Capítulo 3

-Quem é ele? É legal? Oh, desculpe querida. Atrapalhei algo?

-Não, mãe. A situação estava ficando embaraçosa mesmo. Sabe como é.- fiquei observando-a. Seus cabelos castanho-claro, cortados médio deixavam seu cacheado mais lindo ainda. Os olhos da mesma cor, estavam fixos no caminho. Ela me olhou e sorriu. Lembrei do retrato dos meus pais sobre a estante. Meu pai com seu cabelo preto e curto, seu rosto quadrado e barba sempre por fazer. Seus olhos verdes a olharem fixamente minha mãe e com tanto amor e ternura que aquela foto era minha preferida.

– Vamos passar em um restaurante primeiro. Hoje teremos comida chinesa.- ela comemorava e começamos a sorrir juntos, minha mãe, meu irmão e eu.

– Algum motivo especial D. Angélica.- perguntei logo depois de aplaudir.

– Minha próxima viagem, em dois meses.- mamãe estava muito contente. Ela iluminava tudo a seu redor mesmo. Por isso tinha meu amor, admiração e respeito.

O almoço em família foi ótimo. No finalzinho da tarde, voltaria à caminhada com minha mãe. Fiz as tarefas de casa, Gabriel começou a gritar do banheiro. Corremos até o cômodo, assustados, ele estava encolhido na banheira e tremendo de medo.

– O que foi filho?- minha mãe perguntou quase sem fôlego.

– Mãe, eu vi um garoto no espelho- ele apontou para o armário de escovas, estava com muito medo. Retruquei que ele havia visto seu reflexo, mas ele estava muito certo do que falava, ao menos parecia. Minha mãe ficou com ele e eu saí, aliviada, por não ter acontecido nada de ruim com ele.

XXX

Maurício tocava em seu quarto repleto de pôsteres de bandas de rock, mais parecia um museu. Seu pai chegou do trabalho e sem perceber tempo, começou a discutir com o filho sobre seu futuro profissional.

– Meu filho, você deveria estar estudando ao invés de perder tempo como os vagabundos de seus amigos. – ele disse entrando no quarto do rapaz,a porta estava aberta, nem precisou bater.

-Pai, eu quero fazer música. Não quero ser um médico…- o rapaz  manteve o tom sereno em sua voz, diferente das outras vezes em que brigavam.

-Você é meu filho, mora na minha casa e vai fazer medicina sim senhor! Onde se viu um aspirante a músico sobreviver disso? Se quiser vencer na vida, desista de seus sonhos!

– Nunca! A vida é minha e dela cuido eu!- o garoto deixou o violão sobre a cama e saiu do quarto, desceu as escadas rapidamente e nem percebeu sua mãe colocando a mesa.

-Querido, tenha paciência com seu pai.- a mulher pediu enquanto o rapaz se apressava em sair de casa.

-Mãe, eu tento, mas tem horas que… Tenho que dar uma volta, esse ar está me matando.- sem rumo, ele saiu caminhando. As mãos no bolso da calça jeans, o vento a bagunçar seu cabelo e a fornecer-lhe uma sensação de liberdade nunca antes sentida por ele.

Mamãe é muito versátel: Quando está em casa, à tardezinha faz caminhada comigo, uma coisa que amamos fazer juntas, na realidade, sou a cópia perfeita de minha mãe em muitos quesitos, conversamos sobre tudo, ela é meu segundo diário e ÚNICA amiga. À noite, quando chega, joga videogame com o Gabriel (sim, ela é jovem ao extremo, mas sem perder maturidade). Não tem como não amá-la. Era para ser um momento bem agradável, mas à medida em que caminhávamos sentia que minha rotina seria quebrada, talvez fosse apenas a saudade que eu tinha dela após suas viagens, sei lá, mas era uma sensação estranha. Entre os rostos que passavam por mim, um deles prendeu minha atenção, não por ser ele, mas por ele vir em minha direção me olhando com aqueles olhos que me faziam perder-me neles. Ele parecia decidido a falar comigo e eu estava decidida a me jogar no próximo bueiro que eu visse para evitar tal situação embaraçosa.

Oi, Gabriella!– ele falou com aquela voz de locutor de programas românticos da meia-noite, ou algo parecido, a verdade é que é bem difícil discernir a perfeição dele, será mesmo que eu disse isso?

Olá, Maurício.– falei meio sem jeito e procurando já uma estratégia de saída rápida e sem levantar suspeitas- Ah! Essa é a minha mãe, Angélica. Mãe, esse é o Maurício.

-Prazer, senhora Cavalieri.– ele estendeu a mão e a cumprimentou, um verdadeiro gentleman.

-O prazer é todo meu. Que rapaz formoso e educado tú tens por amigo, querida. O genro que toda sogra teria orgulho em ter.

Agradecimentos especiais a minha mãe, por estragar meu dia e minha vida também. Não bastasse isso, ela tinha que inventar uma história sem pé nem cabeça para nos deixar a sós. Saiu em direção ao carro e Maurício prometeu me levar em casa. Fiquei atônita, desajeitada e sem reação, matar, morrer ou fugir/

-Então, está gostando da escola?

Perguntei-me se ele gostaria de ouvir a verdade ou se seria bem melhor dizer um “sim” e acabar com a conversa. Não seria muito cordial de minha parte, eu sei, mas eu não me importava se conseguisse meu intento. Mas, não, eu tinha que conversar com ele…

Você é a segunda pessoa que faz essa pergunta hoje.- falei olhando para o chão, buscando em minha mente possíveis saídas, ela nunca trabalhou tanto naquela tarde.

Isso é bom ou ruim? Mostra que és uma boa observadora- ele sorriu de canto de boca, eu vi e, claro, fiquei toda derretida- Queria terminar nossa conversa pode ser?

Não, não pode. Pra falar a verdade, quero ir pra casa, conversar me incomoda um pouco, na realidade, muito.

-Só não garanto te dar respostas.- ataquei.

Quero arriscar.- ele riu novamente, dessa vez um pouco mais alto, ele gostava de desafios. E, percebi com isso, que ele não desistia facilmente e que aquilo o incitava mais ainda. Eu teria problemas.- Que instrumentos você toca?

Respondo ou não respondo, eis a questão.

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