0

Quando é amor?

Oiii amores e amoras estou de volta,

Então tem sido um pouco difícil vir aqui frequentemente, mas …muito obrigada por curtirem as minhas ideias, fiquei muito feliz com as estatísticas e por saber que já temos visitantes estrangeiros. Obrigada por tudo pessoal!! Vocês são tipo…muito demais…

quando

Bom, vim falar com vocês sobre um assunto que discuti recentemente e percebi que dava um bom post. A pergunta é

QUANDO É AMOR?

Alguém sabe a resposta, quem quiser se arriscar nos comentários, pode responder: Quando você descobriu que era/é amor?

Será que tem uma idade em que chegamos e podemos afirmar que agora sim é amor? Quanto tempo leva para o construirmos? (sim, amor não se descobre, se constrói).

Quando eu tinha uns 8 anos eu tinha uma boneca que era a minha xodó. Até que um dia, a coloquei para tomar Sol, ela caiu e quebrou o braço. Foi minha primeira grande perda. A dor foi tanta que ela teve direito a um caixão com direito a funeral, lágrimas, um breve discurso meu de todas as suas qualidades e um enterro. Depois dela, tive outras bonecas. Um belo dia, encontrei uma boneca que não tinha uma das pernas e a pedi pra mim, ainda hoje a tenho comigo. Só porque a primeira boneca da qual falei não tinha mais o braço, ela não deixaria de ser  a minha boneca, nem de viver as aventuras que tínhamos porque faltava algo, quando ela quebrou eu achei que era o fim, eu tentei consertar, mas, no final, a deixei ir embora (até porque na minha visão o céu das bonecas seria melhor que ficar comigo), mas acredito que eu era pequena demais para perceber que eu a amava e o quanto eu era capaz de fazer tudo para que ela fosse uma boneca feliz. Com a segunda boneca, eu já tinha essa concepção. Eu sabia que a amava o que me fez pedir para ficar com ela, quando a vi sem uma perna. Minha avó queria fazer uma perna para ela, mas não importava tanto assim, com perna ou sem perna ela continua sendo especial para mim.

Então, eu cresci. Minhas bonecas deram lugar a livros e as descobertas da adolescência. Na minha primeira paixonite de escola, chorei igual à minha primeira boneca, mas não era amor. Era paixão. E o pior, era uma paixão solitária (sim, isso existe) a qual me apeguei por muitos anos, mas isso me fez crescer: aprendi que quando fosse para amar, eu deveria ter amor próprio. O tempo passou e meu coração, um certo dia, bateu mais forte. Já não era uma paixão solitária, mais eu esqueci que quando algo quebra, tentamos consertar quando significa muito para a gente, mas nem sempre a minha força de vontade em consertar seria o suficiente, que isso não cabia somente a mim. Era preciso duas mãos diferentes empenhadas nisso, mas eu achava que apenas uma daria conta de tudo. Daí me fechei por tempo indeterminado para uma manutenção que eu não tinha certeza se  eu queria acabar. Aos poucos o coração bateu, mas foi tão silencioso que eu não percebi inicialmente. Fui forte e não temi os estragos, estava tudo limpo e mesmo que quebrasse eu sabia o que era necessário para consertar. Mas, eu também aprendi que minha boneca só foi para o “céu das bonecas” porque eu determinei que  ela deveria ir, se fosse por ela, teria ficado, mas acho que eu não teria lidado com essa culpa de tê-la deixado cair e ficado comigo. Às vezes, somos nós que erramos. E isso é normal, e se não aceitarmos isso não haja escolha do outro que nos faça mudar de ideia.

Então passam as outras bonecas, ou melhor, o tempo. Você reflete enquanto está só. E se prepara. Então ao invés de buscar a boneca em si, você a procura pelo que ela representa, por aquilo que ninguém mais poderia ver além de vocês. Não serão os vestidos ou quantas cores de cabelo ela poder ter de acordo com a temperatura da água que te chamarão a atenção. Ela não vai deixar de ser divertida só porque não tem uma perna. Ou porque ela é tão diferente. Você simplesmente a olha e vê quantas aventuras estarão por vir, das risadas que poderá dar na sua companhia e que nada seria igual àquela boneca. Ela pode não ter tantos atrativos, mas te fará feliz e nenhuma outra te chamará atenção. E no fim não será a forma como ela é diferente, mas como você a olha e o tempo que dedica a ela.

Anúncios
0

10 pequenas coisas…

Oiii meus amores e amoras 🙂

post

Genteeeeee, não sou nenhuma especialista em relacionamento. Mas acredito que algumas coisas precisam ser aprendidas pelo coração. Já pararam para pensar o que faz diferente aquela relação as mil maravilhas da televisão ou até aquele casal que você admira tanto? Que aquilo pode não ser pura e simplesmente sorte? Pois é. Vamos conversar sobre isso então. ( E quem souber de mais uma dica pode sentir-se à vontade para comentar). Longe de mim dizer que essa é a fórmula da felicidade a dois que não é, mas nós podemos fazer pequenas coisas que podem tornar esse momento mais leve, divertido e por que não lançar as bases de um relacionamento eterno? Isso mesmo, porque é nisso que acredito, no para sempre que muitas vezes, é confundido com algo utópico  e ilusório (sim, usei de redundância para deixar bem claro o quanto muitas pessoas não acreditam nisso). Acredito que o amor precise ser cultivado diariamente.

1- Ter em mente que tipo de pessoa você será numa relação. 

Assim que começamos a namorar, o boy disse que tinha um lista  que podemos chamar de “que tipo de namorado/noivo/esposo eu serei”. Ele me mostrou todos os itens e perguntou se eu concordava e se queria inserir algo a mais que eu achasse importante. Ele havia feito essas escolhas bem antes de nos conhecermos. Eu também fiz a minha , nela está incluso pequenos gestos que devem virar rotina na medida em que continuam a ser verdadeiros como “dizer eu te amo a cada despedida” ou “primeiro escutar, depois falar” ou “lembrar de todas as qualidades antes de reclamar de um defeito” até a forma como devo tratá-lo. Este é o nosso pequeno pacto que tem dado certo.

images

2- Fazer  um “inventário de dupla”

Eu prefiro chamar D.R (discussão de relação) e isso evita as brigas. Decidimos que cada um, quando isso ocorrer, falará como está a relação, algo que o outro fez que não concorda muito. Algo que precisa ser melhorado.  Mas não quer dizer que esse inventário só acontece depois de algo ruim, ele também serve para que façam uma autoavaliação que como anda o relacionamento. Isso também inclui não “lavar a roupa suja” na frente dos outros, além de ser feio, demonstra falta de respeito com o outro e ninguém tem mais nada a ver com isso que vocês dois. Escolhemos não discutir quando as coisas acontecem, mas depois que a raiva passa, isso nos dará tempo para refletir sobre aquilo e “esfriar a cabeça”. Enquanto isso, é possível que um prefira ficar sozinho então dê um tempo.

3- Dar espaço

images (2)

Além de dar um tempo quando necessário, dê espaço. Quem disse que você não pode sair com seus amigos ou amigas? Com o tempo, apresentei todos os meus amigos (sim eu tenho amigos homens e não há problemas em relação a isso) e amigas com quem frequentemente costumo sair, não porque isso era um item obrigatório, mas porque isso mostra que assim como ele é importante para mim, meus amigos também são e tem seu espaço na minha vida. Assim como conheço seus amigos, assim como ele sai com seus amigos. Às vezes, ele sai junto, às vezes, não. E não fica aquele clima estranho. Por isso é importante deixar as coisas bem claras logo de início no relacionamento.

4- Fazer coisas que o outro gosta

Essa parte dará boas risadas e momentos divertidos. Isso mostra que o outro não precisa se anular. Por exemplo, eu não gostava de desfiles cívicos, nem em falar sobre lutas, nem filmes de ação. Já ele, não cantava, dançava ou ia a exposições. Hoje, vivemos um meio termo e já colecionamos memórias incríveis. Outro dia, deixei claro que iríamos ao desfile de 7 de setembro porque é algo importante para ele e que ele não precisava abdicar disso só porque eu queria ir ao zoológico. Resultado: fizemos as duas coisas e não foi cansativo porque passamos bons momentos na companhia um do outro.

5- Pequenas demonstrações de afeto sem precisar de motivo

images (3)

É tão bom se sentir querido/a, não é? Costumo escrever bilhetes e cartinhas e escondê-los, para encontrar ele precisa buscar pistas também escondidas, isso quer dizer que costumo dar um pouco de trabalho. Já ele, me escreve cartas. Às vezes, o dia não vai tão bem e receber uma mensagem no Whatsapp, Facebook, SMS ou um bilhetinho no meio das faz toda a diferença.

