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Vou à uma Formatura, e Agora? (Homens)

Oiiii meus amores!!

Estou de volta, como prometido…e, bom, andei pensando no que escrever e decidi escrever sobre algo que é a única coisa que sei falar ultimamente. Pelo título do post, vocês já devem ter uma ideia…tchanran… sou FORMANDA!!!! E a 15 dias da minha grande semana, a única coisa que tenho feito bem é lidar com  a insônia, de tanto acordar no meio da noite pensando nos mínimos detalhes. No entanto, alguns amigos meus nunca foram a uma formatura nem eu posso dizer que sou uma perita nesse tipo de evento e me perguntaram: com que roupa eu tenho que ir? Bem, depois de tanto ouvir que formatura é uma cerimônia formal e tal, de tanto ouvir que os convidados têm que estar de acordo e blábláblá,  e de tanto pesquisar sobre o assunto, o que menos quero é que meus convidados se sintam mal em nenhuma das ocasiões. Então, antes de começarmos quero esclarecer que são apenas ideias, mas vocês também não vão vestir algo só porque o formando indicou, né? As ideias podem ser adaptadas ao seu gosto, afinal, cada um veste aquilo que faz com que você sinta bem, não é mesmo?  Então, vamos lá, escolhi começar pelos homens pelo simples fato de que foram eles que me fizeram a pergunta que deu origem a essa publicação 🙂

A grande semana que eu falo é recheada de solenidades diferentes que merecem a devida atenção, então, iremos especificar uma a uma, menos a aula da saudade, que essa merece uma atenção diferente já que é voltada para os formandos. Sem mais, vamos ao que interessa:

1- Descerramento de placa

Essa solenidade é aquela em que a turma apresentará a todos a sua placa. É um evento noturno e geralmente acontece em algum local do centro ou faculdade em que os formandos estudam. Geralmente, as placas ficam nos corredores (ao ar livre), como uma marca de aquelas pessoas estiveram ali e fizeram sua história. Mas, há casos em que a placa é apresentada em um auditório climatizado, mas é bem menos frequente. Então, é recomendável usar roupas mais leves para não dar a impressão que você está morrendo sufocado e, nesse caso, a gravata pode ser deixada para outro dia, caso queira não ir tão formal uma vez que a ocasião não exige tanto.

descerramento

Como vocês podem ver, pesquisei alguns looks mais descontraídos. Na primeira foto, temos uma camisa pólo, cinto, calça jeans e um sapatênis (sim, não é necessário sapato social nesse evento, a menos que você queira). Mas, se preferir, troque por uma camisa social e pode até deixar para o lado de fora. Se você faz um estilo mais fashion, opte por capris, sapatênis e a camisa social. O blazer também pode ser usado e combinado com jeans sem problema nenhum, além de poder trocar a camisa social por uma gola “V”,por exemplo. Opte também por tecidos mais frios e garanta o máximo de conforto nesse momento.

2-Missa

Bem, a missa é geralmente, o primeiro dos eventos religiosos. E devido a ocasião que é mais formal, tradicional, tome cuidado com o tipo de tecido que sua roupa terá. Ele que ditará se sua roupa está de acordo ou não. Bom, lembre-se, você estará em um ambiente considerado sagrado para muitas pessoas, mesmo que você não seja católico, não custa nada demonstrar respeito ao ambiente e às pessoas que lá estão.  Você pode optar pela boa e velha amiga camisa social, mas pode inovar, como sugerimos a seguir:

missa

Se quiser inovar um pouco, que tal uma sobreposição? Uma boa camisa e um suéter por cima (se o ambiente for climatizado, claro), calça e sapatênis (ou sapato social), combine as cores, não precisa ficar apenas no preto e no azul marinho. Cuidado com as mangas, elas não podem ser curtas, que tal 3/4 ou longa? Se preferir usar gravata, ela tem que ficar na altura do cinto, nunca abaixo, nunca acima. Ou, pode usar o blazer, sapato e camisa social e guardar a gravata para outro momento. Também vale ressaltar que  aquela história de combinar cor do blazer, com sapato, cinto, calça e tal, já era! E quanto as meias, cores escuras, nada de usar aquela boa amiga meia branca de algodão. Lembre-se, você vai sentar e uma vez ou outra, ela pode aparecer.

3- Culto ou palestra espírita ou atividade de formados ou culto ecumênico

Se não citei algum outro nome, me perdoem, só conheço esses. Independente da nomenclatura, é um evento religioso e o local também é considerado sagrado para quem dele participa e merece respeito da mesma forma que a missa, caso você seja católico. Evento formal, esqueça bermuda e chinelo, meias brancas e etc e tal:

culto

Manga longa ou 3/4 com ou sem blazer… sapato social ou sapatênis (cuidado na hora de escolher), gravata na altura do cinto, terno ou blazer alinhados são boas composições. Sem exageros na estampa da gravata caso ela não seja lisa. E, sobre barbas, cavanhaques e bigodes…é bom dar uma aparada neles para deixar o look mais up e clean.

4- Colação

Esse é um evento bem tradicional, até porque a elite acadêmica estará lá presente. É  a hora de entregar o canudo, fazer o juramento e participar da outorga de grau. Enfim, formados!!!!! Friso bem o tradicional porque é assim que me falam sobre ele hahahaha. Então, vamos às dicas:

colação

Bem, acho que algumas imagens vocês já viram nos outros eventos. Só um destaque para os padrinhos: terno e camisa manga longa! Sapato social bem engraxado, gravata, uma composição camisa e suéter também vai bem, opte por uma camisa descontraída por baixo e o suéter em uma cor mais fria e será sucesso, nada de camisa por fora da calça.

5- Baile

Tuts, tuts, tuts….se quiser se sentir em uma cerimônia de Oscar, vá em um baile de formatura. Mas, às vezes, pode ser um coquetel ou uma festa temática. Nesse caso, olhe as opções acima :). Maaaas, se for o famoso baile tradicional, hora de tirar os ternos e smokings do armário…

baile

Colete, terno, smoking, não são itens obrigatórios, mas, a camisa manga longa e sapato social, gravata (standart ou slim, deixe a borboleta para os formandos) , alfaiataria com toda a certeza. É  o caráter formal dessa solenidade que a torna tão requintada, além disso, representa a comemoração de uma vitória, a concretização de um sonho. Portanto, tem que ser bem bonito. Em relação ao paletó ou blazer: cuidado com os botões. Se tiver apenas um, pode optar por deixá-lo aberto. Se tiver dois, apenas o de cima é abotoado. Se forem três botões, o do meio é abotoado. Mais disso, foge do clássico masculino.

 Lembrem-se, a roupa também merece uma atenção com a higiene (cabelo, unhas, barba aparada). Espero que tenham gostado das dicas e fiquem ainda mais lindos, cheirosos e gatos, rapazes!

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Descomplicando: Afinal, o que é ZUMBA?

zumba-clothing-shoes-at-dancemania | Haha aqui estou…variando conforme prometido.

Estava pensando sobre o que escrever e então lembrei de uma situação engraçada que passei recentemente. Estava em uma roda de amigos e começamos a falar sobre “coisas fitness”, de repente, se viraram para mim e exclamaram: “Você faz zumba!”, bem, essa exclamação veio acompanhada de um problema chamado falta de informação. Como assim, falta de informação? Simples: algumas pessoas confundem a zumba com o kizomba ou o zouk, que são ritmos africanos totalmente diferentes, na verdade misturam tudo e esses três ritmos viram “farinha do mesmo saco”. Decidi dar uma pesquisada e trazer para vocês o que já sei e outras coisas que aprendi.

Primeiro, a Zumba é ritmo latino (optei por chamar de ritmo, já que não é propriamente uma dança, mas uma mistura de elementos), ou seja, nasceu por aqui mesmo, nas nossas terras vizinhas, especificamente na Colômbia. Ela surgiu de uma maneira super engraçada, seu criador Beto Perez (assim conhecido), coreógrafo colombiano, por acaso, esqueceu seu material em casa e improvisou sua aula com umas músicas que tinha na bolsa combinando a ginástica com ritmos bem latinos, como salsa e merengue. Se prestarem atenção nos passos, reconhecerão facilmente suas influências. Isso aconteceu em 1991. Ele continuou trabalhando e investindo nesse negócio e criou um programa de treinamento fitness chamado de…ZUMBA! Desde então, a Zumba ganhou muitos adeptos em todo mundo e algumas variações de acordo com a faixa etária (Zumba kids, Zumba Gold), uso ou não de acessórios (Zumba Step, Zumba Sentao). O ritmo deu tão certo que cantores famosos, inclusive brasileiros, comporam músicas voltadas para o programa. Que aqui já ouviu o “Largadinho” ou o “Portunhol”?

O que posso ganhar praticando Zumba?

Ótima pergunta! A primeira resposta é S-A-Ú-D-E! Uma hora de zumba (tempo médio de cada aula) queima entre 500 e 1000 calorias) embora esse não tenha sido o foco inicial do criador, ela ajuda no emagrecimento. Contudo, ela também ajuda:

* No desenvolvimento da coordenação motora– os passos são realizados em ambos os lados e direções, então há um foco na lateralidade, que é uma das áreas da psicomotricidade incrivelmente, é a coisa em que mais tenho dificuldade- reconhecimento direita-esquerda hahaha

*Na resistência física– é importante ressaltar que ela não vai aumentar a massa muscular, mas tonificá-la e desenvolver resistência.

