Capítulo 1

Essa história que vou contar-lhes aconteceu não faz muito tempo, em uma cidade chamada Opala, em algum lugar por aí neste espaço. Eu vi tudo acontecer, acompanhei cada passo e sobrevivi, sobrevivi para conta-la para vocês. Torci muito para que Ariel, finalmente, fosse libertado.

***

Foi a primeira vez que o vi (assim pensava eu), era uma pintura a óleo muito velha e de formato oval, eu nunca tinha visto uma de perto, mas eu sabia que era das antigas. Estava em um álbum centenário, era a única entre as páginas amareladas e empoeiradas que me fizeram tossir um pouco e quase desisti do meu objetivo: que era limpar o sótão para abrigar meu “cantinho da bagunça”. Isso mesmo, um lugar onde eu (uma adolescente não muito comum) costuma ser não comum. Acabamos de mudar e aqui me pareceu menos pior que nossa outra casa. Minha mãe, apesar de desastrada, é uma ótima agente de turismo, o chato é que ela vive viajando e eu fico sozinha com o Eduardo(meu pai e dedicado professor de música) e o Gabriel (meu irmão caçula e eterno chato).

Fiquei observando a pintura: era um garoto da minha idade, eu acho. Com uma bicicleta esquisita, seu cabelo parecia loiro, por estar branco na pintura, o corte me lembrava o Troy de High School Musical . Seus olhos me atraiam, ele parecia olhar pra mim, me conhecer, me chamar. Que coisa, seduzida por uma fotografia antiga. Fiquei meio desconcertada com isso, sua fisionomia angelical…guardei a foto e continuei a mexer naquele mar de poeira tirando móveis, livros, caixas…mas aquela imagem não me saía da cabeça.

***

Gabriella puxou à mãe, Angélica, muito desastrada. É umas garota introspectiva e calada. Não é uma ótima aluna, mas seu dom para a música e arte atenuam isso. Não tem amigos e nem se preocupa em arranjá-los. Seus colegas consideram-na esquisita demais para se aproximarem. Sua pele de coloração meio amarela faz ‘jus’ ao seu cabelo extremamente negro disposto em cacheado nas pontas até a cintura. Seus olhos castanho-claro concordam com seus lábios finos e bem desenhados.

***

Estava concentrada, até que algo dentro do armário se mexeu, com medo, caminhei lentamente em direção a ele e tropecei em mais livros (foi uma bela queda!). Tremendo, abri a porta. Era Gabriel que acabara de me pregar uma peça, nestes últimos oito anos não tive mais sossego, mas eu o amo muito.

– Que droga, Gabriel!- saí correndo pela escada atrás dele.

-Pai! Pai! A Gabriella quer me bater sem motivo nenhum.- ela descia correndo, gritando, e, descaradamente, fingindo, aquilo me irritava mais ainda. E eu sabia que meus argumentos não iriam dar em nada. Meu pai estava afinando o violão sentado na poltrona verde, sua preferida.

-Pai, o Gabriel vive enchendo o saco, eu quase tive um ataque lá em cima, com uma brincadeira de mau gosto.- argumentei, apontando para a escada e defendendo minha razão.

– Querida, tenha paciência com seu irmão.- falou papai com sua voz sempre calma e eloquente enquanto prestava atenção nas notas do violão, parou e olhou para mim com o olhar que sabíamos muito bem “perdoe-o e convivam”. Esta era uma das lições que mais eram postas em prática na nossa casa, o que não impedia as constantes brigas com meu irmão caçula.

Subi as escadas furiosa, afinal, mais uma vez, o carinha havia se dado bem. Eu estava muito zangada, mesmo assim, voltei a fazer o que tinha me proposto. A comida estava no fogo e, a menos que quisessem comer queimada, deveriam cuidar do almoço. Era responsabilidade deles. Tranquei a porta ficando sozinha no sótão, as luzes começaram a piscar, um vento frio passou por mim, nem liguei muito, a casa é velha mesmo…

Assim, continuei remexendo tudo até a hora do almoço. Minutos depois, minha mãe ligou do Canadá perguntando como estávamos. Arrumei o sótão que ficou bem limpinho e o meu quarto também. O gran finale ficou com a minha placa de “Não pertube!”. Deu trabalho, mas o tapete ajudou a colocar o piano no local adequado, o teclado, a bateria, o violão e aguitarra de um lado do lugar e, do outro, minhas telas  e retratos. A mesinha redonda que uso para estudar (ou melhor, tentar) foi indispensável naquele espaço.

***

Ariel fez questão de analisar o perfil dos moradores, mas o de Gabriella foi impossível porque sua aúrea era pura. Funciona da seguinte maneira: os fantasmas podem ler mentes, “possuir” corpos, atravessar paredes, levitar coisas, voar e teletransportar, porém, se uma pessoa tiver esta áurea, seus poderes são bloqueados com relação a ela. Ter áurea pura significa ser livre de ambições e que a pessoa é voltada para o lado espiritual, uma espécie de transcendência metafísica. Gabriella por algum motivo conserva a sua intacta, dizem por aí que essas raras pessoas tem uma missão predestinada a seguir.