6- Fazer  (e aprender) alguma coisa juntos

Pode ser um curso, uma oficina, academia… Nós servimos juntos na Igreja. Além disso, nos envolvemos em projetos que nos façam estar lado a lado e aprender um com o outro. Às vezes, é desafiador, mas duas cabeças juntas pensam melhor que uma.

7- Orar e estudar  as escrituras juntos

download

Essa parte é essencial, se vocês tem uma formação cristã, independente de qual seja, isso ajudará a fortalecer sua fé e tornar seus princípios parte do relacionamento. Ao observar a fé um do outro e aprender com seu/sua parceiro/a, ambos sairão edificados e compreenderão a fundo a escritura que diz “ambos serão uma carne”.

8- Estabelecer metas 

Eu tinha um plano de vida até os 30 anos (eu sei podem rir às vezes sou muito metódica hahaha). Isso incluía todas as áreas da minha vida e para que tudo fosse atingido eu deveria segui-lo à risca. Já ele tinha seus planos. À medida em que nossa relação evoluía, meu “plano de vida” mudou. Abrimos mãos de algumas coisas, isso não quer dizer que foram excluídas, mas foram adaptadas para que não chegássemos ao fatídico dia em que teríamos que escolher entre carreira e relacionamento. Nisto, podemos dizer que somos os maiores incentivadores um do outro.

9-  Manter a amizade e conversar

fanfiction-os-herois-do-olimpo-a-revolta-dos-ceus-2943138,030120152146

Isso faz parte da lei básica. Embora existam os/as bests, seu/ sua companheiro/a  deve ser o “best dos bests”. Então, conserve seu relacionamento como mantêm uma amizade. Riam, brinquem, conversem, sejam sinceros um com o outro, sem segredos que possam interferir na relação. Por várias vezes, me sinto  de volta a escola quando me vejo correndo atrás do boy porque ele estava ‘implicando’ comigo. Ou ele que tem que conviver comigo sabendo que tudo o que ele me disse será usado em alguma situação engraçada contra ele.

10- Ceder

Pode ser uma das coisas mais difíceis desse mundo. Mas, uma hora ou outra, isso acontecerá. Por exemplo, em um baile, ele queria ir fantasiado de Darth Vaider, mas acabou indo de Chapeleiro Maluco e fizemos toda a sua fantasia. Embora as pessoas achem que somos muito parecidos, são poucas as coisas que temos em comum. Mas o fato de ceder uma vez ou outra nos dá o equilíbrio de que precisamos. E tem dado certo.

Todas estas coisas só foram possíveis porque escolhemos isso bem antes. Embora soubéssemos que tipo de pessoa queríamos ao nosso lado, também sabíamos que tipo de pessoa seríamos para quem estivesse conosco.

É disso que uma relação é feita de escolhas e muito trabalho. Mas os dois tem que saber exatamente o que querem e quem serão um com o outro. Não é fácil, mas vale a pena.

0

“Amados de Deus chamados Santos”

Domingo é um dia muito especial para mim. Como vocês já devem ter lido em alguns posts do blog, sou membro de  A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, geralmente as pessoas nos conhecem como “os mórmons”, mas o nome da Igreja é esse que está em negrito. Este ano, nas classes da escola dominical, estudamos o Novo Testamento e chegamos na leitura da epístola de Paulo  aos Romanos. Bom, naquela época, alguns dos santos da Igreja estavam se desviando do caminho do Senhor e precisavam compreender algumas doutrinas, se arrependerem e se voltarem ao Senhor.

Ao preparar a aula, ponderei  alguns dos princípios contidos nos capítulos  8, 12, 13 e 15 que falam sobre o que o Salvador espera dos seus santos (entendamos aqui que santos são as pessoas que decidiram viver no caminho do Senhor, mesmo imperfeitas. são o povo do Senhor, seus santos). Comentamos sobre a forma como os missionários (aqueles rapazes e moças que comumente vemos andando em duplas  e com uma plaqueta na roupa) são um exemplo de como devemos agir.  Então eu pensei, o que nos diferencia dos missionários?  Então lembrei de um discurso proferido pelo Élder Neil L. Andersen chamado “É um Milagre”  (https://www.lds.org/general-conference/2013/04/its-a-miracle?lang=por) da Conferência Geral de abril de 2013 no qual ele diz:

Se vocês não são missionários de tempo integral com um crach.á missionário preso ao paletó, está na hora de pintar uma plaqueta em seu coração — pintada, como Paulo disse, “não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo”.

Então, pensei muito nessa pergunta e no discurso e a fiz ao meu noivo (que também já foi um missionário), ele me respondeu que os missionários vivem leis maiores 24 horas por dia, oram a todo instante, estudam as escrituras por no mínimo, duas horas por dia, isso sem contar que eles as utilizam a toda hora durante o período de sua missão.  Durante essa conversa, lembrei que nós também podemos ter esse mesmo poder, afinal “todo membro é um missionário” e:

Porque todos quantos  são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. (Romanos 8:14, grifo meu)

Todos nós, depois do batismo, ganhamos o direito a companhia constante do Espírito Santo que será o responsável por nos orientar e fazer com que “morramos na carne”. Quando nos mantemos dignos de sua influência, não temos vontade de fazer nada ruim, apena as coisas certas. Mas, quando somos pessoas “normais” que temos casa, trabalho, estudo e outras preocupações manter esse mesmo padrão de excelência deles fica um pouquinho difícil, falo “pouquinho” porque não é algo impossível. E o que fazer?

Sede, pois, imitadores de Deus como filhos amados (Efésios 5:1)

Assim como quando éramos crianças imitávamos nossos pais, vestíamos suas roupas, fazíamos de conta que éramos eles ele. Assim podemos fazer como nosso Pai Celestial, afinal, reza a lenda que só imitamos aquilo que é bom. E assim poderemos fazer todas as coisas que vimos Cristo fazer, que viu o Pai fazer. Mesmo que isso signifique  abdicar de nós mesmos e de nosso “eu natural”, é algo que vale a pena pois aprendemos que o “valor das almas é grande a vista de Deus” (D & C  18:10). Não necessariamente precisamos ser um missionário para fazer essas coisas. Na época do Novo Testamento, existiu um homem chamado Estevão que, embora não fosse nenhum apóstolo era um homem cheio de fé, poder, graça, perdão e Espírito Santo, que realizava “grandes sinais e prodígios”  (Atos 6 e 7), ele bem que poderia ser qualquer um de nós com uma plaqueta gravada no coração.

Às vezes não é fácil, eu sei. A gente fica se perguntando: de que adianta tudo isso? As pessoas não querem me ouvir, não querem mudar ou…só pensam em si mesmas! Todo tempo empreendido para o Senhor não é perdido. Afinal, quem somos? A quem devemos agradar? Ou melhor, aonde está o nosso coração?  Cadê a nossa plaqueta? Mais que um objeto, ela é uma lembrança da nossa identidade.

Sei que Cristo vive e nos ama. Ele realmente sabe quem somos e ouve as nossas orações. Ele nos compreende. Sei que o  Pai Celestial tem um plano perfeito e quando as coisas não estão bem é porque Ele está querendo nos dar algo melhor. E podemos nos aproximar dEle ao seguir o exemplo de nosso Salvador. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

images (2)

P.S: Sim, eu sei…ando sumida. Tem acontecido tanta coisa na minha vida que ainda vou escrever para vocês (preparem-se). Estou trabalhando em mais três posts além desse mas são de temas diferentes, então tenho que aguardar a inspiração para escrever e juntar coragem já que ando meio afastada de computadores. Até a próxima!

0

Capítulo 5

UMA GAROTA OU UMA FECHADURA?

Pela tarde, resolvi concluir meus deveres. Ariel, no entanto, não parava de exibir seus poderes e ficou comigo durante todo o tempo. Era difícil tentar entender a energia cinética das reações quando eu queria estudar outra coisa: música. Mal podia esperar para que meu pai chegasse, à noite, tocaríamos juntos. Ele ia me ensinar algumas notas diferentes.

Até que a matéria não estava difícil, a senhorita Mônica dava conta do recado. Apesar de nova na escola, eu já a admirava como os outros alunos. No lanche minha mãe fez misto e suco de maçã. Levei uma bandeja para o “ cantinho da bagunça “, coloquei sobre a mesinha de estudo. O fantasma me olhava curioso.

