Capítulo 4

Quando saí, mamãe já estava à minha espera e conversando com ninguém mais, ninguém menos que Maurício! Gabriel já estava no carro com seu videogame predileto. Cumprimentei o rapaz e entrei no carro. Mamãe se despediu dele e saímos. E meu irmão não poderia perder a chance de me irritar ou não se chamaria “meu irmão”:

– Gabi tem namorado! Gabi tem namorado!- ele cantava agudo e aquilo era irritante, mais irritante que ter seus pés sobre mim se debatendo.

– Cala a boca.- resmunguei, chateada. Cruzei os braços e fiquei olhando pela janela.

– Por que a demora? O que o senhor Gonçalo falou?- perguntou mamãe olhando pelo retrovisor.

– Como sabe que falei com ele?- perguntei retribuindo seu olhar pelo objeto. Aquilo era estranho, ela não sabia meus horários.

– O Maurício me contou. –ela respondeu prontamente ao fazer uma curva.

– Mas ele nem…- desisti- uma patricinha desagradável que fez eu me dar mal em um trabalho. Perdi metade da nota.

– Ela não tem esse direito!- mamãe exclamou.

-Não tenho provas, além disso o senhor-sei-de-tudo-não-estou-nem-aí já me deu a sentença e não tenho direito à resposta. Sabia que teria problemas com ele.- continuamos o caminho sem mais conversa. Era meu momento de silêncio e a dona Angélica, como mais ninguém, sabia respeitá-lo.

Meu pai preparou o almoço. Aquilo era um pouco raro, mas não incomum. Estávamos à mesa, juntos, novamente. Uma típica família normal, até minha mãe receber outra viagem da agência. Depois daquele momento fui para o cantinho da bagunça, joguei a mochila sobre a mesa, tirei os sapatos, respirei fundo e perguntei:

– Se você estiver aqui, por favor, apareça…que loucura a minha, foi apenas um sonho…um sonho bem…- falei voltando as costas para o espelho.

– …real? A senhorita é quem pensa…- ele apareceu do lado do espelho, recostado em sua madeira vermelha detalhada em alto relevo.

– Ariel?! Eu não sonhei mesmo…- falei aliviada. Na verdade, aquilo era mais uma prova que minha solidão não estava me deixando louca, mas ele nã precisava saber disso.

– Acho que não- ele sorriu- o que desejas?

-Saber mais…sobre você…sobre mim…anda acontecendo umas coisas estranhas comigo…-falei segurando meu pingente-chave..

– Uma história longa que eu não me lembro bem, queres escutar?- ele se sentou no chão. Estranho dizer que um fantasma sentou no chão, mas foi isso que aconteceu.

– Sim, muito.- fiz o mesmo que ele.

– Há mais ou menos 200 anos, acho que mais, eu tinha 16…eu era como a senhorita, digo, de carne e osso. Minha família era como a sua, viva… guardávamos o portal entre a dimensão mágica e o seu mundo..e agora eu estou aqui, bom, não me lembro de muito.

– Eu? Bruxa?Guardiã? Não é possível…- eu realmente não queria  acreditar.

– Tente. A senhorita acordou levitando, paralisou meu teletransporte e quebrou copos com a mente. Quer mais provas? Observe.- com um simples movimento de dedos, ele fez as lâmpadas apagarem e acenderem. Desafiei-o pedindo que fizesse algo comigo.

– Não posso. A sua áurea…anula teus poderes. Tente os teus. Acredite.

– Quero a Madonna aqui!- fechei os olhos com força.

– Não precisas exagerar. Tente traze aquele copo primeiro.- olhei pra ele. Fechei os olhos, respirei, abri-os, eu vi o copo, eu queria o copo, ele veio até mim.

–  Isso é incrível!- eu sorria, nossa, era demais!

– Queria pedir algo…-ele mudou seu tom de voz, estava triste.

– O que quiser.- respondi me levantando e sentando no sofá. Ele se aproximou de mim, sentou do meu lado, eu não me sentia desconfortável, aliás, eu gostava daquilo.

– Meu sonho é ser livre, mas preciso descobrir meu assassino, recuperar meu medalhão. Ele é a chave e foi dividido em quatro partes: duas chaves e duas metades. Ele é a resposta de tudo.- ele olhou para o chão por um bom tempo e eu fiquei observando-o.

– Prometo ajudá-lo nessa busca. Você tem alguma pista? Como é esse medalhão?- falei me erguendo e caminhando pela sala.

– Eu não faço ideia. Desde o início, há dualidade. Bem e Mal duelam. Nossos mundos eram unidos e agora vivemos escondidos, presos, sem voz. Apenas aqueles que ainda tem assuntos com os humanos podem ser vistos.