* Na autoestima- na zumba, as pessoas riem, se divertem. Isso aumenta a produção do hormônio da alegria e, claro, só tem a contribuir para o nosso corpo.

* No condicionamento cardiorrespiratório– opaaa, como os movimentos são coordenados, a todo instante você é convidado a perceber sua respiração e a utilizá-la, isso ajuda a respirar melhor e, consequentemente, ter uma vida mais saudável.

Citamos apenas alguns dos vários benefícios. Pessoas que tem algum problema de saúde que não permita movimentos forçados ou rápidos, gestantes, precisam ficar atentas às suas limitações.

Onde fazer Zumba?

Bom, hoje em dia, muitas academias oferecem aulas de zumba. Basta encaminhar-se a mais próxima de sua casa e dar uma conferida. Além disso, Perez tem trabalhado no lançamento de CD’s e DVD’s apropriados que podem ser adquiridos e utilizados em casa. Então, não há desculpa para não tentar. Mas, procure sempre um médico antes de se aventurar em qualquer atividade física.

Diante de tudo isso, fica o convite para quem ainda não conhece essa modalidade, procure frequentar ao menos uma aula e descobrir, por si mesmo, os benefícios que ela traz para a saúde. Vale ressaltar também que não basta apenas praticá-la, sem associá-la a um hábito de vida mais saudável e uma alimentação equilibrada. Essa é a dica de hoje 😉

Quer saber como é? Dá uma olhadinha aqui:

Quer saber mais? Visite os seguintes sites:

* Beto Perez. Disponível em: http://betoperez.zumba.com

*ANDRADE, Thamires. Criador da zumba credita sucesso às coreografias simples e divertidas. Disponível em: http://boaforma.uol.com.br/noticias/redacao/2013/12/16/criador-da-zumba-credita-sucesso-as-coreografias-simples-e-divertidas.htm.

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Sobre se tornar mais velho (a)

“Today is the greatest day I’ve ever known
Can’t wait for tomorrow
I might not have that long
I’ll tear my heart out
Before I get out…”

Então, aqui estou eu…iniciando mais um ano novo, em pleno meio de semestre, ultimamente, é assim que tenho visto meu aniversário. Nossa, 21 anos se passaram desde que nasci, nesse tempo, comecei uma carreira, consegui um diploma universitário, encontrei o amor, descobri a amizade, criei e desfiz laços, sem dúvidas ou arrependimentos… acordei poucos minutos antes da meia-noite, e bateu aquela angústia de que o tempo está passando, bateu aquela vontade de voltar ao início e fazer as mesmas escolhas. Ás 00:00 hrs o meu dia começou e fiz uma prece silenciosa com o coração cheio de esperança.

Acho que é isso que acontece quando ficamos mais velhos, de repente, aquilo que insistentemente nos irritava não é mais motivo de alarde, você descobre a magia que é engolir a raiva e o estresse e transformá-lo em algo mais útil, como o perdão. Você percebe que perdoar se torna mais fácil, valoriza mais cada minuto com as pessoas que te fazem. E finalmente compreende aquela famosa frase de Shakespeare: o que importa é quem você tem. Descobre que criar amigos é melhor que criar monumentos e deixar um legado material. Descobre que o que te manterá eterno/a para as pessoas é quem você realmente é com elas, não o que tenha feito por elas.

Finalmente eu me sinto adulta. Bom, quase… hoje, minha mãe disse que a criança que mora em mim jamais morrerá, não importa o quão mais velha eu fique. E eu sorrio, porque começo a acreditar que isso é verdade. Eu começo a tirar lições mais rápido das coisas que acontecem comigo e já as compartilho com quem está ao meu redor. Isso faz parte de tornar-se mais velho/a. Bom, ser adulto/a é legal, quando você realmente sabe quem está se tornando. Algumas manias minhas de menina ainda continuam, muitos sonhos, meus olhos ainda brilham quando escuto algumas músicas ou assisto alguns desenhos, ainda continuo planejando da forma mais inacreditável possível, ainda apronto e saio correndo, ainda ando descalça e digo que “eu preciso me conectar com as minhas raízes”. Meu “eu” adulto cheio de responsabilidades precisa dessa garotinha. E isso…faz parte de se tornar mais velho/a: Decidir o que continuará e o que precisa ser mudado. Não é negar quem era que vai te fazer mais sábio/a com o tempo, mas saber aonde, exatamente, você está pisando. E é essa a segurança que te fará caminhar.  Enquanto eu souber por onde caminhar e mesmo que eu não saiba que eu possa lembrar das coisas que realmente me importam e me tornam quem sou, então saberei  o que fazer.

Vai um bolinho, aí?

Vai um bolinho, aí?

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Capítulo 4

Quando saí, mamãe já estava à minha espera e conversando com ninguém mais, ninguém menos que Maurício! Gabriel já estava no carro com seu videogame predileto. Cumprimentei o rapaz e entrei no carro. Mamãe se despediu dele e saímos. E meu irmão não poderia perder a chance de me irritar ou não se chamaria “meu irmão”:

– Gabi tem namorado! Gabi tem namorado!- ele cantava agudo e aquilo era irritante, mais irritante que ter seus pés sobre mim se debatendo.

– Cala a boca.- resmunguei, chateada. Cruzei os braços e fiquei olhando pela janela.

– Por que a demora? O que o senhor Gonçalo falou?- perguntou mamãe olhando pelo retrovisor.

– Como sabe que falei com ele?- perguntei retribuindo seu olhar pelo objeto. Aquilo era estranho, ela não sabia meus horários.

– O Maurício me contou. –ela respondeu prontamente ao fazer uma curva.

– Mas ele nem…- desisti- uma patricinha desagradável que fez eu me dar mal em um trabalho. Perdi metade da nota.

– Ela não tem esse direito!- mamãe exclamou.

-Não tenho provas, além disso o senhor-sei-de-tudo-não-estou-nem-aí já me deu a sentença e não tenho direito à resposta. Sabia que teria problemas com ele.- continuamos o caminho sem mais conversa. Era meu momento de silêncio e a dona Angélica, como mais ninguém, sabia respeitá-lo.

Meu pai preparou o almoço. Aquilo era um pouco raro, mas não incomum. Estávamos à mesa, juntos, novamente. Uma típica família normal, até minha mãe receber outra viagem da agência. Depois daquele momento fui para o cantinho da bagunça, joguei a mochila sobre a mesa, tirei os sapatos, respirei fundo e perguntei:

– Se você estiver aqui, por favor, apareça…que loucura a minha, foi apenas um sonho…um sonho bem…- falei voltando as costas para o espelho.

– …real? A senhorita é quem pensa…- ele apareceu do lado do espelho, recostado em sua madeira vermelha detalhada em alto relevo.

– Ariel?! Eu não sonhei mesmo…- falei aliviada. Na verdade, aquilo era mais uma prova que minha solidão não estava me deixando louca, mas ele nã precisava saber disso.

– Acho que não- ele sorriu- o que desejas?

-Saber mais…sobre você…sobre mim…anda acontecendo umas coisas estranhas comigo…-falei segurando meu pingente-chave..

– Uma história longa que eu não me lembro bem, queres escutar?- ele se sentou no chão. Estranho dizer que um fantasma sentou no chão, mas foi isso que aconteceu.

– Sim, muito.- fiz o mesmo que ele.

– Há mais ou menos 200 anos, acho que mais, eu tinha 16…eu era como a senhorita, digo, de carne e osso. Minha família era como a sua, viva… guardávamos o portal entre a dimensão mágica e o seu mundo..e agora eu estou aqui, bom, não me lembro de muito.

– Eu? Bruxa?Guardiã? Não é possível…- eu realmente não queria  acreditar.

– Tente. A senhorita acordou levitando, paralisou meu teletransporte e quebrou copos com a mente. Quer mais provas? Observe.- com um simples movimento de dedos, ele fez as lâmpadas apagarem e acenderem. Desafiei-o pedindo que fizesse algo comigo.

– Não posso. A sua áurea…anula teus poderes. Tente os teus. Acredite.

– Quero a Madonna aqui!- fechei os olhos com força.

– Não precisas exagerar. Tente traze aquele copo primeiro.- olhei pra ele. Fechei os olhos, respirei, abri-os, eu vi o copo, eu queria o copo, ele veio até mim.

–  Isso é incrível!- eu sorria, nossa, era demais!

– Queria pedir algo…-ele mudou seu tom de voz, estava triste.

– O que quiser.- respondi me levantando e sentando no sofá. Ele se aproximou de mim, sentou do meu lado, eu não me sentia desconfortável, aliás, eu gostava daquilo.

– Meu sonho é ser livre, mas preciso descobrir meu assassino, recuperar meu medalhão. Ele é a chave e foi dividido em quatro partes: duas chaves e duas metades. Ele é a resposta de tudo.- ele olhou para o chão por um bom tempo e eu fiquei observando-o.