– Que gosto tem? – ele perguntou entusiasmado e olhando o prato bem de perto, como estava ajoelhado próximo da mesa, debruçou-se sobre ela, até que seus olhos ficaram perpendiculares a linha do recipiente.

– Hã… pão, queijo e presunto? Uni as sobrancelhas aquela pergunta era óbvia. – O de sempre.

– É difícil saber “ O de sempre “ quando se tem 200 anos.

– Não parece. – tomei um pouco de suco.

– Porque eu morri jovem. Quando pretende usar seu livro? – ele trouxe o livro vermelho no ar, com um simples movimento de mão.

– O que eu escrevo nele? – olhei para Ariel ao destrancá-lo as folhas eram brancas, perfeitas.

– Que tal isso? Assim eu posso ir para qualquer lugar, onde você estiver – ele me entregou sua foto ( aquela do começo ).

– Você não pode sair daqui por quê?

– Bom, tenho que “ assombrar “ esta casa. Na verdade, o que me mantém preso é um assunto inacabado e eu não posso terminá-lo sozinho, aliás, nem sei o que é. Por isso eu pedi sua ajuda.

– Gabriella, telefone. – falou Gabriel que, mais uma vez, entrou sem permissão. Dessa vez, ele desceu as escadas correndo dizendo que eu estava falando sozinha. Desci para atender, era Fernando, que bom. Ele me informou o preço e eu disse que na segunda, antes de ir para a escola, pegaria o óculos na relojoaria. Aproveitei para convidá-lo para ir ao circo, demorou aceitar, mas no fim, acabei vencendo. Como Ariel estava comigo, voltamos para onde estávamos. Pedi que ele me ensinasse, ele aceitou e ficou feliz. O que eu soube depois é que, primeiro, você aceita sua condição, depois pede ajuda. Abri o livro, as páginas começaram a passar sozinha, um vento forte invadiu meu leito.

Aquilo mais parecia um filme, toda a minha vida passando naquelas folhas. Desde criança até os dias atuais. Não pude esconder minha surpresa, Ariel também estava surpreendido. Quando a ventania parou, ele falou ainda com os cabelos bagunçados.

– Isso é incrível! O normal é que o feiticeiro escolhe seu livro, mas com a senhorita acontece o contrário.

– Ai… por que as coisas normais não ocorrem comigo? – perguntei abrindo o livro. Comecei a escrever.

“ Lição número 1: Nunca pensei que realidade e ficção fossem uma coisa só. Há dois mundos e eu sou o elo entre eles. Quem sou eu? Uma garota ou uma fechadura?… “

– Qual o seu primeiro encantamento? Uma lição, um encantamento… Ah, que tal levitação de coisas? Isso é muito legal! – Ariel falava e demonstrava ao mesmo tempo. Depois , quem sabe voar! – Ele fazia gestos e andava por todo o quarto.

– Levitar coisas. Ok! –sentei no pufe e fiquei observando Ariel colocar meu livro de matemática sobre a mesinha. Gostei dessa utilidade.

– Concentre-se. – ele falou me encarando. Seu olhar era sério e desafiador. Fiquei presa, nervosa. Como eu podia confiar em alguém como eu confiava nele?

Olhei fixamente para o livro, mas nada. Ariel já havia sentado no chão, encostado na parede. 15, 30, 60, 100 minutos se passaram e nada.

– É, hoje não é meu dia. – olhei para ele suspirando.

No seu quarto, Gabriel começou a tocar bateria, peguei meu violão. Antes, escutei bem as notas dele e comecei a acompanhar o ritmo. A canção era animada, contagiante, Ariel começou a bater palmas.

Aquele momento foi mágico. Consegui sentir todos os meus poderes fluindo por minhas veias. Era como se eu fosse feita de música e magia é isso: música. Tocava e olhava para o livro. Ele começou a se mexer, aliás, não foi só ele , meu violão, teclado, bateria, os outros livros. Eu estava alegre e as coisas começaram a flutuar, eu não tinha controle daquilo. Comecei a ter medo, as lâmpadas piscavam. Eu já estava flutuando, só que uns 10 cm do chão.

Meu novo amigo tentava isolar o quarto com seus poderes. Ouvi batidas na porta.

“ Querida, acalme-se. Deixe fluir seus poderes com uma respiração lenta. Vamos lá, você consegue. “

Uau! Minha mãe estava na minha mente. E não era só ela.

“ Vamos, Gabriella! Eu não vou aguentar por muito tempo. Não posso usar meus poderes contra os seus. A senhora tem que me ajudar. “ Era Ariel, seus olhos estavam ficando brancos, as coisas começaram a rodar dentro do campo que ele criou para isolar o cômodo em que estávamos.

Assim como aquela avalanche de Poder surgiu, ela esvaziou-se. Não era eu-  quem fez aquilo, outra força veio de fora e me ajudou controlando o meu acesso. Caí sobre minha cama, as coisas ficaram em seus lugares e Ariel foi arremessado longe. Só não quebrou a janela, porque ele pode atravessar objetos sólidos. Sorte.

– Vocês estão bem? Perguntou Angélica na entrada.

– Acho que sim. – falei me levantando. Alguém viu alguma coisa?

– Não. Eu tive que parar o tempo, lembrar o feitiço é difícil quando você quase não tem poderes. Eu estava conversando com nossos vizinhos: o Charles e a Fernanda. Deixei-os tomando chá lá embaixo.

– Parar o tempo?! Ah, fala sério! Nós fazemos isso? – perguntei entusiasmada.

– A coisa mais perigosa que existe: o Tempo. – falou Ariel.

– Bom, eu vou descendo. Ariel, da próxima vez não deixe minha filha se controlar sozinha. – minha mãe não sabia para onde olhar.

– Hum… mãe, os poderes dele são anulados à medida que o meu aumenta. – falei mexendo os dedos em círculos.

– Depois conversamos, tenho visitas.

O circo me dava nostalgia. Muita gente. Levei a foto de Ariel na tiracolo cáqui que eu ganhei no dia do meu aniversário de 14 anos da minha avozinha. Estavam todos à minha espera. Me arrependi por não ter inventado um programa de família, uma dor de barriga repentina. ( ah não essa não cola desde os meus dez anos ), eu sei lá o quê.

De início, eles não me notaram. Maurício tampava o campo de visão da Erika e da Fernanda. Aquela estava toda produzida para a apresentação, esta, trajava um vestido malhado com estampas florais em diversas cores. Aliás, seu topete estava fofo! Maurício, também estava esplêndido: uma calça de várias bolsos nas laterais, verde e uma babylook preta. Ele tirava fotos da dupla.

Olhei para mim mesma. Uma babylook branca com coletinho preto, uma saia jeans da cor da bolsa e uma rasteirinha teriam sido uma boa? Coloquei as mãos nos bolsos, suspirei fundo e continuei. Fernanda me viu primeiro e acenou, os outros viraram.

– Que bom que veio! Senão você iria andar na prancha,companheira! – Erika incorporou seu personagem.

– Vocês estão esplêndidos – falei olhando a todos.

– Você está linda –disse Maurício tirando uma foto.

– Nossa, isso é um flash ou um pulverizador? – coloquei a mão no rosto. – Não gosto de fotos, câmera, filmadora ou qualquer outra coisa do tipo…

– Vamos entrar? – Maurício tirou outras fotos . Eles não vão me levar a sério mesmo.

– Estou esperando uma pessoa.

– Quem? – Erika perguntou ficando na ponta dos pés para ver por cima da multidão.

– O Fernando.

– Você é corajosa. – afirmou Fernanda que até aquele instante ainda não havia falado.

Foi aí que olhei para o Maurício e encontrei seu olhar que já perdera a vivacidade, ele estava me reprovando e aqueles dois olhos eram minha prisão. Mais não era somente isto que eu via, aquilo ia mais além.

– Não! – gritei.

– Não? – eles perguntaram assustados.

– Não… é, esqueci o meu, hum, é … o meu quarto destrancado. É isso! Hum … meu irmão vai fazer uma festa! – menti.

– Olha! Ali está o Fernando! – gritou Erika.

Eles entrarem na frente, Maurício ficou atrás de mim . Ele  me falou que eu não sabia mentir. E pra falar a verdade eu não sabia. Me disseram que a mentira tem perna curta. E tem.

“ Não! “ Eu não queria ver o pensamento dele, aliás, eu não queria “ ler “ a alma de ninguém. Logo, de quem do Maurício! Eu não permitirei.