– Isto explica em parte meus sonhos esquisitos.- deduzi.

– Como assim?- ele voltou a me olhar novamente. Ouvimos batidas na porta. Era minha mãe. Estava na hora de caminhar.

– Está na hora de contar para a sua mãe, ela não sabia como…não fique fora depois das seis da tarde, será perigoso. – ele olhava pela janela meio perdido, senti um vento gelado tomar conta da minha espinha dorsal.

– Tudo bem.- disse saindo.

XXX

Por debaixo dos esgotos da cidade, havia uma caverna fria e escura. A iluminação era feita com velas, tinham muitas caveiras e ossos por todo o local. Podíamos ver também uma espécie de altar com um espelho (daqueles antigos que encontramos em lojas de penhor), aquele jogo de luz e sombra era sinistro e dava um tom de mistério àquele lugar.

– Meus caros conterrâneos, chegou a nossa era de glória. Senti o espírito de Aleja e sua tataraneta. Ariel ainda está em um mundo paralelo, mas aquela bruxa saiu do seu isolamento. Não posso afirmar aonde estão, mas eles voltaram, há muito almejo aquele medalhão, o portal das duas dimensões. É hora de nos levantarmos e acabar com aquela raça de guardiões! O Caliban retorna para a vitória!- Caliel ergueu os braços para o alto e os abriu.

– Que reinem as sombras!- gritou a assembleia fazendo o mesmo. As sombras tomaram conta do lugar.

XXX

Estávamos a caminho de casa, a tarde foi muito boa, distraí-me a ponto de esquecer o aviso de Ariel. Mamãe dirigia, eu escutava musicas, mas algum tipo de interferência me fez jogar o ipad no banco de trás. Na nossa frente, uma fenda abriu-se e minha mãe desviou o carro. Sombras saíam das fendas e dominavam tudo que tocavam, elas avançariam mas algo ficou na nossa frente e brilhava e afugentaram as sobras que insistiam pelo caminho. O carro continuou o caminho tortuoso, fendas e mais fendas se abriam. Eu não entendia nada, Angélica me abraçou e estávamos na frente de casa.

– Tudo bem, querida?- mamãe colocou a mãe em meu rosto e me abraçou novamente.

– Sim, obrigada. – abracei-a- Por que não me contou sobre os feiticeiros?- olhei para ela.

– É uma longa história, como soube? Quem te contou?

– Um amigo.

– Entre, não conte nada a seu pai; Diga que parei em uma oficina e não demoro. Depois conversamos.- ela me abraçou e se levantou e depois sumiu.

– Tudo bem.- falei me levantando da grama. Tentando limpar o máximo possível os vestígios dela da minha calça para um álibi perfeito.

Fiz conforme pedido por ela. Banhei, troquei de roupa. Quando voltei para desenhar, encontrei minha mãe sentada na cama, convidou-me para sentar ao seu lado. Ariel estava encostado ao lado da janela, de braços cruzados.

– Tem lugar para mais um?- perguntei olhando para ele. Ele estava bem concentrado naquilo, sei lá, estava lindo com aquela cara séria. Sim, sou esquisita a tal ponto de me encantar por um fantasma.

-Quem?- ela perguntou com jeito de quem temia a resposta. Olhou para o lado dele, mas não o viu.

– O meu amigo.- apontei o queixo em sua direção.

– Ele não é um…- ela olhou pra mim assustada- oh! Querida, fantasmas não, por favor, seres de carne e ossos de preferência, esses não são confiáveis, eles perderam humanidade, perderam lembranças, vivem sozinhos…- ela realmente estava desesperada e Ariel desaprovou sua reação com um olhar.

– Não pode vê-lo?- perguntei me levantando e caminhando um pouco para longe. Era demais por um dia.

– Bom, desde que cheguei sinto sua presença, mas pensei que era só o fato de estarmos em uma casa nova. Mas, vejo que me enganei. O que queres saber?- ela voltou a si e olhou pra mim.

– Tudo. Tem acontecido umas coisas comigo: vejo fantasmas, acordo flutuando. Quebro copos e fico hipnotizada.

– Hipnose? Essa é nova. Querida, somos descendentes de guardiões do portal dimensional, mas minha bisavó desobedeceu as regras e fomo punidas. Nossos poderes se perdem a cada geração e apenas temos um de descendência por vez.- ela olhou para o lado.

– Como assim?