***

No dia seguinte, domingo, era meu aniversário. Completei 16 anos e acordei com buzinas soadas pelo meu irmão. Surtei logo pela manhã. Tirei-o do meu quarto e deitei novamente sobre minha colcha florida, minhas mãos ficaram por baixo da minha cabeça e fiquei olhando para o teto. 16 anos e o que eu tinha feito de importante? Eu sabia que tinha uma missão, mas ela nunca tinha aparecido, talvez eu não a tivesse e seria apenas mais uma em bilhões. Passei meus olhos pelo local, o espelho ao lado da minha cama e que me permitia ver da cabeça aos pés tinha muitas fotos da família, momentos que eu considerava de mais alto valor, os dois criados-mudos na cabeceira, um com o a abajur e outro com o telefone e o despertador. Meu dormitório é paralelo à parede da porta e a janela que dá acesso à rua, é quadrada, centrada na parede. A escrivaninha com meu notebook e alguns livros, ah, e o meu diário! Eles ficam muito bem no canto do quarto, ao lado dele, fica meu guardarroupa na cor lilás. Ouvi baterem na porta e meu pai entrou com um bolo acompanhado com meu irmão cantando “parabéns”. Recebi um presente que namorava desde o natal passado: uma bailarina musical que se movia sobre a pista.

Mamãe ligou e disse já ter enviado meu presente. Desejou-me parabéns e perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que sim e conversamos um bom tempo. Depois. Fui banhar e subi para o sótão. Os instrumentos não estavam no lugar e gritei “Gabriel!”, mas a culpa não foi dele. Meu irmão, foi brincar na rua com nossos novos vizinhos, papai tentou me convencer a interagir com a vizinhança e não teve sucesso. Preparei a comida e fui limpar a casa, com fones de ouvido, não percebi que alguém estava na sala. Distraída, eu cantava, quando virei, o percebi, como estávamos muito próximos, tropecei nele e o rapaz me segurou para que eu não caísse. Tinha cabelos castanhos, fisionomia alegre e olhos pretos, ele fez o favor de me segurar.

– Oi, sou Charles- ele ajudou a me recompor, enquanto sorria da situação, o que me deixava mais constrangida- Tens uma voz e tanto, viu?

-Obrigada. Muito prazer, Gabriella.- corei com o elogio, sem mais.

-Charles?? Ah, você está aí. Oi, me chamo Fernanda, acho que seremos colegas de classe. Você é a Gabriella mesmo, não é? Ah, desculpa, devia ter perguntado primeiro.- ela parecia uma metralhadora com tanta coisa ao mesmo tempo.

– Sim.- ri, para disfarçar. Este é o tipo de situação que me deixava sem ação e reação. Torcia enormemente para que os vizinhos simpáticos fossem embora rapidamente.

– A Fê e eu somos irmãos, a caçulinha. Já vamos, né?- ele me olhou e por um momento, achei que ele havia lido minha mente- Não queremos incomodá-la. Soubemos que é seu aniversário, parabéns.- ele me estendeu a mão.

– Obrigada.- retribui, sua irmã, fez o mesmo gesto. Depois, saíram.

Respirei fundo e olhei para a mesinha de centro. E quase tenho outro ataque! Como que o retrato do garoto que eu havia encontrado estava ali ?!?. como sou desastrada e desatenciosa, achei que eu mesma o colocara ali. Olhei pela porta e vi os irmãos atravessarem a rua, na cozinha, um copo se quebrou. Levei um outro susto e fui recolher os estilhaços.

Os vizinhos de Gabriella, Charles e Fernanda, foram abandonados ainda crianças pelos pais. Foram criados por alguns tios até que o garoto atingiu a maioridade e levou sua irmã consigo quando conseguiu um emprego. A garota tem cabelo curto e castanho em forma de channel que dá graça à sua fisionomia pequena. Os dois, na verdade, são destinados a serem “anjos de passagem” que vêm à terra de tempos em tempos para ajudarem espíritos com coisas inacabadas a realizarem a passagem. Por terem forma humana, estão sujeitos a se corromperem.

***

À noite, haveria uma festa na cidade, meu pai e meu irmão foram e eu fiquei em casa, como sempre, sem multidão, sem som alto, apenas e eu e meus pensamentos. Decidi compor uma música, ultimamente, elas estavam muito tristes, mas era só mais uma fase depressiva minha que acabava refletindo no que eu pintava, compunha, cantava e tocava. Liguei o note depois e dei uma “navegada” na net, mas havia interferência. Bati na escrivaninha e tudo ficou normal, fiquei pensando nas coisas que estavam acontecendo naquela casa desde que havíamos chegado. Olhei para o lado do notebook e lá estava aquele garoto novamente. Desta vez coloquei-o na gaveta e tranquei-a bem. Os homens da casa chegaram e tive que banhar com meu irmão batendo e gritando na porta. Troquei de roupa, servi o jantar e fui para o meu quarto.

Sobre a cama, estava o retrato. Minha vontade foi de gritar, daquela vez, eu estava certa que ele estava trancado. Mas aquilo me hipnotizava, peguei a pintura em minhas mãos observando-a por um bom tempo. Analisei cada detalhe, intrigada, resolvi dormir. Precisava descansar, afinal, seria o meu primeiro dia de aula em uma nova escola. Era o segundo mês de aula, um bom motivo para não me ferrar com as notas. Necessitava dormir.

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