Mal entrei e os desastres começaram. Primeiro, encontramos a Bianca que grudou feito carrapato no Maurício. Depois, na hora de subirmos para a arquibancada, eu tropecei. Fernando me apoiou para que eu não caísse.

As apresentações eram esplêndidas, tudo estava muito animado. Fernanda gravava e eu tirava algumas fotos, quando posicionei a câmera mais uma vez, um garoto do outro lado da arquibancada olhava em nossa direção. Ele era alto, branco, cabelos pretos, nariz fino, todo vestido de preto. Quando nossos olhares se encontraram , por um instante, seus olhos ficaram totalmente brancos. Tirei a visão  quando olhei novamente, ele havia sumido.

Seria engraçado se todos pudessem ver. Ariel estava, lá embaixo com os funcionários do circo imitava seus gestos e, na hora do mágico, ele fez com que os truques saíssem errados. Eu sorria, era hilário. Mas, nada tirava da minha cabeça a imagem daquele garoto.

Em uma outra cidade, Amanda Luana pesquisava sobre seu assunto favorito: o sobrenatural. Ao ver o link sobre a pequena cidade de Opala, não pensou duas vezes. Iria procurar e encontrar, quem sabe, a maior aventura de sua vida. Soube das fendas misteriosas que apareciam no lugar, nuvens estranhas que apareciam à noite. Aquilo a fascinava, as pessoas não acreditavam nela, mas ela sim e isso bastava. Fez as anotações que podia, arrumou sua mochila e uma bolsa de viagem. Pegou seu cachorrinho dálmata, o Spoke e o colocou em cima da cama.

Os lençóis que sua mãe lavara, serviram de corda. Começou a amarrar suas pontas. Enquanto fazia isso, olhou-se no espelho: os olhos arredondados negros como a noite, o nariz pequeno afilado e arrebitado na ponta, a boca fina e sinuosa a fazia lembrar de sua mãe. Aliás, era o retrato da progenitora. Amarrou seu cabelo preto comprido em um rabo de cavalo, colocou a jaqueta e sentou-se na penteadeira, olhando seu reflexo, escreveu uma carta aos seus pais. Contou-lhes de seus sonhos e pediu-lhes tempo. Disse que não estava louca, se não fosse tudo como “ louco “, Einsten seria apenas um simples professor ( sem desmerecê-los ), não um gênio.

– Vem, Spoke. Não se preocupe, guardei toda a minha mesada dos últimos seis anos e o trabalho de 2 anos na livraria, me deu um bom dinheiro que investi na poupança. Vamos ficar bem. – ela olhou da janela até o chão e começou a descer.

Não olhou para trás, uma lágrima atrevida caiu de seu olho, mas não foi acompanhada por outras. Amanda pegou um táxi e foi para a rodoviária, tinha 17 anos, podia comprar uma passagem, mas deixaria pistas de seu paradeiro. Pediu a um morador de rua que comprasse uma e, em troca, pagou-lhe um jantar no restaurante local. Quando embarcou, à medida que o ônibus se afastava de sua cidade, a esperança de ver aquilo em que acredita fumegava em seus olhos e era maior que a saudade que ela sabia ter de casa.

À noite, o desequilíbrio entre o mundo real e o mundo mágico se acentuava, porém não era tão perigoso. A presença da guardiã e o ressurgimento do Caliban afetavam o equilíbrio, o pouco que tinha.

Eles estavam famintos, a fome os dominava. Há anos que não sentiam a força da carne tão forte. Aliás, não era para sentir, o Caliban começava a entrar em ação. Eram quatro, sedentos e perigosos e, acima de tudo, presos.

O gatinho do senhor que morava na descida da rua de Gabriella, não era de sair à noite, mas tudo estava errado. O ancião que tratava o animal como um filho, foi atrás dele. Abriu a porta da varanda, o vento estava frio, amarrou o roupão de algodão felpudo azul, ajeitou os chinelos melhor no pé, colocou a garrafa com água segurando a porta.

– Frederico, cadê você? Vem cá, garoto. – a voz rouca chamava.

Estava escuro, um homem de preto apareceu do outro lado da rua com o bichano no braço. Atravessou e aproximou-se do velho.

– Aqui está. O senhor não deveria aparecer na rua a essa hora, é perigoso. – seus olhos demonstravam confiança.

O ancião agradeceu e quando virou as costas, o homem disse que ele apesar de velho, tinha uma força vital extraordinária e muito apetitosa. Os rapazes estavam de preto, alvoroçados, sem sentidos. Ao verem aquela presa, frágil, indefesa, não pensaram duas vezes. Só queriam saciar a sede. O homem permaneceu em pé observando, nem o gato saiu ileso.

– É hora de voltarem a dormir, já os usei o suficiente. – eles desapareceram.

Charles e Fernanda não chegaram a tempo, o senhor Gonçalo estava estirado no chão. Apenas sua alma permanecia em pé. Os dois irmãos estavam reluzentes.

– Eu morri? – ele perguntou olhando seu corpo.

– Sim. – disse Charles – Somos anjos de passagem e você vai…

Eles preparavam-se para o transporte do ancião.

– Não. – uma voz veio da escuridão. Ela era forte, firme. – Ele vem comigo.

– Não podemos deixar, assim, ele vai ficar preso. – intercedeu a garota.

– Isso é uma ordem. Sua alma vem comigo.

– Eu não vou com você, eles estão de branco. A cor que você está vestido não é confiável. Pra mim, você é um…

– Não diga mais nada. De um jeito ou de outro, você virá comigo. Aceite. – ele estendeu a mão.

– Mas… – continuou Fernanda.

– Cuidem do seu protegido. Ele é meu – erguendo as mãos para o ar, os dois sumiram.

Os anjos ficaram ali, parados, não podiam fazer nada. Perceberam que o desequilíbrio aumentara. O Caliban estava ganhando. Eles voltaram e ficaram rondando a casa de Gabriella. Outro ataque parecido aconteceu na saída da cidade, mas ele estava lá, então era melhor não fazer nada.

Quando acordei, Ariel estava em pé de frente à minha cama, só observando. Sua expressão mais angelical do que nunca, a luz que entrava pela janela conferia-lhe um brilho a mais. Deu-me um bom dia. Meu livro vermelho estava sobre o computador, trouxe-o levitando. Meu professor elogiou minha rápida aprendizagem.

– Então, o que vai fazer hoje? – ele perguntou andando de um lado para o outro.

– Vou à biblioteca, ver os arquivos antigos da cidade.

Por que a senhorita fez essa careta? – ele virou o rosto de lado.

– Eu não dou conta nem dos livros da escola, imagine de arquivos de dois séculos! Sabe, não me leve a mal, mas essa estória de senhorita não pega…

– Não PEGA? Eu só a chamei, não a toquei eu juro! Ele cruzou os dedos sobre a boca.

– “ Não PEGA? Quer dizer que está ultrapassado, só idosos falam assim, ah, e os professores, claro nem todos.

– Eu tenho duzentos anos e alguma coisa.

– 216, eu acho. – levantei, esfreguei os olhos, bocejei um pouco. – Tive um sonho estranho, com você. Bom, eu não era eu. Estávamos em um jardim e tinha uma árvore, você segurava um embrulho quadrado, havia um outro homem, não sei bem. Eu, bom, ela, ah, você entendeu, fui atrás dele. Você sorria, mas estava infeliz. Me senti egoísta por não dar-lhe atenção.

– Talvez tenha sido uma lembrança, não lembro muito da minha vida. – seu semblante mudou, ele sofria. Disse que ia banhar e deixei-o só. Me arrumei, desci para tomar café com minha família.

– Nossa! Quanta alegria, você está radiante, filha.

– Não fiz nada de mais, pai. – falei ao beijar-lhe o rosto, abracei minha mãe e mexi no penteado do Gabriel, ele odeia isso.

Eu estava feliz porque me lembrava de sábado, que Maurício trocou aquela patricinha da Bianca, para andar com a gente. Estava mais feliz ainda porque ele defendeu o Fernando do idiota do capitão da seleção que fazia chacota dele. Ele era uma pessoa e tanto, ele disse que tinha uma surpresa para mim e ia levá-la para a escola.

– Podemos ir? – perguntei ao meu pai sem ter, ao menos terminado de comer. Vou escovar os dentes. – subi as escadas correndo.

Desci do carro. Bom, tirando a parte de que ainda tenho medo da escola e das pessoas, a visita a biblioteca, o dia prometia. Erika estava à minha espera.