– Prometo ajudá-lo nessa busca. Você tem alguma pista? Como é esse medalhão?- falei me erguendo e caminhando pela sala.

– Eu não faço ideia. Desde o início, há dualidade. Bem e Mal duelam. Nossos mundos eram unidos e agora vivemos escondidos, presos, sem voz. Apenas aqueles que ainda tem assuntos com os humanos podem ser vistos.

– Isto explica em parte meus sonhos esquisitos.- deduzi.

– Como assim?- ele voltou a me olhar novamente. Ouvimos batidas na porta. Era minha mãe. Estava na hora de caminhar.

– Está na hora de contar para a sua mãe, ela não sabia como…não fique fora depois das seis da tarde, será perigoso. – ele olhava pela janela meio perdido, senti um vento gelado tomar conta da minha espinha dorsal.

– Tudo bem.- disse saindo.

XXX

Por debaixo dos esgotos da cidade, havia uma caverna fria e escura. A iluminação era feita com velas, tinham muitas caveiras e ossos por todo o local. Podíamos ver também uma espécie de altar com um espelho (daqueles antigos que encontramos em lojas de penhor), aquele jogo de luz e sombra era sinistro e dava um tom de mistério àquele lugar.

– Meus caros conterrâneos, chegou a nossa era de glória. Senti o espírito de Aleja e sua tataraneta. Ariel ainda está em um mundo paralelo, mas aquela bruxa saiu do seu isolamento. Não posso afirmar aonde estão, mas eles voltaram, há muito almejo aquele medalhão, o portal das duas dimensões. É hora de nos levantarmos e acabar com aquela raça de guardiões! O Caliban retorna para a vitória!- Caliel ergueu os braços para o alto e os abriu.

– Que reinem as sombras!- gritou a assembleia fazendo o mesmo. As sombras tomaram conta do lugar.

XXX

Estávamos a caminho de casa, a tarde foi muito boa, distraí-me a ponto de esquecer o aviso de Ariel. Mamãe dirigia, eu escutava musicas, mas algum tipo de interferência me fez jogar o ipad no banco de trás. Na nossa frente, uma fenda abriu-se e minha mãe desviou o carro. Sombras saíam das fendas e dominavam tudo que tocavam, elas avançariam mas algo ficou na nossa frente e brilhava e afugentaram as sobras que insistiam pelo caminho. O carro continuou o caminho tortuoso, fendas e mais fendas se abriam. Eu não entendia nada, Angélica me abraçou e estávamos na frente de casa.

– Tudo bem, querida?- mamãe colocou a mãe em meu rosto e me abraçou novamente.

– Sim, obrigada. – abracei-a- Por que não me contou sobre os feiticeiros?- olhei para ela.

– É uma longa história, como soube? Quem te contou?

– Um amigo.

– Entre, não conte nada a seu pai; Diga que parei em uma oficina e não demoro. Depois conversamos.- ela me abraçou e se levantou e depois sumiu.

– Tudo bem.- falei me levantando da grama. Tentando limpar o máximo possível os vestígios dela da minha calça para um álibi perfeito.

Fiz conforme pedido por ela. Banhei, troquei de roupa. Quando voltei para desenhar, encontrei minha mãe sentada na cama, convidou-me para sentar ao seu lado. Ariel estava encostado ao lado da janela, de braços cruzados.

– Tem lugar para mais um?- perguntei olhando para ele. Ele estava bem concentrado naquilo, sei lá, estava lindo com aquela cara séria. Sim, sou esquisita a tal ponto de me encantar por um fantasma.

-Quem?- ela perguntou com jeito de quem temia a resposta. Olhou para o lado dele, mas não o viu.

– O meu amigo.- apontei o queixo em sua direção.

– Ele não é um…- ela olhou pra mim assustada- oh! Querida, fantasmas não, por favor, seres de carne e ossos de preferência, esses não são confiáveis, eles perderam humanidade, perderam lembranças, vivem sozinhos…- ela realmente estava desesperada e Ariel desaprovou sua reação com um olhar.

– Não pode vê-lo?- perguntei me levantando e caminhando um pouco para longe. Era demais por um dia.

– Bom, desde que cheguei sinto sua presença, mas pensei que era só o fato de estarmos em uma casa nova. Mas, vejo que me enganei. O que queres saber?- ela voltou a si e olhou pra mim.

– Tudo. Tem acontecido umas coisas comigo: vejo fantasmas, acordo flutuando. Quebro copos e fico hipnotizada.

– Hipnose? Essa é nova. Querida, somos descendentes de guardiões do portal dimensional, mas minha bisavó desobedeceu as regras e fomo punidas. Nossos poderes se perdem a cada geração e apenas temos um de descendência por vez.- ela olhou para o lado.

– Como assim?

-Somos filhas únicas. Ou éramos. Aleja foi enfeitiçada, se apaixonou por um humano e recusou-se a cumprir seu destino. O Caliban conseguiu o que queria, um desequilíbrio. O outro guardião amava a sua tatara e a protegeu, mandando-a para a dimensão mortal, ele tomou o seu lugar e pagou um alto preço por isso. Com isso, o medalhão foi quebrado e espalhado por quatro locais diferentes. O portal sumiu ninguém sabe sua localização, ele precisa ser invocado.

– Bom, hmm, não se nem o que falar, aquele livro que a senhora me deu é o quê? Tudo isso é muito estranho.- mordi o lábio inferior, não é muito fácil você descobrir que, de repente, você tem poderes e tem uma história muito louca que parece ter saído de um livro de histórias fantásticas.

– É o seu livro de magia, nele será gravados seus encantamentos. O meu é cheio de folhas brancas. Optei por uma vida normal, e além disso, tem a perda gradativa de poderes que a nossa família tem sofrido com o passar das gerações. O máximo que consigo é o teletransporte e esboçar o futuro- ela explicou gentilmente, mas sua voz estava meio sombria.

– Então, foi a senhora?- perguntei surpresa, quase não acreditava.

– Não, querida. Foi muito rápido, não tive tempo de me concentrar. Há muitas lacunas nesta história mal contada- por um momento, ela olhou na direção do meu amigo fantasma como se pudesse vê-lo. Ele fez cara de poucos amigos, por um momento, achei que eles estava se vendo.

– Querida, hoje é o seu dia de fazer o jantar!- gritou papai da escada. Logo depois que minha mãe saiu, Gabriel entrou correndo no meu quarto,  sujo e descalço e jogou-se sobre a minha cama. Olhei para ele e mandei que saísse, ele, obviamente, não quis me ouvir.

– Sai daqui agora!- gritei ao jogar uma almofada nele.

– Nem me acertou besta, na na na na na na- ele fez careta e começou a correr pelo quarto. Quando eu gritei novamente, uma força estranha empurrou-o na parede do corredor. Não foi grave, mas eu me senti muito culpada por não me controlar. Ele começou a chorar, corri e abracei-o, pedi um milhão de desculpas, ele me abraçou. Apesar de brigarmos constantemente, eu o amo e seria capaz de matar por ele se fosse o caso.

Depois do jantar, fui estudar Álgebra, apenas mais um assunto e eu poderia descansar daquele tormento. Coloquei o caderno sobre a mesinha e só de olhar fiquei com vontade de morrer, em algum momento daquela equação eu me enforcaria no cosseno e  a tangente seria a testemunha. Ariel não estava no quarto, olhei fixamente para a  janela, eu só queria um dia comum, com minha família musical e desastrada, com meus recorrentes problemas com matemático e o meu convívio antissocial, eu só queria por um momento, uma vida como a de antes, sem acontecimentos extraordinários, humanamente normal ao jeito Cavalieri de ser. Desisti de estudar, a teoria era fácil, mas a prática…

XXX

Maurício concluía seus deveres. Quando terminou, pegou seu violão e tirou a partitura que Gabriella tinha composto. Não era tão difícil e a simplicidade das notas que ela utilizara eram carregadas de emoção. Na letra, havia  a história de uma garota e suas diversas faces que mudavam como cavalinhos no carrossel. Ele sorriu, ela realmente não era como as outras. Fechou os olhos enquanto tocava novamente a música, dessa vez, ele cantou. A música parecia emanar de si. Uma estranha sensação percorreu o seu corpo e ele voltou a si. Olhou para a porta e teve uma surpresa.

– A senhora está aí há muito tempo?

De pé, no batente da porta, estava Alessandra, de braços cruzados, ouvira seu filho tocar. Vinte anos mais nova que seu esposo, era a docilidade em pessoa. Seu cabelo era na altura do pescoço, levemente ondulado, entre preto e loiro estava amarrado em um “rabo de cavalo”. Seu olhar meio arrendodado, a fazia parece uma asiática se não fosse pelos olhos cor de mel. O vestido floral longo dava-lhe um ar mais jovial. Observava seu filho com ternura e amor, ela tinha chorado. Enxugou uma lágrima recalcitrante  e sorriu.

– Só o suficiente para entender tanta emoção. Esta letra é sua?- perguntou sentando ao lado do filho na cama.

– É de uma amiga- ele sorriu  novamente.

– Uma amiga? Você sabe quem eu sou, não é?- ela retrucou desafiando-o.