-Somos filhas únicas. Ou éramos. Aleja foi enfeitiçada, se apaixonou por um humano e recusou-se a cumprir seu destino. O Caliban conseguiu o que queria, um desequilíbrio. O outro guardião amava a sua tatara e a protegeu, mandando-a para a dimensão mortal, ele tomou o seu lugar e pagou um alto preço por isso. Com isso, o medalhão foi quebrado e espalhado por quatro locais diferentes. O portal sumiu ninguém sabe sua localização, ele precisa ser invocado.

– Bom, hmm, não se nem o que falar, aquele livro que a senhora me deu é o quê? Tudo isso é muito estranho.- mordi o lábio inferior, não é muito fácil você descobrir que, de repente, você tem poderes e tem uma história muito louca que parece ter saído de um livro de histórias fantásticas.

– É o seu livro de magia, nele será gravados seus encantamentos. O meu é cheio de folhas brancas. Optei por uma vida normal, e além disso, tem a perda gradativa de poderes que a nossa família tem sofrido com o passar das gerações. O máximo que consigo é o teletransporte e esboçar o futuro- ela explicou gentilmente, mas sua voz estava meio sombria.

– Então, foi a senhora?- perguntei surpresa, quase não acreditava.

– Não, querida. Foi muito rápido, não tive tempo de me concentrar. Há muitas lacunas nesta história mal contada- por um momento, ela olhou na direção do meu amigo fantasma como se pudesse vê-lo. Ele fez cara de poucos amigos, por um momento, achei que eles estava se vendo.

– Querida, hoje é o seu dia de fazer o jantar!- gritou papai da escada. Logo depois que minha mãe saiu, Gabriel entrou correndo no meu quarto,  sujo e descalço e jogou-se sobre a minha cama. Olhei para ele e mandei que saísse, ele, obviamente, não quis me ouvir.

– Sai daqui agora!- gritei ao jogar uma almofada nele.

– Nem me acertou besta, na na na na na na- ele fez careta e começou a correr pelo quarto. Quando eu gritei novamente, uma força estranha empurrou-o na parede do corredor. Não foi grave, mas eu me senti muito culpada por não me controlar. Ele começou a chorar, corri e abracei-o, pedi um milhão de desculpas, ele me abraçou. Apesar de brigarmos constantemente, eu o amo e seria capaz de matar por ele se fosse o caso.

Depois do jantar, fui estudar Álgebra, apenas mais um assunto e eu poderia descansar daquele tormento. Coloquei o caderno sobre a mesinha e só de olhar fiquei com vontade de morrer, em algum momento daquela equação eu me enforcaria no cosseno e  a tangente seria a testemunha. Ariel não estava no quarto, olhei fixamente para a  janela, eu só queria um dia comum, com minha família musical e desastrada, com meus recorrentes problemas com matemático e o meu convívio antissocial, eu só queria por um momento, uma vida como a de antes, sem acontecimentos extraordinários, humanamente normal ao jeito Cavalieri de ser. Desisti de estudar, a teoria era fácil, mas a prática…

XXX

Maurício concluía seus deveres. Quando terminou, pegou seu violão e tirou a partitura que Gabriella tinha composto. Não era tão difícil e a simplicidade das notas que ela utilizara eram carregadas de emoção. Na letra, havia  a história de uma garota e suas diversas faces que mudavam como cavalinhos no carrossel. Ele sorriu, ela realmente não era como as outras. Fechou os olhos enquanto tocava novamente a música, dessa vez, ele cantou. A música parecia emanar de si. Uma estranha sensação percorreu o seu corpo e ele voltou a si. Olhou para a porta e teve uma surpresa.

– A senhora está aí há muito tempo?

De pé, no batente da porta, estava Alessandra, de braços cruzados, ouvira seu filho tocar. Vinte anos mais nova que seu esposo, era a docilidade em pessoa. Seu cabelo era na altura do pescoço, levemente ondulado, entre preto e loiro estava amarrado em um “rabo de cavalo”. Seu olhar meio arrendodado, a fazia parece uma asiática se não fosse pelos olhos cor de mel. O vestido floral longo dava-lhe um ar mais jovial. Observava seu filho com ternura e amor, ela tinha chorado. Enxugou uma lágrima recalcitrante  e sorriu.

– Só o suficiente para entender tanta emoção. Esta letra é sua?- perguntou sentando ao lado do filho na cama.

– É de uma amiga- ele sorriu  novamente.

– Uma amiga? Você sabe quem eu sou, não é?- ela retrucou desafiando-o.