– As fotos ficaram ótimas, parabéns , Gabi. Posso te chamar assim? O que você fez hoje? Está diferente. Que cabelo branco é esse?

Cabelo branco? Não, era possível!

– Pode chamar sim. Cabelo branco? Como assim? – ela me mostrou um espelho. Na verdade, uma mecha do meu cabelo estava com a raiz branca, só uma mecha, na parte frontal. – Deve ser o shampoo. – Espero que seja isso.

Caminhamos até a sala de aula, vimos Fernanda. Onde ela estava? A professora Mônica nos cumprimentou.

– Ai, não…

– O que foi Erika? – perguntei assustada. Se fosse mais um cabelo branco, eu surtaria. Começaria a gritar, a pular…

– Teste de química surpresa. A senhorita Mônica pode até ser legal, mas se ela nos cumprimenta no corredor, especialmente nesse, é prova. Vou avisar aos outros. – ela saiu correndo.

Abri  meu livro vermelho e olhei a foto de Ariel, disse que ele precisava me falar sobre essa história de cabelo branco, distraída caminhava com o livro aberto nas mãos.

– Você não pode viver um dia sem topar nas pessoas? – Maurício falou me segurando.

Amarelei. O que eu falaria? Meu HD não processava, a informação. Pare. Socorro.

– Desculpe. – ufa! Só “ desculpe”? Não era bom. Fui mal…

– Com quem você falava? Nossa você envelhece muito rápido.

– Eu, não falava com ninguém, a não ser com … comigo mesma. – ele percebeu meu cabelo branco azar danado.

– Calma, só estou brincando. – ele disse ao ver minha reação.

Ariel apareceu do nosso lado. Apontou para ele, mediu sua altura, ele era menor, ficou na ponta dos pés, mexeu no cabelo dele.

– Para!

– Hum … com o quê?

– Eu estou falando com, o Fernando! – menti- Espera aí, saí correndo e deixei-o sozinho. De novo, não, de velho.

O teste não estava tão difícil, mas para mim era um assassinato. Quem sabe se eu tivesse dez por cento do Fernando, poderia me dar bem. Ficando na média, estava ótimo, quer dizer, maravilhoso. Olhei para a professora, ela parecia a Mônica mesmo. Ela estava observando a prova que tinha em mãos. Comecei a ver sua mente, muitas outras vieram à tona. Pedi a Ariel que me ajudasse, ele me disse que eu era a chave de mim mesma. Só eu poderia me controlar. Tantas pessoas, era muito pra mim, um redemoinho. Aí… suas vozes aumentavam era ensurdecedor. A última coisa que vi foi a professora me apoiando para eu não cair no chão.

Abri os olhos devagar, minha mãe estava sentada ao meu lado.

– Você está melhor?

– Sim. – respondi. Eu deveria estar melhor de quê?

– Que susto, hein, Gabriella! Foi só uma queda de pressão.

– Eu disse pra você não comer tão rápido.

Quando a enfermeira saiu, minha mãe perguntou onde Ariel estava. Eu respondi que ao lado da porta, ela me deixou a sós. Pedi que me deixasse ficar, contrariada, disse que sim. Caminhou em direção a ele , cochichou algo. Percebi que ela não queria que eu escutasse. Fingi que não vi.

– Quando aparecem para um humano, fantasmas de passagem se tornam responsáveis por ele. Não é mesmo Ariel?

Angélica em uma de raras vezes deixou sua postura calma. Afinal era sua filha. Ela temia pelo o que pudesse acontecer com a garota devido a tantos acontecimentos.

O fantasma permaneceu imóvel, braços cruzados, testa franzida. A mãe de Gabriella passou pela porta que ficou aberta, ele a fechou com o poder da mente bruscamente.

Eu não podia acreditar naquilo, Ariel zangado. Levantei da maca. Fiquei sentada, quase desmaiei novamente.

– Quem ela pensa que é? – gritava ele.

– Minha mãe? – estranhei a pergunta e fiquei assustada.

– Isso! A sua mãe! Não a minha!

As coisas começaram a voar por todos os lados. Mas, nada me atingia, eu estava protegida. Nada se aproximava a menos de um metro de mim. Ele explodia de cólera, seus olhos mudaram de cor, estavam vermelhos fumegantes, ardiam. Aquilo me deixara triste e eu não sabia por que. Um sentimento de culpa me dominava. Eu era culpada, causei tudo aquilo. Eu não queria…

Aí, ele olhou para mim. Ao perceber que eu chorava aquela raiva esvaziava de seu rosto, aos poucos ele voltara a ser o Ariel que eu conhecia. Sentou ao meu lado, tentou me tocar, mas era impossível. Ele era um fantasma.

– Desculpe-me, senhorita. Um cavalheiro não deve “ perder “ a cabeça. Bom, eu já estou morto. Apesar disso, não devo perder os modos. Sinto muito.

– Tudo bem. – enxuguei a última lágrima e levantei definitivamente. – Já vai começar o recreio, preciso comer alguma coisa. Vem comigo?

Fomos ao refeitório, mal sentei com minha bandeja o sinal tocou. Comecei a comer, aquilo não me atingia de forma alguma. Eu estava “ só “ e nada poderia atrair minha atenção, mas eu estava enganada.

Entre os alunos que formavam a fila para pegarem sua bandeja, eu o vi. O mesmo cara do circo, ele me observava. Roupas pretas, o olhar fixo. Desviei minha atenção, Erika chegou pulando com a bandeja em mãos foi logo perguntando como eu estava, o que havia acontecido, o que fizeram comigo, se fui tratada bem…

– Droga. – disse ela por fim – Eu quero uma matéria  polêmica, explosiva. Uma grande repórter precisa de grandes matérias.

– Desculpe não posso ajudá-la. – falei a meia- voz, procurava com os olhos aquele garoto, ele já tinha sumido.

– É uma pena que esteja bem. – falou Bianca sentando na minha frente. Toda a escola parou.

Apenas a olhei, mirei seus olhos  e vi sua mente. Ela me odiava, eu era uma ameaça. Bianca odiava garotas frágeis, delicadas que precisavam de proteção. Aquela loira de cabelos compridos e olhos azuis não admitia suas verdades. Negava a si mesma e procurava nos outros a sua culpa. Não falei nada, continuei comendo.

– Você é retardada ou o quê? – ela afastou minha bandeja.

– Fala Bianca. – olhei para ela , senti pena.

– Muito bem. Assim que eu gosto. Eu quero que você saia do caminho, mosca- morta…

– Ei, garota! Você se banhou com água fervente quando deixava seu cabelo escorrido que nem macarrão? – Erika a puxou pelo braço.

– Solta ela, Erika. – falei . Ariel queria agir, disse-lhe que “ não “. Levantei, mas Bianca me deteve. Eu não aguentava mais aquilo.

– Fala, Bianca! Eu não te fiz nada! Que tanto ódio é esse? Eu não estou no seu caminho, não quero nada que te pertença. Como você disse eu sou uma mosca- morta o que eu posso fazer? – ironizei. Ironia era algo novo. Saí correndo para conter as lágrimas. Na saída do refeitório, aquele garoto novamente. Fiquei escondida na biblioteca. Fernando estava sentado ao lado da entrada.

– Posso me sentar aqui? – perguntei com a voz meia rouca.

– Eu estou tentando não chorar. Homens não choram.

– Então eu choro por mim e por você. – sentei ao seu lado.

– O que foi? – ele perguntou

– A Bianca me odeia. Aliás todos me odeiam.

– TODOS, não. Há pessoas que gostam de você, apesar de não te conhecerem bem. Não chore tanto assim. – ele passou a mão na minha cabeça.

Maurício nos encontrou, ele não teve nenhuma reação ruim, pelo contrário, foi muito amável. Mas ele teve um pensamento “ se não pode com junte-se a ele “. Nada a ver, porque eu estava me tornando amiga do Fernando, só isso. Ele sentou-se ao nosso lado, ficamos fixos, imóveis, calados. Cada um compartilhando a dor do outro. Quando bateu a campa, Macbeth, a bibliotecária, abriu a porta.

– O que fazem aqui, garotos? – ela perguntou meio receosa.

– Só estamos nos escondendo de uma galera que quer jogar ovos nela, hoje é seu aniversário. Sabe como é , dona Mac – convenceu Maurício.

– Ah, é você, Maurício. Então é melhor irem para a sala de aula, já bateu a campa.