– Sim, minha mãezinha linda e maravilhosa que me conhece tão bem a ponto de saber que se depender de mim, ela não será apenas uma amiga. – ele a abraçou e beijou seu rosto, depois olhou para a interlocutora- A Gabriella é incrível, me fascina. É muito reservada, foge de todos e de mim- essa parte ele disse com tristeza.

Alessandra sorriu e foi pegar a capa do violão do filho.

– Hmm. Gabriella de quê?

-Gabriella Cavalieri- a mulher mudou de cor. Estremeceu. Não podia ser. Era impossível. Recordações vieram-lhe à mente.- Mãe?- repetiu novamente Maurício preocupado com aquele transe.

– Oi, querido.- ela voltou a si e sorriu para disfarçar.

– A senhora está bem? Algum problema?

– Quero saber mais. E não me esconda nada mocinho- ela sentou na cama novamente e deu cócegas o filho. Eram mais que parentes, eram amigos, melhores amigos: mãe e filho. A brincadeira não durou muito, Gonçalo apareceu na porta informando sobre o horário.

XXX

Caminhei apressada, a mochila pesava. Meu livro estava sobe o fichário, no braço esquerdo. Passei por Bianca sem me atrever a levantar o rosto, se eu tivesse sorte, seria desapercebida até me formar. Aliás, eu só queria olhar para o chão. Quando estava de saída, pude ver Fernanda se destacar dos demais, estava na frente de Érica que acenava para mim. A garota pulava e sorria, por favor, que não fosse comigo, a outra apenas sorria. Aproximei-me delas receosa.

– Quer ir ao circo?- Erica me estendeu um anúncio- Como você é minha amiga será a fotógrafa para o jornal da escola, não é?

AMIGA, pensei. Aquilo era novo. AMIGA. Sorri amarelo e estremeci. Alguém não fugia de mim, aquilo era um máximo! E preocupante.

– Eu serei a “camerawomam”, o que acha?- Fernanda estava com uma filmadora- Ah, o que é isso? Sorria!

– Ah, sei lá…- o Sol estava forte. Olhei para fora, havia muitos alunos esperando seus pais, muitos já chegavam.

– Se for mais um pouco para o lado, terá um ângulo bem melhor Gabriella- falou Maurício por trás de mim. Desprevenida, pulei de susto. Procurei algum lugar para me esconder e distingui o doblô de minha mãe. Corri sem medo.

– E o circo?!- gritou Erika.

Virei para eles e gritei que iria. Sei lá, nem sei como surgiu tanta coragem, acenei para eles. Quando virei novamente, dei de “cara” com Fernando, o cara mais inteligente da minha turma de Física. Caímos no chão, meus papeis voaram, meus cadernos caíram, meu livro de encantamos saiu escorregando, Maurício correu para nos ajudar.

– Desculpa, desculpa, eu não queira… ai, como sou desastrada!- falei apanhando os papeis dele. Coloquei meu cabelo para trás.

– Não, tudo bem- ele sorriu metálico.

– Olha, qualquer problema depois é só falar…

– Eu…eu..eu…eu me viro, não se preocupe.- ele sorriu, sua liga era azul- Meu óculos…- ele tateava o chão,

– Eu..é.. aqui está…eu compro outro não se preocupe. – uma das lentes estava quebrada.

Levantamos, arranquei uma folha do meu caderno e escrevi meu telefone, estendi o papel pra ele.

– Me liga pra conversarmos depois e tu me dizer o preço tá bom?- sorri pra ele.

Alguns rapazes se aproximaram de tiraram chacota dele. “Até nerds tem seu dia de rei”, disseram. O rapaz ficou encolhido.

– Não liga, eles são idiotas. Prazer, Gabriella Cavalieri- estendi minha mão.

– Fernando Stevan- ele sorriu de volta pra mim.

-Vê se me liga, ouviu?- encorajei. Continuei o meu caminho, até que alguém me puxou para trás.

– Você vive perdendo as coisas, não é mesmo?- era Maurício, ele me apontava o livro.

– Obrigada.- peguei o livro e aumentei a distância entre a gente.

– Então, eu preciso ser ruivo, ter sardas, usar óculos, aparelho de liga azul e camisa xadrez para conseguir teu número?

– Algum problema com nerds?- desafiei-o, me soltei dele e saí em direção ao doblô esverdeado.

– Um dia e tanto- minha mãe sorriu, ao me ver entrar no carro.

– Nem me fale.- suspirei ao colocar o cinto.

No caminho, Gabriel jogava videogame e chutava o meu banc. Gritei pra ele parar e o PSP dele queimou.

“Há algo de muito errado. Gabriella tem poderes extradordinários”, pensou minha mãe. Hã? Eu comecei a ler mentes? Tudo bem. Isso é um sonho. Não sou uma bruxa, não um fantasma morando comigo, não tenho poder algum e não leio mentes. Não mesmo.

Estremeci no banco e me encolhi.

– Querida? Querida? Está me ouvindo? – perguntava uma voz ao longe.

Senti que alguém me beliscava meu irmão. Voltei a mim. Angélica não sabia se olhava para mim ou para a estrada. Paramos em um sinal, outro carro estacionou ao nosso lado, esperando a cor do semáfaro trocar. Olhei para o homem careca que estava ao volante, não era ele , quer dizer, era e não era. Ah, sei lá. Seus olhos centilaram ao encontrar os meus e sua aparência mudou as orelhas surgiram pontudas e com brincos, o nariz pontiagudo com uma verruga e ele ficou verde! Pisquei os olhos , o sinal mudou ao tentar vê-lo novamente, percebi sua normalidade.

Ao cegar em casa me sentir avaliada pelo fato de no outro dia ser sábado. Sem patricinhas, sem professor de matemática, sem micos ( ou melhor gorilas ). Abracei meu pai que estava perto do balcão da cozinha preparando o almoço. Subi a escada que dava acesso ao 2º piso, Gabriel saiu correndo na frente e entrou no banheiro primeiro. Bom, eu teria que esperar.

Frustrada, sentei na minha cama com meu livro de feitiçaria nas mãos. Meus dedos percorriam cada detalhe gravado em alto relevo. As rosas vermelhas que se enroscaram nos galhos, abrindo espaço para a fechadura.

– Bú! – soprou alguém no meu ouvido, caí com o susto.

– Desculpe – ele falou me olhando, no chão. Acomodou-se melhor na minha cama, um joelho cruzado sobre ele, costas no apoio de trás.

– Isso virou rotina – coloquei primeiro o livro sobre a cama e balancei a cabeça no intuito de tirar a cabelereira do meu rosto. – Ainda pensava que isso era um sonho.

– Magia não é brincadeira. – ele me repreendeu, mas feito criança mudou seu humor rapidamente e sorriu. Perdoe-me novamente, sou um fantasma. Fazemos isso.

– Isso? Tipos possessões de corpos, estrangulamento das vias córneas até a morte, brincadeiras de mau gosto, incêndios que parecem acidentais?

– Nem todos, só os que enlouquecem e não aceitam sua condição nova. A senhorita sabia que a maior prisão é a solidão? De repente, você está morto, quer ser escutado, pede ajuda, mas simplesmente ninguém o nota. Primeiro, você entra em depressão, depois torna-se agressivo, concentra seus poderes de forma negativa. Aí, aparece o Caliban. – Ariel estava concentrado como se olhasse para dentro de si mesmo.

– Caliban?

– O quê? – ele virou-se rapidamente para mim.

– Ah, não se faça de bobo! Você acabou de falar  em um tal de Caliban, espíritos inconformados.

– Perdoe-me, não lembro de nada. Eu disse algo? – ele brincava fazendo as lâmpadas acenderem e apagarem. Olhei para cima . Levantei para banhar , meio constrangida, tive que perguntar se ele não via pelas paredes. Com cavalheirismo e envergonhado também, Ariel que isso só aconteceria se ele atravessasse a parede o que seus princípios impediam.

Fernando estava mexendo na sua caixa de e-mails quando recebeu um que o deixaram triste.

E aí nerd do dente de ferro, vai dar o quê pra Gabriella? Uma proteção contra esse cabeção de jaca? Vê se te manca, aqui não é teu lugar não “ Iro men “.

Pô! Quê que tu tá pensando da vida? Teu aparelho tá dando interferência no meu PC e o teu cabeção da p… não me deixa respirar aspirando todo o ar. Aí não é estudo não, é ar seu bocó!

Extremamente abalado, ele levantou-se da mesinha do PC e pegou um de seus troféus que tinha um formato de DNA. Com raiva, ele lançou-o na tela do computador. Sua avó assustada, correu até o quarto do neto a tempo de impedir que ele quebrasse tudo. Depois de calmo , sua avó deu-lhe um calmante. O garoto adormeceu, mas isto não impediu que esse fato  continuasse em seus sonhos.

Fernando era um nerd. Não tinha amigos, namorada, pais, nem tampouco vida social. Quando seus pais morreram em um acidente, ele passou a morar com sua avó, uma doce senhora sábia, mas radical quando se fala das mudanças que acontecem na sociedade desde quando ela era jovem.

