cor que você está vestido não é confiável. Pra mim, você é um…

– Não diga mais nada. De um jeito ou de outro, você virá comigo. Aceite. – ele estendeu a mão.

– Mas… – continuou Fernanda.

– Cuidem do seu protegido. Ele é meu – erguendo as mãos para o ar, os dois sumiram.

Os anjos ficaram ali, parados, não podiam fazer nada. Perceberam que o desequilíbrio aumentara. O Caliban estava ganhando. Eles voltaram e ficaram rondando a casa de Gabriella. Outro ataque parecido aconteceu na saída da cidade, mas ele estava lá, então era melhor não fazer nada.

Quando acordei, Ariel estava em pé de frente à minha cama, só observando. Sua expressão mais angelical do que nunca, a luz que entrava pela janela conferia-lhe um brilho a mais. Deu-me um bom dia. Meu livro vermelho estava sobre o computador, trouxe-o levitando. Meu professor elogiou minha rápida aprendizagem.

– Então, o que vai fazer hoje? – ele perguntou andando de um lado para o outro.

– Vou à biblioteca, ver os arquivos antigos da cidade.

Por que a senhorita fez essa careta? – ele virou o rosto de lado.

– Eu não dou conta nem dos livros da escola, imagine de arquivos de dois séculos! Sabe, não me leve a mal, mas essa estória de senhorita não pega…

– Não PEGA? Eu só a chamei, não a toquei eu juro! Ele cruzou os dedos sobre a boca.

– “ Não PEGA? Quer dizer que está ultrapassado, só idosos falam assim, ah, e os professores, claro nem todos.

– Eu tenho duzentos anos e alguma coisa.

– 216, eu acho. – levantei, esfreguei os olhos, bocejei um pouco. – Tive um sonho estranho, com você. Bom, eu não era eu. Estávamos em um jardim e tinha uma árvore, você segurava um embrulho quadrado, havia um outro homem, não sei bem. Eu, bom, ela, ah, você entendeu, fui atrás dele. Você sorria, mas estava infeliz. Me senti egoísta por não dar-lhe atenção.

– Talvez tenha sido uma lembrança, não lembro muito da minha vida. – seu semblante mudou, ele sofria. Disse que ia banhar e deixei-o só. Me arrumei, desci para tomar café com minha família.

– Nossa! Quanta alegria, você está radiante, filha.

– Não fiz nada de mais, pai. – falei ao beijar-lhe o rosto, abracei minha mãe e mexi no penteado do Gabriel, ele odeia isso.

Eu estava feliz porque me lembrava de sábado, que Maurício trocou aquela patricinha da Bianca, para andar com a gente. Estava mais feliz ainda porque ele defendeu o Fernando do idiota do capitão da seleção que fazia chacota dele. Ele era uma pessoa e tanto, ele disse que tinha uma surpresa para mim e ia levá-la para a escola.

– Podemos ir? – perguntei ao meu pai sem ter, ao menos terminado de comer. Vou escovar os dentes. – subi as escadas correndo.

Desci do carro. Bom, tirando a parte de que ainda tenho medo da escola e das pessoas, a visita a biblioteca, o dia prometia. Erika estava à minha espera.

– As fotos ficaram ótimas, parabéns , Gabi. Posso te chamar assim? O que você fez hoje? Está diferente. Que cabelo branco é esse?

Cabelo branco? Não, era possível!

– Pode chamar sim. Cabelo branco? Como assim? – ela me mostrou um espelho. Na verdade, uma mecha do meu cabelo estava com a raiz branca, só uma mecha, na parte frontal. – Deve ser o shampoo. – Espero que seja isso.

Caminhamos até a sala de aula, vimos Fernanda. Onde ela estava? A professora Mônica nos cumprimentou.

– Ai, não…

– O que foi Erika? – perguntei assustada. Se fosse mais um cabelo branco, eu surtaria. Começaria a gritar, a pular…

– Teste de química surpresa. A senhorita Mônica pode até ser legal, mas se ela nos cumprimenta no corredor, especialmente nesse, é prova. Vou avisar aos outros. – ela saiu correndo.

Abri  meu livro vermelho e olhei a foto de Ariel, disse que ele precisava me falar sobre essa história de cabelo branco, distraída caminhava com o livro aberto nas mãos.

– Você não pode viver um dia sem topar nas pessoas? – Maurício falou me segurando.

Amarelei. O que eu falaria? Meu HD não processava, a informação. Pare. Socorro.

– Desculpe. – ufa! Só “ desculpe”? Não era bom. Fui mal…

– Com quem você falava? Nossa você envelhece muito rápido.

– Eu, não falava com ninguém, a não ser com … comigo mesma. – ele percebeu meu cabelo branco azar danado.

– Calma, só estou brincando. – ele disse ao ver minha reação.

Ariel apareceu do nosso lado. Apontou para ele, mediu sua altura, ele era menor, ficou na ponta dos pés, mexeu no cabelo dele.