Saimos. Cada um foi para um canto diferente. A próxima aula seria no laboratório de língua espanhola. Sentei na última cadeira da sala, lá no fundão. O senhor Alejandro entrou no local, todo vestido a caráter. Iriamos aprender sobre a cultura mexicana e algumas expressões idiomáticos.

Ariel permaneceu andando por toda a escola, fez uns experimentos de química do 3º ano darem errados, causando confusão no laboratório. Trocou de posição os quadros que o diretor mantinha em ordem das diversas fachadas da escola causou muito alvoroço. Não se sentia livre há 200 anos, mas ainda estava preso na terra. Angustia e alegria ao mesmo tempo.

Amanda finalmente chegou aonde queria: o local onde as rachaduras foram abertas na pequena cidade de Opala. Alguns geólogos trabalhavam no local ainda. A garota aproximou-se da equipe.

– Oi. – ela disse segurando as alças da mochila.

– Não deveria estar aqui mocinha – falou um homem meio barbudo e de óculos segurando uma fita nas mãos.

– É, eu sei. É que me interesso muito por geologia quando vi na tv que vocês estariam aqui não pude resistir. O que causou isso seria um movimento esperotérmico?

– Ainda não sabemos bem. Oi! Sou Bruno, estagiário. Estou ajudando-os. – O garoto tirou a trena da mão e estendeu-a. –Talvez seja só um desmoronamento interno.

– Amanda. Prazer. O que tem lá embaixo?

– Terra e mais terra, – falou o homem mais velho entrando no buraco. A senhorita quer vir?

– Sim, muito! Vem, Spoke!

O  caminho era escuro, os três desceram mais o cachorro. Havia uma equipe, trabalhando, recolhendo amostras de terra escavando, a garota caminhava atentamente. Prestava atenção em tudo, em cada detalhe: a terra fofa e preta que deixava as marcas de pegadas, o odor úmido de terra molhada, água que umedecia as paredes e as luzes calculadamente empregadas na iluminação do local.

De onde vem tanta água?

Aqui ao lado, há tubulações de água e um pouco mais adiante a rede de canais de esgotos. Tivemos sorte por ele não ter sido atingido. Isso é estranho porque um provável deslocamento de terra não se limitaria a uma área tão limitada. – disse Bruno entusiasmado.

– Talvez o concreto das paredes o tenham impedidos. Qualquer hipótese bem fundamentada deve ser levada em consideração. – falou o chefe da equipe.

– Existe alguma testemunha?

– Não. Se não for incômodo, poderia me dizer o porquê de seus levantamentos?

– Só curiosidade e espírito geológico.

Amanda tropeçou em uma rocha e caiu por terra. Ao cair viu um pingente no chão. Quando pegou-o escondida, este queimou a sua mão. O formato dele era um círculo com o “ A “ de plano de fundo e um “ C “ por cima . Provavelmente era de ouro.

– Tenho que ir. Meus pais me disseram para não demorar. Além disso, ainda nem almocei. Obrigada e boa sorte com as pesquisas.

0

Como ser feliz?

Sim, eu poderia começar isso de muitas maneiras, poderia até criar um teorema bobo daqueles textos de autoajuda esse seria apenas mais um desses? Bem, de que será que estou tentando me convencer? Se bem que eu gosto de falar comigo mesma, é como se eu gritasse comigo e realmente acordasse com isso. Sei lá, eu tenho isso,

na maioria das vezes…

Acho que deveria haver dois momentos na vida, bem marcados: aquele em que a gente apanha antes de aprender e aquele em que a gente é realmente responsável, em outras palavras, maduros, mas nem sempre chegamos nessa fase aos 20 e provavelmente não será aos 40, quem sabe se duplicarmos mais uma vez…. de qualquer forma, isso significa que aprenderemos muito apanhando ainda, até chegar ao “basta, cansei, serei uma borboleta agora” tudo bem, mais um devaneio meu  Voltaremos ao assunto base: a FELICIDADE  e quem achou que ela não tinha nada a ver com isso, claro que tem e até que eu chegue a compreendê-la ao meu ver, muitas pessoas terão que me aguentar teorizando por um bom tempo. Talvez porque ela seja uma questão de prática. Não é algo do tipo que a gente brinca ou treina, ninguém brinca de ser feliz…ou é ou não é, mais simples que isso só fazer “Romeu e Julieta” para o lanche.

Na verdade nem eu sei a razão do porquê que eu escolhi este tema para escrever, a gente gosta de se enganar não é verdade? Criamos expectativas que nem nós mesmos somos capazes de suprir, não que a solução seja acabar tudo, mas quem sabe, usar um pouco mais de razão, com moderação claro, seria esse o segredo? Um dia, um garotinho bateu na minha mão, quando eu disse “toca aqui!” e criamos uma grande amizade, mesmo que eu tenha idade de ser sua mãe, naquele dia, eu aprendi como ser feliz, ele não precisava de muito, apenas dei-lhe papel e atenção ah… e várias canetinhas coloridas, foi um belo dia. A FELICIDADE, a verdadeira, não falo das genéricas, nem das que a gente inventa, mas aquela simples, que não precisa de muito, aliás, de muito mesmo, só criatividade, é preciso criar para ser feliz: criar o momento, o local (re)criar as pessoas, aquele garotinho me (re)criou naquela manhã e foi realmente um belo trabalho. Naquele dia eu decidi criar, assim…devagarzinho, como quem não quer nada, almejando tudo que eu posso alcançar efetivamente e me livrando de expectativas surreais, a  gente aprende a dosar a vida, a idade, o momento, a intensidade, mas jamais refreamos a felicidade, nem tardamos…ou somos ou nunca seremos.

0

Capítulo 1- Sempre a Verdade

Capítulo 1- Sempre a Verdade

Bom, aqui estou eu tentando ser ao menos um pouco convincente, para mim mesma, é claro. Sentada em um banco enquanto as outras pessoas da minha idade, estão curtindo a vida. Para falar a verdade nem sei o porquê eu vim para cá. É óbvio que não é o meu lugar. Estou começando a me arrepender de não ter coragem suficiente para mandar alguém calar a boca. Mesmo que seja seu melhor amigo. Jônatas é muito insistente quando quer, nossas mães eram amigas na faculdade e crescemos juntos, mas, na adolescência nossas vidas tomaram rumos diferentes. Ele cada vez mais foi se tornando popular, eu, bom, a nerd antissocial.

Jônatas é o típico “famosinho”. Moreno, alto, nem forte demais, nem magrelo. Cabelos pretos, olhos castanhos, com covinhas quando sorri, nariz afunilado. Super cavalheiro e muito esforçado. Nem sei como ainda se mantêm solteiro, dizendo ele que ainda não encontrou a garota certa, acredito que todas naquele salão tinham uma queda por ele. Menos eu. Para falar a verdade, todas são muito bonitas, bem arrumadas, perfumadas. Não que eu não seja como elas fisicamente, na verdade, até que eu me encaixava no padrão de beleza cruel pelo qual nós adolescentes somos massacradas. Mas a depressão me fez mudar. Ganhei um pouco de peso, deixei de me “produzir” quando saía e minha auto-estima não estava lá essas coisas.

Essa sou eu, Ana, uma garota de 16 anos. De bochechas expressivas, cabelo castanho claro, comprido e ondulado, olhos da mesma cor e pele amarelada. Tímida, sonhadora, uso óculos estilo Harry Potter, não porque eu goste, mas miopia é algo que me acompanha desde os 5 anos de idade. Também tenho algumas outras doenças rotineiras, como uma anemia infinita e taquicardia. Pergunto-me todos os dias o que eu faço neste mundo porque é óbvio que não me encaixo bem aqui. Eu observava aquelas pessoas conversando normalmente e eu era incapaz de puxar assunto com alguém desconhecido. Sempre era assim, Jô sempre conseguia me arrastar para as sociais da escola, eu o observava e no, fundo, desejava ser como ele. Ele tinha o dom da comunicação, sabia se relacionar com as pessoas, era algo invejável a facilidade com que estabelecia vínculos.

Na boa, eu estava bem. Na escola, todos me conheciam, sabiam como eu era, então me poupavam de maiores esforços. Meus pais nunca entenderam o porquê de eu ser assim, dos quatro filhos, a única menina era eu e, para falar a verdade, nunca fiz o tipo que queriam. Eles me amavam, mas nunca souberam como lidar comigo. Peguei meu celular. 21:30 hrs. Eu sabia que eles não me ligariam porque estava com Jô e, claro, que eles torciam para que eu me aproximasse das pessoas. Sei que sofreram muito quando minha depressão começou, eu só comia e dormia. Nada mais. Meus irmãos tentavam me animar, mas tinha um jeito peculiar de fazer aquilo, diziam que eu tinha que sair, que estava engordando, que precisava me tratar, nada daquilo me fazia voltar à realidade. E quando isso acontecia, eu não tinha coragem para conseguir sozinha e não sabia pedir ajuda. Nem meu melhor amigo sabia como lidar comigo e, por diversas vezes, eu o expulsei do meu quarto. Não sei nem como continuamos nossa amizade depois disso. Eu ainda não estava totalmente recuperada, mas o pior já tinha passado.