A senhora Stevan cuidava do neto, como se fosse até seu filho adolescente, o que não era muito diferente.

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Capítulo 3

-Quem é ele? É legal? Oh, desculpe querida. Atrapalhei algo?

-Não, mãe. A situação estava ficando embaraçosa mesmo. Sabe como é.- fiquei observando-a. Seus cabelos castanho-claro, cortados médio deixavam seu cacheado mais lindo ainda. Os olhos da mesma cor, estavam fixos no caminho. Ela me olhou e sorriu. Lembrei do retrato dos meus pais sobre a estante. Meu pai com seu cabelo preto e curto, seu rosto quadrado e barba sempre por fazer. Seus olhos verdes a olharem fixamente minha mãe e com tanto amor e ternura que aquela foto era minha preferida.

– Vamos passar em um restaurante primeiro. Hoje teremos comida chinesa.- ela comemorava e começamos a sorrir juntos, minha mãe, meu irmão e eu.

– Algum motivo especial D. Angélica.- perguntei logo depois de aplaudir.

– Minha próxima viagem, em dois meses.- mamãe estava muito contente. Ela iluminava tudo a seu redor mesmo. Por isso tinha meu amor, admiração e respeito.

O almoço em família foi ótimo. No finalzinho da tarde, voltaria à caminhada com minha mãe. Fiz as tarefas de casa, Gabriel começou a gritar do banheiro. Corremos até o cômodo, assustados, ele estava encolhido na banheira e tremendo de medo.

– O que foi filho?- minha mãe perguntou quase sem fôlego.

– Mãe, eu vi um garoto no espelho- ele apontou para o armário de escovas, estava com muito medo. Retruquei que ele havia visto seu reflexo, mas ele estava muito certo do que falava, ao menos parecia. Minha mãe ficou com ele e eu saí, aliviada, por não ter acontecido nada de ruim com ele.

XXX

Maurício tocava em seu quarto repleto de pôsteres de bandas de rock, mais parecia um museu. Seu pai chegou do trabalho e sem perceber tempo, começou a discutir com o filho sobre seu futuro profissional.

– Meu filho, você deveria estar estudando ao invés de perder tempo como os vagabundos de seus amigos. – ele disse entrando no quarto do rapaz,a porta estava aberta, nem precisou bater.

-Pai, eu quero fazer música. Não quero ser um médico…- o rapaz  manteve o tom sereno em sua voz, diferente das outras vezes em que brigavam.

-Você é meu filho, mora na minha casa e vai fazer medicina sim senhor! Onde se viu um aspirante a músico sobreviver disso? Se quiser vencer na vida, desista de seus sonhos!

– Nunca! A vida é minha e dela cuido eu!- o garoto deixou o violão sobre a cama e saiu do quarto, desceu as escadas rapidamente e nem percebeu sua mãe colocando a mesa.

-Querido, tenha paciência com seu pai.- a mulher pediu enquanto o rapaz se apressava em sair de casa.

-Mãe, eu tento, mas tem horas que… Tenho que dar uma volta, esse ar está me matando.- sem rumo, ele saiu caminhando. As mãos no bolso da calça jeans, o vento a bagunçar seu cabelo e a fornecer-lhe uma sensação de liberdade nunca antes sentida por ele.

Mamãe é muito versátel: Quando está em casa, à tardezinha faz caminhada comigo, uma coisa que amamos fazer juntas, na realidade, sou a cópia perfeita de minha mãe em muitos quesitos, conversamos sobre tudo, ela é meu segundo diário e ÚNICA amiga. À noite, quando chega, joga videogame com o Gabriel (sim, ela é jovem ao extremo, mas sem perder maturidade). Não tem como não amá-la. Era para ser um momento bem agradável, mas à medida em que caminhávamos sentia que minha rotina seria quebrada, talvez fosse apenas a saudade que eu tinha dela após suas viagens, sei lá, mas era uma sensação estranha. Entre os rostos que passavam por mim, um deles prendeu minha atenção, não por ser ele, mas por ele vir em minha direção me olhando com aqueles olhos que me faziam perder-me neles. Ele parecia decidido a falar comigo e eu estava decidida a me jogar no próximo bueiro que eu visse para evitar tal situação embaraçosa.

Oi, Gabriella!– ele falou com aquela voz de locutor de programas românticos da meia-noite, ou algo parecido, a verdade é que é bem difícil discernir a perfeição dele, será mesmo que eu disse isso?

Olá, Maurício.– falei meio sem jeito e procurando já uma estratégia de saída rápida e sem levantar suspeitas- Ah! Essa é a minha mãe, Angélica. Mãe, esse é o Maurício.

-Prazer, senhora Cavalieri.– ele estendeu a mão e a cumprimentou, um verdadeiro gentleman.

-O prazer é todo meu. Que rapaz formoso e educado tú tens por amigo, querida. O genro que toda sogra teria orgulho em ter.

Agradecimentos especiais a minha mãe, por estragar meu dia e minha vida também. Não bastasse isso, ela tinha que inventar uma história sem pé nem cabeça para nos deixar a sós. Saiu em direção ao carro e Maurício prometeu me levar em casa. Fiquei atônita, desajeitada e sem reação, matar, morrer ou fugir/

-Então, está gostando da escola?

Perguntei-me se ele gostaria de ouvir a verdade ou se seria bem melhor dizer um “sim” e acabar com a conversa. Não seria muito cordial de minha parte, eu sei, mas eu não me importava se conseguisse meu intento. Mas, não, eu tinha que conversar com ele…

Você é a segunda pessoa que faz essa pergunta hoje.- falei olhando para o chão, buscando em minha mente possíveis saídas, ela nunca trabalhou tanto naquela tarde.

Isso é bom ou ruim? Mostra que és uma boa observadora- ele sorriu de canto de boca, eu vi e, claro, fiquei toda derretida- Queria terminar nossa conversa pode ser?

Não, não pode. Pra falar a verdade, quero ir pra casa, conversar me incomoda um pouco, na realidade, muito.

-Só não garanto te dar respostas.- ataquei.

Quero arriscar.- ele riu novamente, dessa vez um pouco mais alto, ele gostava de desafios. E, percebi com isso, que ele não desistia facilmente e que aquilo o incitava mais ainda. Eu teria problemas.- Que instrumentos você toca?

Respondo ou não respondo, eis a questão.

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Capítulo 2

O dia me parecia comum, passávamos por uma praça muito verde, a grama brilhava com o toque do Sol. Vi pessoas estranhas, com chapéus estranhos e roupas esquisitas. Animais com forma de gente conversavam com seres humanos, tudo bem, aquilo já não era mais comum e eu certamente estava sonhando. Corrí para casa e vi minha mãe com as mesmas roupas, no meu quarto, em frente ao espelho, vi-me com as mesmas vestimentas, eu não era eu, aqueles trajes…fechei meus olhos e quando percebi, estava flutuando. Escutei o despertador, um barulho contínuo e estridente ecoando no meu subconsciente, finalmente, acabei acordando, mas eu ainda flutuava. Bati em meu rosto várias vezes gritando “Acorda!”, eu estava levitando! Meu pai abriu a porta do meu quarto e quando ele fez isso, caí na cama.

– Querida, o que houve?!- ele perguntou desesperado, abrindo a porta e seguido por Gabriel. Eles estavam despenteados e muito, muito assustados.

– Só um pesadelo, pai.- despistei, assim que eles entraram, eu caí sobre a cama. Doeu um pouco, pela força da queda, mas era melhor manter segredo daquela coisa estranha.

Quando ele saiu, fui me arrumar. Olhei para o espelho e me vi com aquelas roupas esquisitas. Fechei meus olhos com força e desci para  o desjejum.

– Filha, esteja ao meio-dia e quinze em frente a sua escola. Assim, eu não me atraso na escola na escola de música. Gabriel esteja ao meio-dia na sua. Combinados?- meu pai planejava enquanto retirava a mesa.

– Sim, pai- falamos enquanto recebíamos os pacotes com nossos lanches.

A escola me pareceu melhor do que eu me imaginava, não sei se era a minha tendência em ver o lado ruim das coisas ou sei lá o quê, mas era assim. A galera me olhava da cabeça aos pés, mau dia, mau dia, mau dia…parecia até que eu havia cometido algum crime, continuei meu trajeto cabisbaixa, evitando encará-los já era muita vergonha ser o centro das atenções, vai, eu não me vestia mal, tinha bom senso e adorava sites de moda, então, descarta a opção vestuário, eu não tinha nada que chamasse a atenção, nenhum atributo físico extraordinário, então, se quisessem, poderiam parar de me olhar daquela forma. Na secretária, recebi uma papelada enorme, o pior é que eles fizeram brincadeiras comigo, demorei até me situar, em virtude da bondade incomum de meus anfitriões, me perdi e me atrasei para a primeira aula, consequentemente. Era Química, bom, eu não faria tanta questão de assistí-la, afinal, era Química… a professora foi bem receptiva e, como se não bastasse a “humilhação” de ser novata vítima de olhares curiosos, ela ainda pediu que eu me apresentasse à turma.

– Vamos lá, Gabriella, fale um pouco sobre você e sua antiga escola.- ela não tinha nenhuma má intenção, parecia legal, sua voz era doce e, por um momento, senti-me encorajada, mas não.