– Para!

– Hum … com o quê?

– Eu estou falando com, o Fernando! – menti- Espera aí, saí correndo e deixei-o sozinho. De novo, não, de velho.

O teste não estava tão difícil, mas para mim era um assassinato. Quem sabe se eu tivesse dez por cento do Fernando, poderia me dar bem. Ficando na média, estava ótimo, quer dizer, maravilhoso. Olhei para a professora, ela parecia a Mônica mesmo. Ela estava observando a prova que tinha em mãos. Comecei a ver sua mente, muitas outras vieram à tona. Pedi a Ariel que me ajudasse, ele me disse que eu era a chave de mim mesma. Só eu poderia me controlar. Tantas pessoas, era muito pra mim, um redemoinho. Aí… suas vozes aumentavam era ensurdecedor. A última coisa que vi foi a professora me apoiando para eu não cair no chão.

Abri os olhos devagar, minha mãe estava sentada ao meu lado.

– Você está melhor?

– Sim. – respondi. Eu deveria estar melhor de quê?

– Que susto, hein, Gabriella! Foi só uma queda de pressão.

– Eu disse pra você não comer tão rápido.

Quando a enfermeira saiu, minha mãe perguntou onde Ariel estava. Eu respondi que ao lado da porta, ela me deixou a sós. Pedi que me deixasse ficar, contrariada, disse que sim. Caminhou em direção a ele , cochichou algo. Percebi que ela não queria que eu escutasse. Fingi que não vi.

– Quando aparecem para um humano, fantasmas de passagem se tornam responsáveis por ele. Não é mesmo Ariel?

Angélica em uma de raras vezes deixou sua postura calma. Afinal era sua filha. Ela temia pelo o que pudesse acontecer com a garota devido a tantos acontecimentos.

O fantasma permaneceu imóvel, braços cruzados, testa franzida. A mãe de Gabriella passou pela porta que ficou aberta, ele a fechou com o poder da mente bruscamente.

Eu não podia acreditar naquilo, Ariel zangado. Levantei da maca. Fiquei sentada, quase desmaiei novamente.

– Quem ela pensa que é? – gritava ele.

– Minha mãe? – estranhei a pergunta e fiquei assustada.

– Isso! A sua mãe! Não a minha!

As coisas começaram a voar por todos os lados. Mas, nada me atingia, eu estava protegida. Nada se aproximava a menos de um metro de mim. Ele explodia de cólera, seus olhos mudaram de cor, estavam vermelhos fumegantes, ardiam. Aquilo me deixara triste e eu não sabia por que. Um sentimento de culpa me dominava. Eu era culpada, causei tudo aquilo. Eu não queria…

Aí, ele olhou para mim. Ao perceber que eu chorava aquela raiva esvaziava de seu rosto, aos poucos ele voltara a ser o Ariel que eu conhecia. Sentou ao meu lado, tentou me tocar, mas era impossível. Ele era um fantasma.

– Desculpe-me, senhorita. Um cavalheiro não deve “ perder “ a cabeça. Bom, eu já estou morto. Apesar disso, não devo perder os modos. Sinto muito.

– Tudo bem. – enxuguei a última lágrima e levantei definitivamente. – Já vai começar o recreio, preciso comer alguma coisa. Vem comigo?

Fomos ao refeitório, mal sentei com minha bandeja o sinal tocou. Comecei a comer, aquilo não me atingia de forma alguma. Eu estava “ só “ e nada poderia atrair minha atenção, mas eu estava enganada.

Entre os alunos que formavam a fila para pegarem sua bandeja, eu o vi. O mesmo cara do circo, ele me observava. Roupas pretas, o olhar fixo. Desviei minha atenção, Erika chegou pulando com a bandeja em mãos foi logo perguntando como eu estava, o que havia acontecido, o que fizeram comigo, se fui tratada bem…

– Droga. – disse ela por fim – Eu quero uma matéria  polêmica, explosiva. Uma grande repórter precisa de grandes matérias.

– Desculpe não posso ajudá-la. – falei a meia- voz, procurava com os olhos aquele garoto, ele já tinha sumido.

– É uma pena que esteja bem. – falou Bianca sentando na minha frente. Toda a escola parou.

Apenas a olhei, mirei seus olhos  e vi sua mente. Ela me odiava, eu era uma ameaça. Bianca odiava garotas frágeis, delicadas que precisavam de proteção. Aquela loira de cabelos compridos e olhos azuis não admitia suas verdades. Negava a si mesma e procurava nos outros a sua culpa. Não falei nada, continuei comendo.

– Você é retardada ou o quê? – ela afastou minha bandeja.

– Fala Bianca. – olhei para ela , senti pena.

– Muito bem. Assim que eu gosto. Eu quero que você saia do caminho, mosca- morta…

– Ei, garota! Você se banhou com água fervente quando deixava seu cabelo escorrido que nem macarrão? – Erika a puxou pelo braço.