As pessoas costumam achar que depressão, na minha idade, é frescura. Queria que fosse assim, mas não é. Quando achamos que nosso mundo vai acabar, é porque realmente vai para aquela pessoa e o mínimo que ela precisa, é de respeito. E não é dizendo o quanto ela está mal ou feia ou gorda que vai ajudá- la a sair dessa situação. Deve ter sido aí que parei de confiar mais ainda nas pessoas. Ninguém sabia lidar comigo e eu não sabia ensinar o jeito certo de fazê-lo. Então, era sempre assim. Eu já deveria estar acostumada. Guardei o celular na bolsa, não tinha nada de interessante no facebook e muito menos no whatsapp. Coloquei meu braço sobre a mesa e baixei a cabeça, desejando ansiosamente que Jônatas cansasse e quisesse ir embora.

Estava meio escuro, apenas as luzes, brincando no salão e colorindo as mesas brancas circulares. Era vez da música eletrônica reinar, o DJ era bom, confesso. Tentei contar os minutos, mas era muito entediante. A maioria da escola estava lá. Aqueles rostos eu veria no ano seguinte, mas havia algo diferente no olhar dos formandos, era a última vez juntos, a cada segundo que passava, uma despedida. As moças em seus melhores vestidos, os rapazes de roupa social. A faixa brilhante em cima do palco dizia: O Beira Rio deseja a todos os alunos ótimas férias e novos recomeços. Ri comigo mesma, eu precisava mais que todos de um recomeço.

Ei, menina, o que falamos sobre isso?- eu levantei a cabeça reconhecendo a voz, ele sentou ao meu lado e tirou minha bolsa da cadeira para isso.Colocou  um coquetel pra mim. Ele sorriu olhando para o seu copo.- Essa é uma promessa que ainda não quebramos: diversão sem álcool.- era nossa promessa, odiávamos aquele cheiro de álcool desde pequenos.- Sua cara está horrível, seus pais vão achar que te droguei ou algo do tipo.- ele sorriu e eu também.

E talvez fiquem eternamente gratos por alguma vez na vida, eu agir como uma adolescente normal e problemática o que é esperado da nossa idade.- bati meus dedos sobre a mesa e fiz a cara de sempre implorando por misericórdia para que ele me levasse para casa. Ele apenas olhava pra mim, cerrando os olhos, claro que eu não conseguiria o que queria.

Queria que você se divertisse.- ele suspirou- Na boa, não quero ter que voltar mais e mais vezes naquele quarto e dar de cara com você me expulsando. A vida segue sabia?- esse sermão eu conhecia de cor- An, só quero ajudar, sempre tenho as melhores intenções, essa festa era uma delas.

– Eu me diverti. Por exemplo, a Mariana está super a fim de ti, mas se embebedou antes de colocar em prática seu plano. Ela tropeçou na toalha da mesa sabia? Não que seja engraçado a desgraça alheia, mas a conhecemos bem para saber que este último ano dela não foi poupado de crises e vexames em público. E olha só, esse DJ não é tão bom a ponto de me fazer sair daqui dançando e ir pro centro da pista dançar loucamente. O discurso do diretor Soares também foi.. hum.. singular… principalmente a tentativa dele de dar instruções sobre sexualidade a uma multidão de hormônios em seu último dia de aula. E eu pude observar e aprender como ser uma adolescente normal, sem dúvidas, experiências que levarei para o resto da vida- declarei, a essa altura Jô sorria alto.- Creio que me diverti mais que você.- olhei para ele que mal se aguentava na cadeira. Ele era o tipo de cara que merecia ser feliz, sempre me fazendo sorrir e me incentivando até mesmo nos piores momentos.

– Sua ironia é uma comédia, sabia? Merece até que eu a leve agora, mas, antes terá de dançar comigo uma música. Vamos lá, sem medo. Uma dança só e eu levarei a princesa até seu castelo antes da meia noite.- ele também ironizou. Nossa amizade também era carregada de ironias, a gente não se levava a sério. Estendi a mão e ele me levou até a pista.- Muito bem, garota!- ele segurou uma das minhas mãos e pousou a outra sobre minha cintura. Todos estão olhando pra gente, não olha!- Ele sorriu aquele risada gostosa.- Eu sou o cara!

-Idiota.- sorri e pousei meu rosto sobre o ombro dele.- Quero ir embora- suspirei.

– Plantamos o ódio essa noite. Sabia que o Rafael tem uma queda por ti? Bem que você podia dar uma chance para o cara- ele falou ao me rodar pelo salão. Fuzilei-o com os olhos– Só quero que saia dessa. Ele não te mereceu nunquinha, nem em 1000 anos não te merecia. Ele foi embora, você deveria deixá-lo ir também- Eu sabia aonde ele queria chegar.

Não foi só por causa dele que fiquei daquele jeito. Você sabe melhor que ninguém, Senhor Hitch- ele deitou a cabeça para trás e sorriu novamente- Não é só porque não vou com a cara das suas ficantes que você precisa terminar sem ter ao menos ter começado.

– É que estou esperando você morrer e reencarnar em alguém que eu possa namorar, sua besta.- ele beijou minha testa. Uma das coisas que nos fazia ser como carne e unha era que ele tinha coragem de me desafiar enquanto os outros tinham medo de mim – Claro que você preferiria voltar como uma assombração para atormentar minha vida- ele declarou.- Hora de ir, princesa.

– Na boa, ainda não encontrei algo pior que idiota pra te chamar.

-Ah, você encontrou um meio inteligente de detonar comigo, mas é certinha demais para usá-lo contra mim.- ele disse enquanto me acompanhava em direção à porta.- Falou aí, rapazes! Marcamos algo depois- ele acenou para seus amigos.- Você poderia ter amigas mulheres, sabia?

– Aqui? Depois daquela dança, elas me querem morta. Além disso, a Luísa está no Canadá, literalmente, hahaha. Ás vezes, acho que tudo isso é apenas um sonho. Fico imaginando como seria ser como elas, sabe? Elas são desejadas, os rapazes babam por elas.- falei prendendo meu cabelo, enquanto ele destrancava a bicicleta.

– Você não precisa ser como elas. Basta ser a mesma que é aos olhos dele e aos meus, já é o suficiente, já te disse isso, garota.

– Nem todo assunto precisa chegar nele.- condenei-o.

– Nem precisa, seu pensamento está com ele, sempre.- Jônatas falou empurrando a bicicleta.- Sempre a verdade-lembrou.

-Sempre a verdade.

A volta para casa foi divertida, não havia muito trânsito, eram dias como aqueles que precisávamos para nos divertir. Minha bicicleta tinha garupa, mas a minha cestinha era odiada por Jô. O jeito foi ir no guidom da dele. A família dele iria à praia, ele tentou me convencer a ir. Meus pais adorariam, mas eu disse não. Nossos pais eram sempre muito unidos. Acredito que deveria existir uma ‘liga pró-Ana’. Era 15 minutos de bicicleta da escola para as nossas casas. Éramos vizinhos e morávamos um de frente para o outro. As janelas dos nossos quartos também.

Olá família 2!– gritou Jônatas assim que paramos na frente da minha casa.- Eu não droguei a filha de vocês, ela fez isso sozinha. Não se pode confiar em adolescentes! Ai, projeto de viciada!- ele gritou porque chutei a canela dele. Ele sabia que eu tinha a chave, mas não perderia oportunidade.- Vou nem me dar o luxo de ficar na janela hoje porque a sua estará fechada certamente. Boa noite, An– ele continuava sorrindo.

Perspicaz, jovem.- beijei seu rosto- Boa viagem.- ele me abraçou.

Sempre a verdade?- ele perguntou sem me soltar.

Sempre a verdade.- sorri comigo mesma.

Vai ficar bem?- ele perguntou baixinho em meu ouvido.

Vou. – e pela primeira vez, em muito tempo, estava sendo verdadeira comigo mesma. Ele também percebeu isso. Disse algo, mas não entendi.