-Bom,eu..hmm.., eu..- travei aí mesmo. Palavras, onde estão quando eu mais  preciso? Timidez, pra quê te quero? A professora percebeu e deve ter se sentido culpada, me salvou daquele momento constrangedor e ainda me poupou de perguntas.

Cinética Química, quem vê diz que eu entendo algo. Tentei me concentrar, eu juro. Mas, assimilar que as reações têm velocidade que depende de uma constante e da concentração de reagentes é, para mim, coisa de outro mundo. Talvez um planeta de nerds, ou Júpiter mesmo. O sinal tocou e saímos, próximo massacre: Álgebra, segunda e terceira aula. Quem havia organizado aquele horário carrasco? O professor já tinha idade avançada, quero dizer, não que ele estivesse em estado de putrefação, porque ele ainda estava vivo, mas tinha cabelos brancos, muitos mesmo, o que o caracteriza com uma idade avançada. Gonçalo se não me falha a memória. Mas, o que aconteceu de bom mesmo, foi um garoto do terceiro ano que me ajudou com o mapa, eu estava tentando decifrá-lo de cabeça para baixo, havíamos topado no corredor e ele foi muito gentil apanhando meus livros do chão, seu nome era Maurício e era filho do carrasco futuro, mais conhecido como meu professor de Álgebra.

– Boa sorte com meu pai! Nos vemos por aí’- gritou ele enquanto eu caminhava rápido para compensar o tempo perdido.

Mais um assunto que eu não entendia e do qual não fazia ideia mesmo. Eu não me concentrava, não por ser uma distraída, mas o colar que ele usava me atraía. Era um prisma pequeno com uma ponta, o brilho dele me fascinava e eu ouvia uma música emanar dele como se estivesse me hipnotizante, tudo bem, eu estava viajando legal e olha que eu tomei apenas achocolatado. Nem percebi que o sinal havia tocado.

– Mocinha, bateu o sinal. Caso ainda não saiba, preciso trancar a sala.- disse o professor com sua voz rouca e de velho, ele me assustava realmente.

-Ah, sim. Desculpe-me.- fiquei vermelha de vergonha, recolhi meus livros timidamente e saí tentando esconder minha cara.

***

Maurício era um rapaz alto, forte, cabelo preto, liso, curto, olhos verdes. Seu rosto era perfeito: seguia em linha reta até cair no queijo quadrado, era meio bronzeado. Sua postura era imponente, mas era simpático e divertido. Trabalhava em uma lanchonete e era capitão das equipes de judô e karatê da escola. Era filho de Gonçalo Castella, doutor em Matemática, pai e professor autoritário. Baixo, cheinho e muito ranzinza. Pai e filho viviam em conflito quando o assunto era futuro.

***

De duas coisas, lembro bem daquele dia: meu encontro com o lindo do Maurício e a declaração de guerra das patricinhas. Tudo por causa de um tropeço meu e um copo de suco na blusa da líder delas. Nem adiantou pedir desculpas, eu estava encrencada e elas me perseguiriam o resto do ginásio ou por toda a eternidade, o que demorasse mais. O resto do dia correu bem, no horário combinado, papai apareceu, nossa, respirei tão fundo que me senti afundando no navio Titanic quando vi o doblô esverdeado parar a poucos metros de mim.

Passei a tarde concentrada nas tarefas, eu me esforçava. Ao anoitecer, fui para o meu refúgio, peguei uma tela e comecei a desenhar, de início, não sabia bem qual seria o desenho final, mas aí, eis que me surge o rosto daquele garoto do retrato. Meu irmão começou a tocar bateria no seu quarto em um volume ensurdecedor. Prevenido, trancou a porta, ah, se eu o pegasse! Desisti de gritar e bater em sua porta, era o que ele queria. Voltei a desenhar e conferi os dois garotos, incrível como eu tinha aquele rosto gravado em minha memória. Papai pediu para entrar e me entregou um embrulho nas mãos, era o presente de mamãe: uma corrente fofa com um cristal vermelho que parecia ter um líquido dentro. Na caixa, tinha uma espécie de livro antigo, a capa era vermelha e em alto relevo com rosas em toda ela, o colar era a chave e eu, no meu instinto Sherlock, deduzi ser um diário.

Dormi bem, nem tanto, tive outro sonho, sim, mais um daqueles estranhos. Vi uma mulher parecida comigo com roupas vermelhas, parecidas com as de filme de bruxas, só que mais elegantes, tinha também um chapéu pontudo. Ela estava correndo e segurava um medalhão com uma pedra vermelha brilhante e um livro em mãos. Duas pessoas de preto perseguiam-na, eram rápidos, não podiam ser humanos. De repente, vi-a estendida no chão e quando eles saíram, corri até o corpo estendido no chão, virei-a para ver se podia ajudar e, para a minha surpresa, era aquele garoto. Ele suspirou o nome “Aleja” e parou de respirar. Tentei reanimá-lo, uma forte luz invadiu o lugar e eu acordei. Ainda era noite, levantei e fui à cozinha tomar leite. Estava frio e eu havia esquecido as pantufas, pensei que se eu morresse ali, minha mãe perceberia que eu estava sem pantufas e comentaria isso, seria hilário e uma lembrança boa de mim para ela, a pergunta que não queria calar “por que eu estava pensando em morte?”. A janela abriu sozinha e uma rajada de vento entrou no ambiente, muito sinistro, meu coração gelou. Fechei-a e antes de voltar para a cama, fui olhar meu irmãozinho, parecia uma anjinho dormindo. Seu cabelo loiro dourado caía sobre seus olhos azeitonas, cobri-o e saí devagarzinho para não acordá-lo.

Não lembro se sonhei novamente, nem sei se dormi. Não havia lembrança alguma. Minha mãe chegou antes do café, comeríamos em família novamente, papai estava apressado, afinal, estávamos atrasados. Como não tenho amigos, fui direto para a classe sem falar com ninguém. Estava desenhando no caderno e vi Maurício pela janela. Perdi-me naquele momento ao observá-lo, até ser “puxada” à realidade com uma garota que veio falar comigo. Geralmente, as pessoas fogem de mim, mas esta,era diferente.

– Oi, sou Erika. Gabriella, não é? O que acha da escola? Está gostando? Percebi que ficou meio sem jeito com a senhorita Mônica ontem, está tudo bem não está?-Fiquei sem fôlego com tantas perguntas. Respirei fundo e falei:

– Acho…si,,,é…bom…tudo ainda é muito novo pra mim- a campa tocou. Obrigada campa maravilhosa, livraste-me de mais uma e minha gratidão para ti é tanta que nunca mais reclamo de você sua linda. A garota recolheu seus livros e saiu do meu lado,

-A gente se vê. – ela sorriu e não era um sorriso falso. Era verdadeiro, ela qqueria ser minha amiga, eu senti aquilo. Deveria estar muito feliz com isso, uma amiga que não fosse minha mãe, mas fiquei um pouco temerosa. Devia ser pela situação diferente.

– Tudo bem.- acho. Senti um calafrio por mim a dominar-me.Peguei meu material, ouvi novamente aquele som que me fascinara uma vez. Era como se ela me chamasse, mas é óbvio que eu não iria procurar aquele professor. Ah, isso não.

XXX

Erika Camargo, uma garota extrovertida, espontânea e alegre. Cabelos ruivos compridos, franja diagonal, olhos com uma cor entre verde e azul. Carrega consigo muita alegria, seus pais são de uma família circense e transmite mensagens de esperança e alegria sempre que pode. Feminista radical. Digamos que é a “rebelde” da escola. Está por trás de todos os protestos e movimentos revolucionários. Talvez por isso, é a diretora do jornal e do grêmio da escola.

XXX

Erika sentou-se ao meu lado no refeitório, tagarelava muito. O bom é que eu não comeria sozinha e tampouco precisava ficar falando. A garota gostava mesmo de falar e fazia isso por nós duas. Vimos Maurício vir ao nosso encontro na mesa, ele se destacava entre os demais, ao menos pra mim.

-Maurício, senta aqui com a gente- convidou Erika, apontando para uma cadeira vazia ao nosso lado. Ela era muito ativa e se mexia o tempo todo. Era legal isso.

– Oi, Erika! Oi, Gabriella!- ele nos cumprimentou sorrindo e acenando, se aproximando cada vez mais da gente. Vi também Bianca se aproximar dele. De fato, ela era muito linda e chamava atenção, mesmo de uniforme.

-Maurinho, vem comigo. Estamos sentados naquela mesa. Vem, por favor.- ela pegou no braço dele, e pediu com tanta ‘melação’ na voz que dava vontade de vomitar, ele cedeu e sentou-se com ela. Mas , não interagia com o grupo.

Quando as aulas acabaram,saí correndo. Claro, louca para ir para casa e não encontrar mais ninguém, principalmente aquela garota patricinha que não ia perder nenhuma oportunidade. De repente, eu estava sentada naquele banco da praça, esperando minha carona, mas havia segundos que não. Parecia que meu espírito estava fora de mim, ou melhor, que eu não era eu.