– Solta ela, Erika. – falei . Ariel queria agir, disse-lhe que “ não “. Levantei, mas Bianca me deteve. Eu não aguentava mais aquilo.

– Fala, Bianca! Eu não te fiz nada! Que tanto ódio é esse? Eu não estou no seu caminho, não quero nada que te pertença. Como você disse eu sou uma mosca- morta o que eu posso fazer? – ironizei. Ironia era algo novo. Saí correndo para conter as lágrimas. Na saída do refeitório, aquele garoto novamente. Fiquei escondida na biblioteca. Fernando estava sentado ao lado da entrada.

– Posso me sentar aqui? – perguntei com a voz meia rouca.

– Eu estou tentando não chorar. Homens não choram.

– Então eu choro por mim e por você. – sentei ao seu lado.

– O que foi? – ele perguntou

– A Bianca me odeia. Aliás todos me odeiam.

– TODOS, não. Há pessoas que gostam de você, apesar de não te conhecerem bem. Não chore tanto assim. – ele passou a mão na minha cabeça.

Maurício nos encontrou, ele não teve nenhuma reação ruim, pelo contrário, foi muito amável. Mas ele teve um pensamento “ se não pode com junte-se a ele “. Nada a ver, porque eu estava me tornando amiga do Fernando, só isso. Ele sentou-se ao nosso lado, ficamos fixos, imóveis, calados. Cada um compartilhando a dor do outro. Quando bateu a campa, Macbeth, a bibliotecária, abriu a porta.

– O que fazem aqui, garotos? – ela perguntou meio receosa.

– Só estamos nos escondendo de uma galera que quer jogar ovos nela, hoje é seu aniversário. Sabe como é , dona Mac – convenceu Maurício.

– Ah, é você, Maurício. Então é melhor irem para a sala de aula, já bateu a campa.

Saimos. Cada um foi para um canto diferente. A próxima aula seria no laboratório de língua espanhola. Sentei na última cadeira da sala, lá no fundão. O senhor Alejandro entrou no local, todo vestido a caráter. Iriamos aprender sobre a cultura mexicana e algumas expressões idiomáticos.

Ariel permaneceu andando por toda a escola, fez uns experimentos de química do 3º ano darem errados, causando confusão no laboratório. Trocou de posição os quadros que o diretor mantinha em ordem das diversas fachadas da escola causou muito alvoroço. Não se sentia livre há 200 anos, mas ainda estava preso na terra. Angustia e alegria ao mesmo tempo.

Amanda finalmente chegou aonde queria: o local onde as rachaduras foram abertas na pequena cidade de Opala. Alguns geólogos trabalhavam no local ainda. A garota aproximou-se da equipe.

– Oi. – ela disse segurando as alças da mochila.

– Não deveria estar aqui mocinha – falou um homem meio barbudo e de óculos segurando uma fita nas mãos.

– É, eu sei. É que me interesso muito por geologia quando vi na tv que vocês estariam aqui não pude resistir. O que causou isso seria um movimento esperotérmico?

– Ainda não sabemos bem. Oi! Sou Bruno, estagiário. Estou ajudando-os. – O garoto tirou a trena da mão e estendeu-a. –Talvez seja só um desmoronamento interno.

– Amanda. Prazer. O que tem lá embaixo?

– Terra e mais terra, – falou o homem mais velho entrando no buraco. A senhorita quer vir?

– Sim, muito! Vem, Spoke!

O  caminho era escuro, os três desceram mais o cachorro. Havia uma equipe, trabalhando, recolhendo amostras de terra escavando, a garota caminhava atentamente. Prestava atenção em tudo, em cada detalhe: a terra fofa e preta que deixava as marcas de pegadas, o odor úmido de terra molhada, água que umedecia as paredes e as luzes calculadamente empregadas na iluminação do local.

De onde vem tanta água?

Aqui ao lado, há tubulações de água e um pouco mais adiante a rede de canais de esgotos. Tivemos sorte por ele não ter sido atingido. Isso é estranho porque um provável deslocamento de terra não se limitaria a uma área tão limitada. – disse Bruno entusiasmado.

– Talvez o concreto das paredes o tenham impedidos. Qualquer hipótese bem fundamentada deve ser levada em consideração. – falou o chefe da equipe.

– Existe alguma testemunha?

– Não. Se não for incômodo, poderia me dizer o porquê de seus levantamentos?

– Só curiosidade e espírito geológico.

Amanda tropeçou em uma rocha e caiu por terra. Ao cair viu um pingente no chão. Quando pegou-o escondida, este queimou a sua mão. O formato dele era um círculo com o “ A “ de plano de fundo e um “ C “ por cima . Provavelmente era de ouro.

– Tenho que ir. Meus pais me disseram para não demorar. Além disso, ainda nem almocei. Obrigada e boa sorte com as pesquisas.

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