Abri a porta e entrei, meu pai assistia televisão no sofá verde. Cumprimentei-o e ele perguntou se eu queria algo. Minha relação era melhor com ele, acho que por eu ser a princesa da casa e a caçula. Sentamos no balcão da cozinha e contei como havia sido a festa enquanto comíamos o resto da torta de frango que minha mãe tinha feito. Ele não pareceu surpreso com nada, meu comportamento era o mesmo sempre. Senti que ele queria algo mais e certamente esperava para que fosse algo diferente naquela noite. Eu o havia desapontado mais uma vez. Subi para o meu quarto, tomei um banho, vesti meu pijama estrelado. Deitei sobre a cama e olhei para o teto, fiquei imaginando o que meus pais diriam se eu quisesse colocar papel de parede no forro, algo luminescente para brilhar a noite, assim eu poderia imaginar a imensidão do Universo.

Lágrimas começaram a se formar. Eu queria ser uma pessoa normal sem as pessoas criarem expectativas sobre mim. Queria ter novidades para meu pai, ter um namorado que me fizesse ficar acordada até tarde falando besteira pelo telefone, não ter aquela compulsão por comida que a depressão me fazia ter, nem ter de tomar aqueles remédios e ir na psicóloga uma vez por semana. Queria nunca ter conhecido ele. Nem sofrer com aquelas ameaças constantes pelo telefone. Eu não queria aquela vida e todos os dias, no banho, queria que minha pele saísse como uma roupa que eu pudesse trocar todos os dias. Aos poucos fui adormecendo e toda aquela preocupação ficou para uma outra vez.

Acordei cedo, como todos os dias, mas não era por ter aula, afinal, era sábado. Mas aquela sensação de férias deveria me fazer bem de alguma forma. Meu irmão, o único que morava comigo tinha saído para o treino, acho que ele é um obcecado por academia. Por isso deve ter escolhido cursar Educação Física. Rodrigo é aquele típico cara de 18 anos pelo qual as garotas babam, forte, galanteador, cabeça raspada. Olhar profundo e negro, pele bronzeada. Não sei como meu irmão consegue isso sem nenhum esforço. Ele tem uma namorada, a Michelle, eles são um grude, chega a ser nojento vê-los juntos, muito “momorzinho” para cá e lá, tudo completamente desnecessário. Somos como qualquer casal de irmãos, bom tirando que os outros dois já são casados e tem família, formamos uma dupla perfeita, ele me importuna sempre que pode e eu não perco minhas oportunidades, mas defendemos um ao outro melhor que ninguém.

Por falar nisso, meus pais são casados há 27 anos. Emanuella e Geraldo se conheceram na faculdade, estudaram juntos, mas nunca tiveram nada. Nessa época, minha mãe namorava um cara chamado Alexandre, chegaram a noivar, mas ela descobriu que ele não era quem ela realmente pensava. Já depois de formada e sem nenhuma expectativa de compromisso, minha mãe foi trabalhar em uma empresa em que meu pai era o contador. Eles se estranharam logo no começo, mas o resto da história, vocês já sabem. Ela consegue manter a forma apesar de ter passado dos quarenta e meu pai também, eles saem para correr juntos todos os dias. Ela é loira, agora, devido a coloração que passou a usar, tem um gênio forte ao contrário do meu pai que é super tranquilo, ela é baixinha, meu pai é um pouco mais alto. É engraçado vê-los juntos. As vezes me pergunto se seriam a família perfeita se eu não existisse. Eles tentam me compreender e moveram céus e terra para me ajudar, coisa pela qual me sinto mais em dívidas com eles, como se não bastasse terem me gerado, ainda me devolveram a vida outra vez.

Abri a minha janela na expectativa de me contagiar com os raios de Sol e ser mais positiva naquele dia. Teria que fazer uma lista de coisas para fazer durante as férias, embora a maior parte do meu plano se resumiria em filmes na tv a cabo e livros, muitos livros, sobre os filmes que eu assistiria, afinal, eu estava de férias e não teria vida no próximo ano com o vestibular. Meus pais haviam deixado o café da manhã, adiantado. Lavei a louça e aguardei, faltava cerca de 10 minutos para meus pais chegarem. Sentei no sofá, liguei a televisão em um canal qualquer, meu celular vibrou.

AS COISAS NÃO MUDAM MESMO, NÉ?

Gelei. Não era possível, por mais que eu mudasse constantemente de número, sempre me encontravam, seja lá quem fosse. Mas, depois que contei aos meus pais, e eles me levaram a polícia, a situação tinha melhorado. Não se sabia quem estava fazendo aquilo comigo, mas os policiais continuavam a investigação. Meu coração parecia que ia parar, eu não sentia minhas pernas. Pude ouvir a risada de minha mãe se aproximando e depois seu grito me chamando e correndo perto de mim. Eu não estava bem. Ela pegou o celular e deu ao meu pai que leu a mensagem de um número desconhecido. Ele sentou do meu outro lado e me segurou enquanto minha mãe foi preparar um copo com água e açúcar.

Senti o abraço do meu pai enquanto lágrimas caiam copiosamente de mim. Aquelas ameaças me perturbavam, não sabia que tinha inimigos a esse ponto nem que eu incomodasse alguém.

Calma, filha. Estamos aqui, mesmo sem saber o que fazer, estamos aqui- ele disse me apertando mais para perto de si- Sua cabeça passava por entre meus cabelos. Eu sabia a expressão que ele deveria estar fazendo, se sentindo impotente mais uma vez. Minha mãe chegou, tomei a água e ela também me abraçou. Assim que me senti melhor, disse que subiria para o meu quarto. Assim que entrei, me atirei sobre a cama e me cobri da cabeça aos pés, como fazia desde pequena. Meu celular chamou, era Skype. Luísa queria falar comigo, atendi mesmo com a cara inchada.

Cobra menor, nenhuma pista de quem seja?- ela perguntou preocupada. Eu lembrava perfeitamente daqueles cabelos negros que agora eram channel, Luísa era sempre estilosa, como estava com uma blusa de alça, vi que ela havia feito uma tatuagem no ombro esquerdo, era um tordo, do filme Jogos Vorazes. Como ela era bem branca, então contrastava com as veias que vez ou outra apareciam. Apesar da aparência delicada, sua voz era um pouco mais grave que o normal, na verdade, era sempre rouca.- se eu estivesse aí, te ajudaria a caçar esses imbecis.

– Claro, cobra maior. Nada como um pouco de força para resolver os problemas.- ela sempre me fazia rir.- E o Bernardo?- Bernardo era o cara com quem ela estava saindo, sempre me mandava mensagens dizendo o quanto estava encantada, que Bernardo aquilo e aquilo outro. Na verdade, só eu conhecia esse lado dela. De resto, era a guria marrenta.

Terminamos, aliás, não tínhamos nada sério e eu não sou o tipo de garota que espera o cara se decidir entre o agora e o passado.- ela virou a câmera e mostrou a mãe dela que me mandou um beijo.- Aqui tem muitos gatos, você bem que poderia vir me visitar, cobra menor. Talvez assim, ele vire passado também. Ei, vem cá e o Jô?

– Praia.- revirei os olhos.

-Outra tentativa frustrada assim como as minhas, né? Quem consegue te tirar de casa, hein? Nem o gato daquele pedaço de céu- ela brincou– Eu bem que quero te dar umas palmadas, mocinha.- ela começou a rir e eu também.- Cobrinha, tenho que ir, vamos a uma estação de ski agora. Te amo.

Havia um longo dia pela frente, fui até a lavanderia, coloquei as roupas para lavar e meu irmão ligou o som alto. O vi dançando pela sala até chegar perto de mim.

Ei, gordinha. Se mexerem contigo, mexem comigo. Estamos juntos nessa, gata.- ele me atirou uma camisa suada e saiu rodopiando pela casa.

Depois que terminei de lavar as roupas, estava profundamente cansada, isso devido à má experiência depois daquela mensagem. Lembrei de como me sentia no início. Eu era sorridente, divertida, sabia lidar com as pessoas. Mas, depois que tudo aconteceu e dele, eu passei a duvidar de todos que se aproximavam de mim. Recebi uma foto de Jônatas no Whatsapp, não pude deixar se sorrir, ele estava “plantando bananeira” na praia, de óculos escuros e língua para fora. Apenas visualizei, não queria estragar o dia perfeito na praia.

Subi para o meu quarto enquanto minha mão aprontava o almoço. Peguei meu diário, coisa que não fazia há muito tempo.