-Oi, Gabriella.- e voltei a mim, um garoto sentara ao meu lado e, claro, era o Maurício.

-Maurício?!?- perguntei assustada, afinal, havia voltado à Terra novamente.

-É, acho que sou eu mesmo- ele sorriu divertindo-se com a situação-você deixou isso quando topamos ontem. É sua?- ele perguntou me estendendo uma folha, seu rosto contra o Sol me fez ficar meio desnorteada, como que aquele cara podia ser tão gentil comigo?

-Está tão ruim assim?- perguntei encolhendo-me um pouco até que meu pescoço ficou na altura da gola do meu casaco. Que embaraçoso.

– Não, ela é linda. Tirei as notas no meu violão e se não se importa, completei a canção, sério, gostei muito.- ele sorriu novamente, não sei se ele conseguia ouvir meu coração, só sei que corei um pouco. Não estou acostumada a elogios vindos do garoto mais lindo e perfeito de toda a escola, ops, será que eu estava me apaixonando?

-Tudo bem.- virei o rosto um pouco de lado para evitar encará-lo, sim, sou mestre nesta arte.

-Então, quer dizer que além de uma garota linda,tenho uma compositora na minha frente? Isso é incrível!- ele parecia entusiasmado realmente- Vem cá, você toca também? – acenei com a cabeça- Quais instrumentos?

Pude escutar o carro buzinando. Minha salvação pessoal sempre chegando na hora certa. Oba, oba, oba. Sem mais perguntas, sem mais constrangimentos e probabilidades de muitos king kongs.

– Tenho que ir.- falei colocando minha bolsa tiracolo novamente e me levantando. Ele pareceu meio decepcionado, mas contanto que eu saísse daquela situação, para mim, estava tudo bem. Mal entrei no doblô esverdeado, colocando o cinto, uma “chuva” de perguntas começou a cair e realmente pensei em voltar para o primeiro interrogatório. Só que não.

-Não!- acordei assustada. Eu não estava dormindo, eu já tinha acordado, mas vi aquele garoto da foto me olhando. Pisquei várias vezes, ele sumiu. Mas eu sabia o que tinha visto, concentrei-me um pouco naquilo e ele apareceu, parecia que tinha interferência ele sumia e aparecia.

-É apenas um sonho, acorde- ele sussurrou pra mim. Ah! Fala sério! Um personagem do meu sonho, me dizendo que é um sonho e me pedindo pra acordar? Não mesmo.

-Estou bem acordada! Quem é você?- perguntei me levantando da cama e indo ao seu encontro, por precaução, estava com uma almofada em mãos.

-Se me libertar, eu falo- ele disse desapontado, parecia que aquilo magoava seu ego. Fantasmas tem ego? Bom, aquela altura eu não sabia o que ele era.

– Como assim?- perguntei atordoada tentando entender aquilo.

-Seus poderes anulam os meus- ele falou com um tom que parecia tão óbvio que me assustei.

-Cara, fala sério. É assaltante? Ah, já sei… um programa daqueles de pegadinha? Hahahaha que coisa mais sem graça- Obviamente. A graça estava comigo falando com um fantasma. Hahaha.

– Não, senhorita.- sua voz era tão suave que inibiu o meu medo. Eu me sentia à vontade com ele. Ele caminhou até a minha cama e sentou.

– Não estou te prendendo, não mesmo. Pode ir para onde quiser. –falei.

-Sou um fantasma. Estou nesse estado há mais ou menos uns 200 anos. Os descendentes da minha família decidiram vender a casa, talvez porque eu goste de me divertir um pouco demais com as pessoas, é que nessa existência eu me sinto muito solitário. Estou preso aqui, não lembro muito do que aconteceu antes da minha morte, é estranho… mas a senhorita me é familiar. –olhei em seus olhos, era verdade.

-Qual o seu nome?

-Perdoe a minha falta de modos. Sou Ariel Amedran, o fantasma que “assombra” esta casa.- ele sorriu, eu também.

– Você falou que eu estava te prendendo? Como assim?

– A senhorita é descendente de feiticeiras, assim como eu. Mas eu não consigo lembrar de minha anterior com todos os detalhes. Estamos ligados de alguma maneira…

– Não é possível! Minha mãe é uma “doidinha”, meu pai, um músico, como eu sou feiticeira? Cara, agora você viajou de vez. Eu? Bruxa? Ah, tá… Acreditar em fantasmas é uma coisa, em contos de fadas é outra.

Ouvimos badaladas. Era meia-noite.

– Não tenho muito tempo. Preciso ir- ele sumiu.

– Se você estiver por aqui, promete voltar?- perguntei meio desapontada já que ele parecia não ouvir.

XXX

Do outro lado da rua, Charles e Fernanda fecharam as janelas e revelaram suas verdadeiras identidades. Eram como diamante em suas roupas brancas, estranho que, com tamanha luz eles não chamavam tanta atenção da vizinhança. Eram mais belos ainda naquela forma.

-Parece que Ariel finalmente usou seus poderes a ponto de o detectarmos. Há muito não o sentia.- falou Charles virando-se para sua irmã.

-Também o sinto, devemos protegê-lo e a família Cavalieri. Ele precisa fazer a passagem, precisamos traze o equilíbrio entre as dimensões.- ela disse enquanto os dois flutuavam pelo meio da sala, a garota tinha o olhar longe como se pudesse ver o que aconteceria se o fantasma não realizasse a passagem.

– Não se trata apenas do nosso trabalho. Os Aldeãos e o Caliban também possuem seus interesses nessa história, os primeiros querem justiça, o segundo, vingança e nós… bom, ainda não sei o que Ele quer.- ele olhou para o teto, mas via além disso, podia ver as estrelas além das densas nuvens e bem mais além.

-Temos que guardar os sonhos deles, é o momento em que estão mais desprotegidos. No sonho não sabemos distinguir a realidade do que não existe, isso pode levar à morte. Eles são nossa responsabilidade, viemos aqui para isso. Vamos começar o círculo, a batalha se prolongou através dos anos e o medalhão é o grande prêmio.

XXX

O sinal tocou, ao passar pela mesa do senhor Gonçalo, ele me deteve. Claro, eu estremeci da cabeça aos pés, gelei, acho que meu sangue parou de circular. Sim, ele era apenas um professor de Álgebra, mas parecia que tinha saído do meu maior pesadelo.

-Senhorita Cavalieri, creio que estejas brincando com minhas capacidades cognitivas e arranjou um meio de mostrar-me seu total desapreço por mim e pelo que ensino. – tão amável suas palavras… ele me olhava em tom de desaprovação, por cima do seu óculos e meio inclinado por cima da mesa.

-Desculpe, professor, não sei do que está falando, realmente eu.. não sei…- falei timidamente agarrando-me com a força que tinha na alça da minha bolsa tiracolo e tentando não me encolher tanto a ponto dele perceber.

– Não admito chacotas, mocinha, confesso que seu raciocínio ia bem até que por algum motivo a senhorita decide se enforcar na raiz quadrada e me desenhar ao lado de capuz e foice…- ele mostrou o desenho, não sei bem o que senti, tive vontade matar quem tinha feito aquilo.

– Não fui eu senh…- tentei me defender, mas ele estava uma fera comigo e eu não tinha culpa. A janela da sala se abriu e uma rajada de vento entrou por ela.

– Há apenas uma Gabriella Santina Cavalieri nesta turma, creio que deve ser este o seu nome- ele se levantou da mesa para fechar a janela, fiquei observando aquela situação.

– Sim, mas…- fui interrompida, nossa, pensei que seria expulsa.

-Sem rodeios, perdeste a metade da nota.- ele declarou. Fiquei frustrada, envergonhada. Pela janela da porta, Bianca me deu um tchauzinho. Sínica. Fiquei com muita raiva, se pudesse “voar” nela e dar umas bofetadas eu me sentiria bem. O copo que estava sobre a mesa do professor caiu. Escutei novamente uma música emanado da corrente dele.

2

Capítulo 1

Essa história que vou contar-lhes aconteceu não faz muito tempo, em uma cidade chamada Opala, em algum lugar por aí neste espaço. Eu vi tudo acontecer, acompanhei cada passo e sobrevivi, sobrevivi para conta-la para vocês. Torci muito para que Ariel, finalmente, fosse libertado.

***

Foi a primeira vez que o vi (assim pensava eu), era uma pintura a óleo muito velha e de formato oval, eu nunca tinha visto uma de perto, mas eu sabia que era das antigas. Estava em um álbum centenário, era a única entre as páginas amareladas e empoeiradas que me fizeram tossir um pouco e quase desisti do meu objetivo: que era limpar o sótão para abrigar meu “cantinho da bagunça”. Isso mesmo, um lugar onde eu (uma adolescente não muito comum) costuma ser não comum. Acabamos de mudar e aqui me pareceu menos pior que nossa outra casa. Minha mãe, apesar de desastrada, é uma ótima agente de turismo, o chato é que ela vive viajando e eu fico sozinha com o Eduardo(meu pai e dedicado professor de música) e o Gabriel (meu irmão caçula e eterno chato).