– Sim, minha mãezinha linda e maravilhosa que me conhece tão bem a ponto de saber que se depender de mim, ela não será apenas uma amiga. – ele a abraçou e beijou seu rosto, depois olhou para a interlocutora- A Gabriella é incrível, me fascina. É muito reservada, foge de todos e de mim- essa parte ele disse com tristeza.

Alessandra sorriu e foi pegar a capa do violão do filho.

– Hmm. Gabriella de quê?

-Gabriella Cavalieri- a mulher mudou de cor. Estremeceu. Não podia ser. Era impossível. Recordações vieram-lhe à mente.- Mãe?- repetiu novamente Maurício preocupado com aquele transe.

– Oi, querido.- ela voltou a si e sorriu para disfarçar.

– A senhora está bem? Algum problema?

– Quero saber mais. E não me esconda nada mocinho- ela sentou na cama novamente e deu cócegas o filho. Eram mais que parentes, eram amigos, melhores amigos: mãe e filho. A brincadeira não durou muito, Gonçalo apareceu na porta informando sobre o horário.

XXX

Caminhei apressada, a mochila pesava. Meu livro estava sobe o fichário, no braço esquerdo. Passei por Bianca sem me atrever a levantar o rosto, se eu tivesse sorte, seria desapercebida até me formar. Aliás, eu só queria olhar para o chão. Quando estava de saída, pude ver Fernanda se destacar dos demais, estava na frente de Érica que acenava para mim. A garota pulava e sorria, por favor, que não fosse comigo, a outra apenas sorria. Aproximei-me delas receosa.

– Quer ir ao circo?- Erica me estendeu um anúncio- Como você é minha amiga será a fotógrafa para o jornal da escola, não é?

AMIGA, pensei. Aquilo era novo. AMIGA. Sorri amarelo e estremeci. Alguém não fugia de mim, aquilo era um máximo! E preocupante.

– Eu serei a “camerawomam”, o que acha?- Fernanda estava com uma filmadora- Ah, o que é isso? Sorria!

– Ah, sei lá…- o Sol estava forte. Olhei para fora, havia muitos alunos esperando seus pais, muitos já chegavam.

– Se for mais um pouco para o lado, terá um ângulo bem melhor Gabriella- falou Maurício por trás de mim. Desprevenida, pulei de susto. Procurei algum lugar para me esconder e distingui o doblô de minha mãe. Corri sem medo.

– E o circo?!- gritou Erika.

Virei para eles e gritei que iria. Sei lá, nem sei como surgiu tanta coragem, acenei para eles. Quando virei novamente, dei de “cara” com Fernando, o cara mais inteligente da minha turma de Física. Caímos no chão, meus papeis voaram, meus cadernos caíram, meu livro de encantamos saiu escorregando, Maurício correu para nos ajudar.

– Desculpa, desculpa, eu não queira… ai, como sou desastrada!- falei apanhando os papeis dele. Coloquei meu cabelo para trás.

– Não, tudo bem- ele sorriu metálico.

– Olha, qualquer problema depois é só falar…

– Eu…eu..eu…eu me viro, não se preocupe.- ele sorriu, sua liga era azul- Meu óculos…- ele tateava o chão,

– Eu..é.. aqui está…eu compro outro não se preocupe. – uma das lentes estava quebrada.

Levantamos, arranquei uma folha do meu caderno e escrevi meu telefone, estendi o papel pra ele.

– Me liga pra conversarmos depois e tu me dizer o preço tá bom?- sorri pra ele.

Alguns rapazes se aproximaram de tiraram chacota dele. “Até nerds tem seu dia de rei”, disseram. O rapaz ficou encolhido.

– Não liga, eles são idiotas. Prazer, Gabriella Cavalieri- estendi minha mão.

– Fernando Stevan- ele sorriu de volta pra mim.

-Vê se me liga, ouviu?- encorajei. Continuei o meu caminho, até que alguém me puxou para trás.

– Você vive perdendo as coisas, não é mesmo?- era Maurício, ele me apontava o livro.

– Obrigada.- peguei o livro e aumentei a distância entre a gente.

– Então, eu preciso ser ruivo, ter sardas, usar óculos, aparelho de liga azul e camisa xadrez para conseguir teu número?

– Algum problema com nerds?- desafiei-o, me soltei dele e saí em direção ao doblô esverdeado.

– Um dia e tanto- minha mãe sorriu, ao me ver entrar no carro.

– Nem me fale.- suspirei ao colocar o cinto.

No caminho, Gabriel jogava videogame e chutava o meu banc. Gritei pra ele parar e o PSP dele queimou.

