Pedaços de Vida

Olho para o ralo do banheiro, vejo pedaços de mim ali estendidos, passo a mão em minha cabeça e vejo a minha doce vaidade se esvaindo como folhas em pleno outono, a vontade de sair correndo me impede de qualquer ação. Vejo-me no espelho, não me reconheço, nunca ‘sumi’ tanto em tão pouco, observo as olheiras, devo ter envelhecido alguns anos nestes dias. O desjejum está posto à mesa, mas a comida não é mais tão atraente e meu estômago teima em querer expulsar qualquer coisa que queira habitá-lo, desisto de tentar convencê-lo, esse vai-e-vem não me traz benefício algum. Há um sabor metálico em minha boca, tenho a sensação de que cairei a qualquer momento. As roupas coloridas se amontoam no armário, de repente, elas não parecem comigo. Os dias andam muito cinzentos.images (1)

Tomo em minhas mãos um pequeno calendário, vejo que mais um dia se passou. Minha bolsa fede a remédios e meu maior desejo é me livrar deles na primeira lixeira, mas não é tão fácil abdicar da luta pela vida. Mesmo sem um propósito firme, ainda quero me manter em pé, mesmo tendo que ser apoiada, quero permanecer firme. Apego-me as poucas esperanças que ainda me restam. Todos fingem não ver e são solidários em me deixar lutar sozinha, não quero vê-los se desgastando comigo, não quero vê-los me vendo chorar em noites praticamente sem dormir, sem saber como amenizar a minha dor, sem saber se o medicamento está surtindo o efeito esperado. Eles não precisam ouvir meus gritos por ajuda ecoando, prefiro o grito do silêncio. Eu quis assim, poucos os que restaram para tentar te arrancar algum resquício de sorriso. Entro no ônibus e vejo as pessoas olhando pra mim e desvio o olhar delas, tento perder-me nas paisagens que são tão velozes e tento gravar tudo que eu posso na minha mente desde aquele pescador no rio, como a criança que dorme no colo da mãe ou bate na janela do ônibus querendo pegar imagens que lhes fogem das mãos. Tenho tão pouco tempo para vivenciar isso, quase nenhum tempo. Mesmo absorta nos meus pensamentos, alguém puxa conversa comigo e olho fixamente para aquela senhora que insiste em me contar sobre a sua vida, sobre seus filhos. Olho para suas rugas, coisas que sei que eu não terei, optei por viver esta vida enquanto me for permitido, mas não resta muitas forças ainda.

Ela desce um ponto antes do meu e me deseja um “bom dia”, retribuo-lhe um “igualmente” e sorrio, em uma das poucas vezes em que fui sincera. Queria ter corrido atrás dela, falar-lhe da minha vida, das minhas dores, ela despertou-me um sentimento de neta e então lembrei de que talvez eu precisasse de um carinho de avó, ela nunca me abandonava, mas a vida e o passar dos anos nos afastaram, sinto falta dela. Eu me sentia impotente ao vê-la escapulir das nossas vidas e agora tem sido eu. Ela queria me ver casada, com minha família, me queria feliz. Talvez eu nem case, nem tenha filhos, talvez eu nunca seja amada a ponto de alguém querer constituir uma família comigo. Aliás, ainda nem tenho 20 e talvez eu nem chegue lá. Depois da aula, terá um sessão grátis de cinema, desses filmes antigos em preto e branco, quizás, mudo. Quero sentar-me nas últimas fileiras e admirar o fio de luz que corta aquela escuridão da sala de cinema. Daqui a pouco minha mãe me liga perguntando se comi, mais uma vez, sorrirei e dizei, ‘tomei algo e saí’. Na verdade, nem isso…

Sento-me e começo a fazer o que faço de melhor: escrever. Trabalhar a minha mente me mantém viva e não me faz pensar no fim. Muitas coisas me passam pela minha mente, boas lembranças… será que sentirão minha falta? Alguém chega e me pede para completar uns relatórios, papeis e mais papeis sobre a minha mesa, lá, poucos sabem de tudo, quem será que ocupará meu lugar? O telefone toca e prefiro não atender. As pessoas só sabem perguntar “você está bem?”, claro que não estou, mas já me acostumei que não terei mais tantas chances. Fiz tanto planos: casa, família, casamento, inclusive quantos animais de estimação eu teria em casa, mas a juventude me foi abreviada e começo a achar que aquela senhora devia ser bem mais jovem que eu e que a vida só é boa com quem quer, mas depois começo a achar que a culpa é toda minha, bom, deve ser mesmo. Mas meu destino quase foi selado antes do meu nascimento. É claro que não seria eu a escolhida, mas a sorte sorriu pra mim, ela devia ter bebido naquele dia e decidiu dar uma ‘forcinha’ pra quem primeiro aparecesse, teria sido sorte minha? Carrego comigo algumas das cartas que me entregaram, palavras de força e ânimo, alguns se preocuparam, outros deixaram- me nos primeiros sintomas que eu estava falhando. E não os culpo, cada um sabe como lidar com essas coisas.

Deram-me expectativas, se meu corpo reagir bem, posso ter esperanças… quero uma vida…não pedaços dela…seria como se eu precisasse me recarregar todos os dias por ter vindo com defeito, mas, se eu vim a este mundo, certamente, não foi para sofrer. Talvez eu esteja com pena de mim mesma, procurando redenção de alguma forma, dizem que a morte pode ser doce, talvez o fim de todo o sofrimento, mas se for assim, prefiro o sofrimento de se estar vivo, a vida me é tão desejável: a vida que enfrenta o horário de pico, a vida de quem vende antenas de televisão, a vida que passa o dia em pé dizendo “o que deseja senhor?”, a vida que deseja que a campa bata…a vida. O alarme toca, hora de mais um comprimido, é quase noite já, em breve estarei em casa, ele me colocará para dormir e abreviará toda a dor que muitos sentem por opção e eu a sinto sem querer. Tudo por uma vida e muitos não sabem o que fazer com ela, enquanto desejo apenas uma chance de respirar por minha própria conta.

É quase meia-noite, ainda não consegui fechar meus olhos, posso escutar minha respiração lentamente, se fosse a minha hora? Fecho os olhos com força tentando me libertar dessa ideia, mas talvez fosse melhor. Quem sabe, haveria até um sorriso em meu rosto e eles poderiam dizer ‘finalmente, ela descansou’, olho para o celular, aquele sinal incômodo que nem me preocupo mais, mas quem sabe dessa vez… abro a mensagem e lá está um ‘TUDO BEM?’ Quem lembraria de mim? O número é desconhecido. ‘VAI FICAR TUDO BEM’, começo a achar uma brincadeira de mau gosto. ‘QUEM SE IMPORTA?’ respondo. ‘EU. EU ME IMPORTO’. Abro um leve sorriso, começo a sentir o efeito da medicação me puxando para um abismo. Estava começando a acreditar naquilo, mas é apenas um delírio. Acordo em uma maca, em um quarto que não é meu. Ouço uma voz ao longe dizendo que chegou a minha vez, hora do transplante. Mas já não tenho força, lembro que deixei no celular: ALGUÉM SE IMPORTA, mas não enviei e não terei chance, não tenho forças. Eu me rendo.

O despertador toca, acordo assustada. Do meu lado, minha mais nova emoção, pobre garota. Sorri ao fechar o livro. EU ME IMPORTO. Pensei. Ouço a voz da minha mãe. Estou atrasada, arrumo a bolsa antes de tudo. Pedaços de vida. ALGUÉM SEMPRE SE IMPORTA.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s