Fiquei observando a pintura: era um garoto da minha idade, eu acho. Com uma bicicleta esquisita, seu cabelo parecia loiro, por estar branco na pintura, o corte me lembrava o Troy de High School Musical . Seus olhos me atraiam, ele parecia olhar pra mim, me conhecer, me chamar. Que coisa, seduzida por uma fotografia antiga. Fiquei meio desconcertada com isso, sua fisionomia angelical…guardei a foto e continuei a mexer naquele mar de poeira tirando móveis, livros, caixas…mas aquela imagem não me saía da cabeça.

***

Gabriella puxou à mãe, Angélica, muito desastrada. É umas garota introspectiva e calada. Não é uma ótima aluna, mas seu dom para a música e arte atenuam isso. Não tem amigos e nem se preocupa em arranjá-los. Seus colegas consideram-na esquisita demais para se aproximarem. Sua pele de coloração meio amarela faz ‘jus’ ao seu cabelo extremamente negro disposto em cacheado nas pontas até a cintura. Seus olhos castanho-claro concordam com seus lábios finos e bem desenhados.

***

Estava concentrada, até que algo dentro do armário se mexeu, com medo, caminhei lentamente em direção a ele e tropecei em mais livros (foi uma bela queda!). Tremendo, abri a porta. Era Gabriel que acabara de me pregar uma peça, nestes últimos oito anos não tive mais sossego, mas eu o amo muito.

– Que droga, Gabriel!- saí correndo pela escada atrás dele.

-Pai! Pai! A Gabriella quer me bater sem motivo nenhum.- ela descia correndo, gritando, e, descaradamente, fingindo, aquilo me irritava mais ainda. E eu sabia que meus argumentos não iriam dar em nada. Meu pai estava afinando o violão sentado na poltrona verde, sua preferida.

-Pai, o Gabriel vive enchendo o saco, eu quase tive um ataque lá em cima, com uma brincadeira de mau gosto.- argumentei, apontando para a escada e defendendo minha razão.

– Querida, tenha paciência com seu irmão.- falou papai com sua voz sempre calma e eloquente enquanto prestava atenção nas notas do violão, parou e olhou para mim com o olhar que sabíamos muito bem “perdoe-o e convivam”. Esta era uma das lições que mais eram postas em prática na nossa casa, o que não impedia as constantes brigas com meu irmão caçula.

Subi as escadas furiosa, afinal, mais uma vez, o carinha havia se dado bem. Eu estava muito zangada, mesmo assim, voltei a fazer o que tinha me proposto. A comida estava no fogo e, a menos que quisessem comer queimada, deveriam cuidar do almoço. Era responsabilidade deles. Tranquei a porta ficando sozinha no sótão, as luzes começaram a piscar, um vento frio passou por mim, nem liguei muito, a casa é velha mesmo…

Assim, continuei remexendo tudo até a hora do almoço. Minutos depois, minha mãe ligou do Canadá perguntando como estávamos. Arrumei o sótão que ficou bem limpinho e o meu quarto também. O gran finale ficou com a minha placa de “Não pertube!”. Deu trabalho, mas o tapete ajudou a colocar o piano no local adequado, o teclado, a bateria, o violão e aguitarra de um lado do lugar e, do outro, minhas telas  e retratos. A mesinha redonda que uso para estudar (ou melhor, tentar) foi indispensável naquele espaço.

***

Ariel fez questão de analisar o perfil dos moradores, mas o de Gabriella foi impossível porque sua aúrea era pura. Funciona da seguinte maneira: os fantasmas podem ler mentes, “possuir” corpos, atravessar paredes, levitar coisas, voar e teletransportar, porém, se uma pessoa tiver esta áurea, seus poderes são bloqueados com relação a ela. Ter áurea pura significa ser livre de ambições e que a pessoa é voltada para o lado espiritual, uma espécie de transcendência metafísica. Gabriella por algum motivo conserva a sua intacta, dizem por aí que essas raras pessoas tem uma missão predestinada a seguir.

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No dia seguinte, domingo, era meu aniversário. Completei 16 anos e acordei com buzinas soadas pelo meu irmão. Surtei logo pela manhã. Tirei-o do meu quarto e deitei novamente sobre minha colcha florida, minhas mãos ficaram por baixo da minha cabeça e fiquei olhando para o teto. 16 anos e o que eu tinha feito de importante? Eu sabia que tinha uma missão, mas ela nunca tinha aparecido, talvez eu não a tivesse e seria apenas mais uma em bilhões. Passei meus olhos pelo local, o espelho ao lado da minha cama e que me permitia ver da cabeça aos pés tinha muitas fotos da família, momentos que eu considerava de mais alto valor, os dois criados-mudos na cabeceira, um com o a abajur e outro com o telefone e o despertador. Meu dormitório é paralelo à parede da porta e a janela que dá acesso à rua, é quadrada, centrada na parede. A escrivaninha com meu notebook e alguns livros, ah, e o meu diário! Eles ficam muito bem no canto do quarto, ao lado dele, fica meu guardarroupa na cor lilás. Ouvi baterem na porta e meu pai entrou com um bolo acompanhado com meu irmão cantando “parabéns”. Recebi um presente que namorava desde o natal passado: uma bailarina musical que se movia sobre a pista.

Mamãe ligou e disse já ter enviado meu presente. Desejou-me parabéns e perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que sim e conversamos um bom tempo. Depois. Fui banhar e subi para o sótão. Os instrumentos não estavam no lugar e gritei “Gabriel!”, mas a culpa não foi dele. Meu irmão, foi brincar na rua com nossos novos vizinhos, papai tentou me convencer a interagir com a vizinhança e não teve sucesso. Preparei a comida e fui limpar a casa, com fones de ouvido, não percebi que alguém estava na sala. Distraída, eu cantava, quando virei, o percebi, como estávamos muito próximos, tropecei nele e o rapaz me segurou para que eu não caísse. Tinha cabelos castanhos, fisionomia alegre e olhos pretos, ele fez o favor de me segurar.

– Oi, sou Charles- ele ajudou a me recompor, enquanto sorria da situação, o que me deixava mais constrangida- Tens uma voz e tanto, viu?

-Obrigada. Muito prazer, Gabriella.- corei com o elogio, sem mais.

-Charles?? Ah, você está aí. Oi, me chamo Fernanda, acho que seremos colegas de classe. Você é a Gabriella mesmo, não é? Ah, desculpa, devia ter perguntado primeiro.- ela parecia uma metralhadora com tanta coisa ao mesmo tempo.

– Sim.- ri, para disfarçar. Este é o tipo de situação que me deixava sem ação e reação. Torcia enormemente para que os vizinhos simpáticos fossem embora rapidamente.

– A Fê e eu somos irmãos, a caçulinha. Já vamos, né?- ele me olhou e por um momento, achei que ele havia lido minha mente- Não queremos incomodá-la. Soubemos que é seu aniversário, parabéns.- ele me estendeu a mão.

– Obrigada.- retribui, sua irmã, fez o mesmo gesto. Depois, saíram.

Respirei fundo e olhei para a mesinha de centro. E quase tenho outro ataque! Como que o retrato do garoto que eu havia encontrado estava ali ?!?. como sou desastrada e desatenciosa, achei que eu mesma o colocara ali. Olhei pela porta e vi os irmãos atravessarem a rua, na cozinha, um copo se quebrou. Levei um outro susto e fui recolher os estilhaços.

Os vizinhos de Gabriella, Charles e Fernanda, foram abandonados ainda crianças pelos pais. Foram criados por alguns tios até que o garoto atingiu a maioridade e levou sua irmã consigo quando conseguiu um emprego. A garota tem cabelo curto e castanho em forma de channel que dá graça à sua fisionomia pequena. Os dois, na verdade, são destinados a serem “anjos de passagem” que vêm à terra de tempos em tempos para ajudarem espíritos com coisas inacabadas a realizarem a passagem. Por terem forma humana, estão sujeitos a se corromperem.

***

À noite, haveria uma festa na cidade, meu pai e meu irmão foram e eu fiquei em casa, como sempre, sem multidão, sem som alto, apenas e eu e meus pensamentos. Decidi compor uma música, ultimamente, elas estavam muito tristes, mas era só mais uma fase depressiva minha que acabava refletindo no que eu pintava, compunha, cantava e tocava. Liguei o note depois e dei uma “navegada” na net, mas havia interferência. Bati na escrivaninha e tudo ficou normal, fiquei pensando nas coisas que estavam acontecendo naquela casa desde que havíamos chegado. Olhei para o lado do notebook e lá estava aquele garoto novamente. Desta vez coloquei-o na gaveta e tranquei-a bem. Os homens da casa chegaram e tive que banhar com meu irmão batendo e gritando na porta. Troquei de roupa, servi o jantar e fui para o meu quarto.

Sobre a cama, estava o retrato. Minha vontade foi de gritar, daquela vez, eu estava certa que ele estava trancado. Mas aquilo me hipnotizava, peguei a pintura em minhas mãos observando-a por um bom tempo. Analisei cada detalhe, intrigada, resolvi dormir. Precisava descansar, afinal, seria o meu primeiro dia de aula em uma nova escola. Era o segundo mês de aula, um bom motivo para não me ferrar com as notas. Necessitava dormir.