“Há algo de muito errado. Gabriella tem poderes extradordinários”, pensou minha mãe. Hã? Eu comecei a ler mentes? Tudo bem. Isso é um sonho. Não sou uma bruxa, não um fantasma morando comigo, não tenho poder algum e não leio mentes. Não mesmo.

Estremeci no banco e me encolhi.

– Querida? Querida? Está me ouvindo? – perguntava uma voz ao longe.

Senti que alguém me beliscava meu irmão. Voltei a mim. Angélica não sabia se olhava para mim ou para a estrada. Paramos em um sinal, outro carro estacionou ao nosso lado, esperando a cor do semáfaro trocar. Olhei para o homem careca que estava ao volante, não era ele , quer dizer, era e não era. Ah, sei lá. Seus olhos centilaram ao encontrar os meus e sua aparência mudou as orelhas surgiram pontudas e com brincos, o nariz pontiagudo com uma verruga e ele ficou verde! Pisquei os olhos , o sinal mudou ao tentar vê-lo novamente, percebi sua normalidade.

Ao cegar em casa me sentir avaliada pelo fato de no outro dia ser sábado. Sem patricinhas, sem professor de matemática, sem micos ( ou melhor gorilas ). Abracei meu pai que estava perto do balcão da cozinha preparando o almoço. Subi a escada que dava acesso ao 2º piso, Gabriel saiu correndo na frente e entrou no banheiro primeiro. Bom, eu teria que esperar.

Frustrada, sentei na minha cama com meu livro de feitiçaria nas mãos. Meus dedos percorriam cada detalhe gravado em alto relevo. As rosas vermelhas que se enroscaram nos galhos, abrindo espaço para a fechadura.

– Bú! – soprou alguém no meu ouvido, caí com o susto.

– Desculpe – ele falou me olhando, no chão. Acomodou-se melhor na minha cama, um joelho cruzado sobre ele, costas no apoio de trás.

– Isso virou rotina – coloquei primeiro o livro sobre a cama e balancei a cabeça no intuito de tirar a cabelereira do meu rosto. – Ainda pensava que isso era um sonho.

– Magia não é brincadeira. – ele me repreendeu, mas feito criança mudou seu humor rapidamente e sorriu. Perdoe-me novamente, sou um fantasma. Fazemos isso.

– Isso? Tipos possessões de corpos, estrangulamento das vias córneas até a morte, brincadeiras de mau gosto, incêndios que parecem acidentais?

– Nem todos, só os que enlouquecem e não aceitam sua condição nova. A senhorita sabia que a maior prisão é a solidão? De repente, você está morto, quer ser escutado, pede ajuda, mas simplesmente ninguém o nota. Primeiro, você entra em depressão, depois torna-se agressivo, concentra seus poderes de forma negativa. Aí, aparece o Caliban. – Ariel estava concentrado como se olhasse para dentro de si mesmo.

– Caliban?

– O quê? – ele virou-se rapidamente para mim.

– Ah, não se faça de bobo! Você acabou de falar  em um tal de Caliban, espíritos inconformados.

– Perdoe-me, não lembro de nada. Eu disse algo? – ele brincava fazendo as lâmpadas acenderem e apagarem. Olhei para cima . Levantei para banhar , meio constrangida, tive que perguntar se ele não via pelas paredes. Com cavalheirismo e envergonhado também, Ariel que isso só aconteceria se ele atravessasse a parede o que seus princípios impediam.

Fernando estava mexendo na sua caixa de e-mails quando recebeu um que o deixaram triste.

E aí nerd do dente de ferro, vai dar o quê pra Gabriella? Uma proteção contra esse cabeção de jaca? Vê se te manca, aqui não é teu lugar não “ Iro men “.

Pô! Quê que tu tá pensando da vida? Teu aparelho tá dando interferência no meu PC e o teu cabeção da p… não me deixa respirar aspirando todo o ar. Aí não é estudo não, é ar seu bocó!

Extremamente abalado, ele levantou-se da mesinha do PC e pegou um de seus troféus que tinha um formato de DNA. Com raiva, ele lançou-o na tela do computador. Sua avó assustada, correu até o quarto do neto a tempo de impedir que ele quebrasse tudo. Depois de calmo , sua avó deu-lhe um calmante. O garoto adormeceu, mas isto não impediu que esse fato  continuasse em seus sonhos.

Fernando era um nerd. Não tinha amigos, namorada, pais, nem tampouco vida social. Quando seus pais morreram em um acidente, ele passou a morar com sua avó, uma doce senhora sábia, mas radical quando se fala das mudanças que acontecem na sociedade desde quando ela era jovem.

A senhora Stevan cuidava do neto, como se fosse até seu filho adolescente, o que não era muito diferente.

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